Cezar Santos
Cezar Santos

A vida além da política e dos políticos

Aumento nas vendas no varejo em abril mostra que há um Brasil preocupado em trabalhar e seguir a vida produtivamente, apesar de governos e partidos

Mesmo pequeno, aumento das vendas no varejo prenuncia retomada de normalidade na economia | Foto: Pedro Dias/ Divulgação

A política tem causado praticamente apenas notícias ruins. A impressão é que o Brasil nunca esteve tão atolado na corrupção e na incúria como nos últimos anos. E talvez seja exatamente esse o grande legado que o Partido dos Trabalhadores e seus aliados deixam nos seus 13 anos de domínio da política federal. Não que a oposição ao petismo tivesse sido melhor, o PSDB de Aécio Neves está aí para não deixar dúvida.

O desalento da maioria dos brasileiros é nítido, basta ler com um pouco mais de atenção as colunas de cartas dos jornais e revistas. Mas é necessário observar que uma boa parte da população — a maioria, certamente – está mais preocupada em continuar trabalhando, estudando, ganhando a vida, provendo o sustento de suas famílias. Essas pessoas não quedam paralisadas pelos políticos e suas corrupções, apesar de não ficarem indiferentes ao descalabro ético.

Uma prova de que os brasileiros seguem em frente, apesar da política, se dá no aumento do volume de vendas no varejo em 1% entre março e abril. O anúncio do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na semana passada registra que se trata do melhor resultado para abril desde 2006, quando houve alta de 1,1%. Em abril de 2008, o varejo também tinha registrado elevação de 1%.

Conforme os dados do IBGE, comparado a abril de 2016, o varejo cresceu 1,9%, o que interrompeu 24 meses de quedas seguidas nessa relação. No acumulado do ano, o setor apresentou queda de 1,6%. Nos 12 meses encerrados em abril, houve decréscimo de 4,6%.

Não são números extraordinários, está claro. Mas reportagem do “Valor”, o mais importante veículo de economia, finanças e negócios do Brasil, registra que o resultado de abril veio melhor que a média estimada junto a 17 economistas e instituições financeiras ouvidas em pesquisa do jornal, que era de queda de 0,4%. O intervalo das estimativas variava de alta de 1,3% a recuo de 1,6%.

A principal influência positiva partiu do setor de hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo, que apresentou aumento de 0,9% nas vendas, após 6% de queda acumulada nos dois meses anteriores. Isso mostra que os brasileiros estão voltando a compara mais alimentos, e/ou alimentos mais caros.

Não tenho o objetivo de esmiuçar os dados informados pelo IBGE. Mas claro está que há um iní­cio de recuperação da atividade econômica, o que mais à frente resultará em crescimento efetivo, em geração de empregos, e aumento de renda.

Na semana passada, por sinal, o ministro da Fazenda, Henrique Mei­relles, disse que a taxa de desemprego deve começar a cair a partir de agosto. A opinião foi expressada em sua conta no Twitter. “Temos que levar em conta que estamos saindo da maior recessão da nossa história, que deixou 14 milhões de brasileiros sem emprego. Os efeitos de uma recessão tão forte quanto a dos últimos anos não desaparecem do dia para a noite”, disse.

O ministrou lembrou que, pela primeira vez em três anos, o desemprego parou de subir em abril. “E a partir de agosto esta taxa deve começar a cair”, disse.

Antes, também pelo Twitter, o ministro da Fazenda já tinha dito que “pre­visões econômicas são de au­mento do emprego durante o ano, re­tomada dos investimentos e manutenção dos gastos sociais do governo”.

Henrique Meirelles tem certo cuidado ao fazer previsões para a economia. Ele não faz o tipo “otimista cego”, como o petista Guido Mantega, que pintava cenários róseos totalmente contrários às evidências. Por essa razão, o vaticínio de Meirelles merece credibilidade.

Quando começar a ser melhorado o problema do desemprego, será o indicativo mais seguro de que a situação da economia mudou de rumo. É o Brasil dos brasileiros que seguem trabalhando, produzindo, enquanto a classe política insiste nos vexames de corrupção.

Condenação de Sergio Cabral é alento para os honestos

Ex-governador Sergio Cabral: condenação a 14 anos de cadeia por corrupção e lavagem de dinheiro | Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil

Aos brasileiros que trabalham, pagam a mais alta carga tributária do mundo e recebem em troca serviços ridículos em saúde, educação, infraestrutura e tantos mais, às vezes pode dar desânimo de ser honesto. Por isso, o fato de figurões serem pegos em desvio de dinheiro público, e devidamente condenados no rigor da lei, serve de estímulo para a persistência na honestidade.

O exemplo mais flagrante da desgraça que um governante corrupto causa ao povo está no Estado do Rio de Janeiro, mergulhado no caos administrativo, um dos resultados diretos da pilhagem que o ex-governador Sergio Cabral (PMDB) e seus asseclas fizeram aos cofres públicos. Para se ter uma ideia, o funcionalismo estadual está com salários atrasados – nem o 13º foi pago – e vários serviços foram paralisados ou estão funcionando em condições precárias.

Na terça-feira, 13, o juiz federal Sergio Moro, da 13ª Vara Criminal Federal, de Curitiba (PR), tornou pública sentença de condenação do ex-governador do Rio de Janeiro Sergio Cabral (PMDB) a 14 anos e dois meses de reclusão, em regime fechado, pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro.

Infelizmente, Moro não conseguiu formar convicção para condenar a mulher de Cabral, Adriana Ancelmo, que também era ré nesta ação. Ela foi absolvida “das imputações de crimes de corrupção passiva e de lavagem de dinheiro por falta de prova suficiente de autoria ou participação”.

Reportagem do “Valor” registra que o ex-governador e Adriana foram acusados pela força-tarefa da Lava Jato no Ministério Público Federal (MPF) de receber R$ 2,7 milhões em propina relativa a obras do Comperj, com intermediação de Paulo Roberto Costa, da Andrade Gutierrez.

Na sentença, Sergio Moro condiciona a progressão de regime para a pena de corrupção de seis anos e oito meses “à efetiva devolução do produto do crime, no caso a vantagem indevida recebida”. Cabral e Adriana foram acusados pela força-tarefa da Lava Jato no Ministério Público Federal de receber R$ 2,7 milhões em propinas da empreiteira Andrade Gutierrez relativa a obras do Comperj, com intermediação do ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa.

Os crimes de lavagem atribuídos ao ex-governador, sua mulher e um grupo de assessores incluem oito compras de roupas, ternos, relógio e acessórios na Erme­negildo Zegna, parte deles sob medida, nos valores de R$ 26.840, R$ 31.925, R$ 89.950, R$ 23.875, R$ 15.000, R$ 37.715, R$ 19.385 e R$ 14.255, além de compras de móveis e acessórios de decoração, a blindagem de um automóvel Land Rover e a compra de um barco de R$ 264 mil.

O Ministério Público Federal anota em suas alegações finais: “Os criminosos agiram com amplo espectro de livre-arbítrio. Não se trata de criminalidade de rua, influenciada pelo abuso de drogas ou pela falta de condições de emprego, ou famélica, decorrente da miséria econômica. São réus abastados que ultrapassaram linhas morais sem qualquer tipo de adulteração de estado psíquico ou pressão, de caráter corporal, social ou psicológica. Suas ações foram movidas com o fim único de enriquecimento pessoal, ao tempo em que a população carioca foi deixada às mínguas”.

A Sergio Cabral, Moro também imputou o pagamento de 250 dias-multa – cada um foi fixado pelo juiz em “cinco salários-mínimos vigentes ao tempo do último fato delitivo”, ou seja, maio de 2014. Isso significa uma multa de R$ 905 mil.

“Não pode haver ofensa mais grave do que a daquele que trai o mandato e a sagrada confiança que o povo nele deposita para obter ganho próprio. Ademais, as circunstâncias da cobrança da vantagem indevida e da lavagem subsequente, que se inserem em um contexto maior de cobrança de propina sobre toda obra realizada no Rio de Janeiro, indicam ganância desmedida, o que também merece reprovação especial”, critica Sergio Moro, a respeito de seu xará.

O juiz também mantém a prisão preventiva, negando o direito de recorrer em liberdade. “Com a prolação da sentença, reforçam-se os pressupostos da preventiva. Não há mais somente boa prova de autoria e materialidade da prática de um crime. Há agora certeza, ainda que sujeita a eventual revisão em recursos”, justifica.

A torcida agora é para que Sergio Cabral e sua turma peguem mais anos de cadeia nos outros processos em que são réus.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.