Na manhã desta quinta, 19, a imagem de capa da edição impressa da Folha de S. Paulo tem gerado polêmica nas redes sociais. “Foto feita com múltipla exposição mostra Lula ajeitando gravata e vidro avariado em ataque”, diz a legenda com crédito para a fotojornalista Gabriela Biló. A imagem vem como ilustração de matéria com o título: “No foco de Lula, presença militar no Planalto é recorde”. A dupla ou múltipla exposição é uma técnica fotográfica na qual o mesmo fotograma é exposto duas ou mais vezes. Considerada a princípio um erro, a dupla exposição foi utilizada de forma artística por muitos fotógrafos. A combinação de duas imagens pode criar uma terceira fotografia, em que o conteúdo sobreposto ganha um novo significado. A pergunta importante disso tudo seria: cabe a técnica de múltipla exposição no jornalismo?


Com isso em mente me lembro da música dos Engenheiros do Hawaii que dá título a esse artigo porque ele conversa com uma obra de Alberto Camus, “O Estrangeiro”. O livro conta a história de Meursault, uma personagem cuja personalidade é fora dos padrões. O livro se encaixa naquilo que chamamos de Literatura do Absurdo. Meursault simplesmente não toma decisões e é meio indiferente às coisas. Em certa parte do livro tem um diálogo que é mais ou menos assim:
A namorada dele:
– Você quer se casar comigo?
Meursault responde:
– Sim.
– Mas você me ama?
– Não.
– Se outra mulher lhe pedisse em casamento, você aceitaria?
– Provavelmente sim.
Eu não vou contar a história do livro, pois perderia a graça do futuro leitor, mas é um exemplo da literatura do absurdo, aquela que mistura gêneros, confunde e diverte. Então meu pensamento agora vai para: cabe falar em jornalismo do absurdo? É a pós-verdade, dizem. A pós-verdade é um fenômeno social em que informações embasadas ideologicamente, através da subjetividade, mesmo que falsas, ganham status de verdade e poder para manipular a opinião pública. Isso porque reafirmam convicções pessoais dos receptores da mensagem, se assemelhando da objetividade dos fatos. Ou seja, das narrativas jornalísticas que dão credibilidade à notícia. O uso criativo da dupla exposição pode gerar imagens fantásticas. Literalmente.

Um dos conceitos do jornalismo é aquele que fala é preciso contar a verdade de forma que as pessoas disponham de informação para a sua própria independência, mas a realidade é apenas uma das formas possíveis de inspiração para as representações. E, o jornalista, no exercício da profissão, é um grande reprodutor de realidades. Mas, porque não pensar: produtor de realidades?

A história registra casos em que, através dos meios de comunicação tradicionais, informações falsas eram utilizadas para tentar interferir na formação da opinião pública. Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, o Reino Unido criou uma série de rádios que se passavam por estações alemãs, para transmitir, além de músicas e resultados de futebol, notícias falsas e comentários contra Adolf Hitler.

O problema talvez não seja nem a foto em si, que é artisticamente bonita. A análise deveria ser a circunstância. Não haveria polêmica se o contexto fosse outro. Naquele espaço, a foto faz o leitor ter uma leitura errada da situação, criando uma falsa realidade. O tiro no peito – uma das interpretações possíveis – foi uma escolha irresponsável especialmente lembrando nosso passado. E, como já nos alertava George Santayana “Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”.