Marcos Aurélio Silva
Marcos Aurélio Silva

Vacina contra Covid não tem grife e todas salvam vidas

Recusar qualquer que seja a vacina e sua fabricante, é ato de egoísmo e desrespeito aos mais de meio milhão de mortos que não tiveram chance de receber a imunização

A vacinação tem avançado. Demorou para engrenar um bom ritmo, mas as cidades têm conseguido manter a oferta dos imunizantes, a faixa etária tem baixado a cada dia e os grupos prioritários comemoram a cada dose recebida. Mas, embora muitos façam previsões, não está claro quando o País vai atingir o patamar de imunização que vai impedir a disseminação comunitária do coronavírus e, consequentemente, decretar o fim da pandemia. Em razão disso precisamos seguir priorizando a vacinação.

Acontece que tendo vacina em estoque e mantendo o avanço da imunização, parte dos brasileiros entraram agora em uma nova onda – querem escolher a marca da vacina. Como quem vai a uma loja, algumas pessoas chegam aos postos de vacinação e antes mesmo de pegar a fila questionam qual é a “grife” da vacina. Caso não seja a esperada, dizem que voltam depois, quando chegar a dose da fabricante desejada. 

Na última semana as cidades goianas começaram a vacinar os profissionais de imprensa. Assim, eu pude me imunizar – um contentamento sem tamanho. E, enquanto aguardava minha vez para levar a bendita picadinha, pude testemunhar que há sim aqueles que, mesmo compondo grupo de risco, ainda fazem escolhas de “grife” de vacina. Vi pessoas confirmando que voltaria para se vacinar só quando tivesse em estoque a marca desejada. Em brincadeira até sugeri para a profissional de saúde que aplicava as doses adotar o chá de revelação da vacina –  assim como é feito com as grávidas que mantêm em segredo o sexo do bebê e fazem a revelaçao em um evento festivo. 

A primeira solução para solucionar a escolha de marcas de vacina que veio à minha cabeça foi tão óbvia que muitas cidades já até tomaram a medida. Como o exemplo dos municípios de São Bernardo e São Caetano, no ABC Paulista, que publicaram decretos em que estabelecem que aqueles que se recusarem a tomar a vacina da Covid-19, por preferência de fabricante, vão para o fim da fila. Decisão correta e encorajadora, pois estes, deverão assinar um termo, e assim só poderão ser imunizados quando todas as pessoas adultas da cidade tiverem recebido suas doses. Segundo dados das prefeituras das cidades citadas, quase mil pessoas que poderiam estar imunizadas, rejeitaram a vacina.

Veja, no Brasil há atualmente quatro “grifes” de vacina. Contamos com a Coronavac, Astrazeneca, Pfizer e, a partir da última semana, a Janssen. Não se sabe ao certo de onde surgiu a onda de escolher a marca da vacina –  até então ninguém nunca se preocupou em saber quem fabricava as doses contra H1N1, por exemplo. O que se sabe dessa simpatia por uma fabricante ou outra não é fruto de orientações de médicos, especialistas ou estudiosos, já que estes já gritaram aos quatro cantos que a recomendação é tomar a vacina disponível.

Há muitas razões para que as autoridades sanitárias se posicionem contra atos de egoísmo e falta de informação que levam as pessoas escolher marcas de vacinas, mas a principal delas é que a vacinação não é apenas uma ferramenta de proteção individual, e que apenas aquele vacinado está protegido. Se trata de uma medida para proteção coletiva da sociedade. Isso porque a vacinação quando ocorre em massa atinge o objetivo de  impedir a circulação do vírus. Esse feito é o que tanto ouvimos falar (principalmente na CPI da Covid) chamada de imunidade coletiva.

A internet nunca perdoa. Nas redes sociais, quem fala em escolher a vacina pela marca do fabricante ganha o apelido de “sommelier de vacina”. É preciso que a população entenda, de uma vez por todas, que todas as vacinas disponíveis no Brasil são eficazes, seguras e foram aprovadas pela Anvisa e pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Todas as marcas doses disponíveis no Brasil, em que pesem seus diferentes percentuais de eficácia geral, todas dão ampla proteção contra casos graves de covid-19, o que praticamente elimina o risco de internações e mortes em decorrência da doença no caso de contágio.

Adiar a própria vacinação por querer escolher qual marca tem o nome que soa melhor para publicar nas redes sociais é atestado de egoísmo. Sabendo que mais de meio milhão de pessoas morreram em decorrência da doença, e a maioria não teve nem perto da perspectiva de se vacinar com qualquer uma das “grifes” que estão disponíveis hoje torna essa situação ainda mais vergonhosa.

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