Marcos Aurélio Silva
Marcos Aurélio Silva

Voto para o Legislativo não pode ser tratado com desleixo

A política não se limita ao Executivo. Mas a polarização que há no país acaba por dispersar a  preocupação com a escolha de deputados e senadores

Pesquisas eleitorais, notícias e principalmente as redes sociais demonstram a polarização política no Brasil. Ela é tão grande que supera até as diferenças entre classes sociais e religiões quando o assunto é “tensão social”, de acordo com o levantamento “Guerras Culturais”, da Ipsos. Segundo o levantamento, a cada dez brasileiros, oito dizem acreditar que há uma tensão elevada no País entre pessoas que defendem bandeiras partidárias diferentes. As diferenças ideológicas se agravaram nas eleições de 2018 e tendem a crescer ainda mais no período que antecede o pleito deste ano. E o antagonismo é alimentado por Jair Bolsonaro versus Lula. Como se a política brasileira se limitasse a esses dois pólos. Claro que o futuro do Brasil e todos os cidadãos estão relacionados a essa definição – mas não só a ela. 

A polarização Bolsonaro X Lula ganha proporções tão grandes que supera a média global de 28 países e coloca a polarização política como o principal catalisador de tensão no Brasil, na percepção dos próprios brasileiros. Ou seja, briga-se mais por política partidária do que por qualquer outro assunto. Exemplos dessa tensão e da violência política não faltam, e vão de bate-boca em grupos de família até casos extremos, como as ameaças de morte.

A polarização é alimentada pelos dois lados. Ambos são acusados de criar e fortalecer seus antagonistas – como naquela de quadrinhos, que a existência do vilão é que dá sentido ao herói. 

Essa polarização é real e dá sinais de que haverá alguma mudança daqui outubro, quando os eleitores vão às urnas para escolher. Mas o que o cidadão brasileiro não pode se esquecer é de que a política nacional não se limita apenas à figura do presidente. Há mais gente fazendo política. Alguns embarcando na polarização, uns ao meio sem declarar lados e outros à margem.

Nada mais natural que, no período eleitoral, as atenções se concentrem nos candidatos ao Poder Executivo – caso de governadores e presidente da República, em outubro próximo. Afinal, são eles que possuem maior espaço nos noticiários e acabam por expor suas plataformas, declarações e atos de campanha, são eles que encarnam as ideologias e projetos que pretendem chegar ao poder. Mas a cada quatro anos escolhemos os representantes do Legislativo estadual e nacional.  E, embora muitos eleitores ainda desconsiderem essas escolhas, elas são tão importantes quanto a definição do voto para presidente. 

O eleitor precisa entender essa importância do voto para Legislativo, sabendo que o equilíbrio da democracia está na tripartição de Poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário. Esse equilíbrio pode tender e ser abalado quando um dos poderes é mal composto.

Dos políticos eleitos em 2018, 35% respondem a processos. deputados e senadores que já elegeram em 2018 embora a Justiça os esteja processando por corrupção, lavagem de dinheiro, assédio sexual, fraude e numerosos outros delitos. Trata-se de 160 parlamentares e 38 senadores. E eles vão querer se manter no poder, como ocorre há décadas. 

Esse número demonstra como o voto para o Legislativo continua a ser tratado com desleixo. Quando o brasileiro vota em um candidato a deputado ou senador ignorando suas propostas ou sua postura ética, ou quando reelege parlamentares envolvidos em escândalos de corrupção, deixa aberto o caminho para que permaneça tudo como está. 

Embora não haja perspectiva de mudança no radicalismo e polarização no que se refere a escolha para presidente, eleitores devem apelar à consciência na hora do voto para o Legislativo, sabendo que um candidato de passado e presente limpos, comprometido com bons ideais e interessado em trabalhar por eles sem usar seu apoio como moeda de troca em negociatas com o Poder Executivo, poderá mudar o Congresso para melhor.

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