“Bruxa”. “Prostituta”. “Vagabunda”. “Arrombada”. “Podre”. “Horrorosa”.

Xingamentos refletem (no fundo, a falta de) valores. Numa sociedade machista, os piores direcionados a uma mulher são aqueles relacionados ao comportamento sexual.

Veja o termo “vagabunda”. Chamar uma mulher do adjetivo, de acordo com os valores culturais do país, é o mesmo que xingar de “piranha” ou “puta”. E isto é muito ruim para aqueles que supostamente defendem valores e bons costumes. A conotação sexual visa desqualificar e rebaixar a mulher.

Já se o homem for xingado de “vagabundo”, a conotação é bem diferente. Significa fracassado, sem trabalho, pobre. Até ofende, mas não tanto quanto verbalizada em relação a uma mulher.

O ideal de mulher na sociedade brasileira é a do recalque, e, por que não dizer, da falsidade.

Analisando que esses xingamentos foram proferidos pelo ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB — partido criado por Getúlio Vargas, em cujo governo as mulheres mudaram votar pela primeira vez; os tempos mudaram, como se vê, e para pior), ao falar da ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia (por sinal, irmã da mulher do empresário goiano Jalles Fontoura, de Goianésia), eles ganham contornos ainda mais claros do sistema hipócrita, machista e torpe.

Roberto Jefferson com Fernando Collor: o presidente que sofreu impeachment | Foto: O Globo

O petebista milita politicamente ao lado do presidente Jair Bolsonaro (PL). Ele se diz contra corrupção, mas, em 28 de novembro de 2012, foi condenado a sete anos e 14 dias de prisão em julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. O petebista se diz a favor da família e dos bons costumes, mas ataca ferozmente mulheres.

Roberto Jefferson é figura carimbada da política desde os anos Collor. Fez a defesa intransigente do ex-presidente Collor, que sofreu impeachment, em 1992. A prisão atual do ex-deputado federal é por conta do inquérito das milícias digitais. Recentemente, Jefferson vinha na toada de publicar fotos com armas e textos com ataques a ministros do STF. O de sexta-feira, 21, foi, sem dúvida, o mais violento e desrespeitoso.

“Fui rever o voto da Bruxa de Blair, da Cármen Lúcifer, na censura prévia à Jovem Pan, e não dá para acreditar”, diz Jefferson em vídeo publicado pela filha dele, Cristiane Brasil. “Lembra mesmo aquelas prostitutas, aquelas vagabundas, arrombadas, que viram para o cara e dizem: ‘Benzinho, no rabinho é a primeira vez’. Ela fez pela primeira vez. Abriu mão da inconstitucionalidade pela primeira vez. Bruxa de Blair, é podre por dentro e horrorosa por fora.” Trata-se do que um escritor do porte de Samuel Beckett chamaria de “inominável”.

Antes de ingressar na vida pública, o ex-deputado e presidiário teve destaque em um programa policialesco chamado “Aqui e Agora”, exibido na extinta emissora TVS, atual SBT. Resta saber se ele está apenas saudoso do programa policial ou se está apenas seguindo o fluxo violento do bolsonarismo.

Roberto Jefferson integra aquele Brasil, bárbaro e anti-civilização, que se recusa a se modernizar, a evoluiu.

Confesso que, ao escrever o texto, pensei em retirar as palavras execráveis. Mas não é possível. Trata-se de um documento da “estupidade” (diria Mário de Andrade) de alguns brasileiros. É um verdadeiro “suspanto”, como disse o autor de “Macunaíma”.

Quanto à ministra Cármen Lúcia, sua biografia pode ser resumida assim: decente, séria, responsável e competente. O país só tem a se orgulhar de seu trabalho como ministra do STF. O oposto, se aceitarmos a conclusão dos processos judiciais, daquele que a ataca.