É quase um jargão entre jornalistas o fato de que a chamada para uma matéria pode entrar em choque com a própria matéria ou modificar a história que ela conta.

Um artigo do “New York Times” de alguns dias atrás, assinado por Stuart A. Reid, tinha o seguinte título: “Foi um dos maiores crimes da Guerra Fria. Ninguém pagou por isso” (It Was One of the Cold War’s Greatest Crimes. No One Has Paid a Price).

É como se os contendores da Guerra Fria — EUA e URSS — tivessem cometido juntos um determinado crime. Mas, como denuncia o texto correspondente, não se trata disso. O gancho para o texto de Reid é a recente condenação de um ex-funcionário da embaixada belga no Congo, agora com 93 anos de idade, pelo envolvimento no assassinato do primeiro-ministro do Congo independente, Patrice Lumumba, na noite de 17 de janeiro 1961, aos 35 anos de idade.

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Como diz o enunciado, é verdade que ninguém foi punido. Mas o que a primeira parte dele omite é que os responsáveis pelo crime não foram uma impessoal Guerra Fria, e sim os governos da Bélgica e dos Estados Unidos.

O fuzilamento de Lumumba, poucos meses após a declaração de independência do país e sua escolha como premier, foi levado a cabo por capangas congoleses de belgas e estadunidenses — um costume largamente utilizado por imperadores e colonizadores.

Dizer que foi um crime da Guerra Fria é apontar para o contexto, sem dar nomes aos protagonistas. É quase o mesmo que dizer que a responsabilidade pelo crime, como declarou o chanceler belga em 2002, foi “de alguns membros do governo e alguns atores belgas na época”.

Na realidade, escreve Reid, “ninguém, além do povo congolês, jamais pagou um preço”.

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Stuart A. Reid: o jornalista conta como foi a participação da CIA no assassinato de Patrice Lumumba | Foto: Reprodução

Embora esteja documentada a ordem dada à CIA por Eisenhower para eliminar (“eliminate”) Lumumba e a participação direta de oficiais belgas na organização do assassinato, nem a Bélgica nem os EUA jamais assumiram qualquer ligação com o crime — costume abundantemente usado tanto pelo império quanto pelo colonizador.

(Reid é também o autor de “The Lumumba Plot: The Secret History of the CIA and a Cold War Assassination” [Vintage, 627 páginas]. Lançado nos Estados Unidos e na Inglaterra em janeiro de 2023, ainda não foi traduzido no Brasil.)

Propriedade do rei belga

Quase ao final do século XIX, um acordo entre europeus estabeleceu que o território de 2,34 milhões de quilômetros quadrados do Congo passava a ser propriedade do rei Leopoldo II da Bélgica, sob o sugestivo nome de Estado Livre do Congo. Assim permaneceu por quase um quarto de século.

Em 1908, passou ao controle formal do Estado, com o nome de Congo Belga. Em 1960, tornou-se independente.

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São os dados elementares da história e só são lembrados aqui porque falam por si. Na virada do milênio (quarenta anos, portanto, após a independência), o Congo tinha menos de mil km de estradas asfaltadas, conta David Van Reybrouck em “Congo — Uma História Épica” (Todavia, 656 páginas, tradução de Mariângela Guimarães). Informações mais atualizadas registram 2.700 km.

Enquanto isso, o país dos colonizadores, com um território oitenta vezes menor, possuía 130 mil km de estradas pavimentadas — a Argentina, com território semelhante ao do país centro-africano, possuía à mesma época 80 mil km.

Havia, no entanto, algo digno de inveja que a colônia possuía e o colonizador não: primeiro, as preciosas seringueiras para atender à explosão da demanda mundial por pneus — o resultado da sua exploração absolutamente predatória, cujo auge durou duas décadas (entre 1890 e 1908), foi direto para os bolsos do dono daquelas terras longínquas, o rei (Leopoldo II jamais pisou em sua propriedade).

Décadas depois, quando veio a independência, a demanda era de outra natureza: minérios, minérios raros e vitais para a segurança do planeta. E, de novo, a sorte caía no colo daquele imenso país no coração da África.

O subsolo do Congo era e segue sendo rico em cobalto e urânio — a ordem de importância desses minerais para a indústria mundial se alterou desde meados do século passado. Se antes o urânio era o mais cobiçado pelos donos do mundo, agora é o cobalto, parte das chamadas terras raras — essenciais para as tecnologias de última geração e usadas em celulares, computadores, TVs, turbinas eólicas, automóveis elétricos, ímãs superpotentes, indústria militar e aeroespacial, cores de LEDs e displays. Nada menos que 60% da extração mundial de cobalto é feita no país de Lumumba.

Setenta e cinco dias

No momento da independência, Patrice Lumumba, eleito primeiro-ministro, era o incontestado político mais popular do país e muito provavelmente o único àquela altura capaz de unificá-lo e iniciar a construção das instituições de um Estado moderno. Seu carisma e independência evidentemente não eram do agrado das grandes empresas mineradoras.

Na crise de poder artificialmente instaurada logo depois da sua eleição, todas as alternativas serviam aos Estados Unidos e aos interesses dos colonizadores europeus, exceto Lumumba.

Setenta e cinco dias após sua posse, em junho de 1960, foi destituído num golpe conduzido pelo chefe do Estado-Maior do Exército, Mobutu Sese Seko — e seis meses e meio depois, em janeiro de 1961, Lumumba foi executado.

Apesar de comandar o golpe, Mobutu só se tornou oficialmente chefe de Estado por meio de um novo golpe de Estado, em 1965.

Trinta e dois anos depois, bilionário (sua fortuna pessoal, de aproximadamente 5 bilhões de dólares, chegou a ser praticamente idêntica à da dívida externa do país), entregou o Congo finalmente unificado — e absolutamente em frangalhos, colapsado economicamente, com a infraestrutura para aquém do precário e, obviamente, com pobreza generalizada.

Em 1997, depois de um ano de guerra, Mobutu foi deposto e substituído por Laurente-Desiré Kabila.

Um ano depois, o Congo se vê submergido numa nova e muito mais devastadora guerra. A chamada Segunda Guerra do Congo ou Guerra Mundial Africana (por envolver vários países e produzir milhões de mortos) terminou oficialmente em 2003, mas na realidade se desdobra em intermináveis conflitos até os dias atuais.

As consequências do assassinato de Lumumba e da interrupção violenta do sonho de uma nação soberana e livre do domínio colonial ainda hoje atormentam o país, e o ex-Congo Belga segue pagando o preço de uma dívida que nunca contraiu, o preço da própria riqueza do seu subsolo e da sua exploração.

Sobretudo no leste do país, na fronteira com Uganda, Ruanda, Burundi e Tanzânia, as forças armadas congolesas, milícias locais e movimentos rebeldes se matam incansavelmente numa interminável guerra civil pela primazia das barganhas que entregam suas riquezas aos estrangeiros em troca do próprio enriquecimento. Nos mesmíssimos moldes estabelecidos por Mobutu, o homem que orquestrou o assassinato de Lumumba — e pelo secular colonialismo.

A execução de Patrice Lumumba

Segundo o relato de Van Reybruck, da execução de Lumumba participaram quatro belgas, o “comissário de polícia e assessor da polícia de Katanga, o capitão da gendarmeria da mesma província, um cabo e um tenente”.

Lumumba e mais dois companheiros “foram conduzidos um após o outro até a beira de um barranco… Tinham sido espancados e torturados. Eram esperados pelo pelotão de fuzilamento, quatro voluntários katangueses com uma metralhadora. Três vezes retumbou na noite uma salva ensurdecedora. Lumumba foi o último a ser executado. Às 21h43, o corpo do primeiro-ministro… caía de costas na vala”.

“Para apagar as provas da execução, o belga Gérard Soete, inspetor geral adjunto da polícia de Katanga, exumou os restos mortais das três vítimas. Soete esquartejou os cadáveres com uma serra e os dissolveu em ácido sulfúrico. Tirou dois dentes com coroas de ouro da mandíbula de Lumumba e cortou três dedos da sua mão. Na sua casa, em Bruxelas, conservou durante anos uma caixinha que às vezes mostrava às visitas. Continha os dentes e uma bala. Muitos anos depois os lançou no mar do Norte.”