A tragédia que aflige os Yanomami foi longamente construída, de forma tão reiterada que é difícil não classificar o caso como um projeto deliberado de genocídio. O governo federal e as Forças Armadas poderiam ter interrompido o processo a qualquer momento, mas gastaram recursos e esforços na direção oposta. Governo e militares agiram para levar os agentes que mataram os Yanomami ao local, depois agiram para impedir que a ajuda de organizações independentes chegasse à região, e por último agiram para impedir que a sociedade soubesse do que estava acontecendo, ao esconder relatórios que denunciavam a situação. 

Na sexta-feira, 20, o Ministério da Saúde decretou estado de Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional para tentar solucionar a crise alimentar e sanitária que já levou a vida de 570 crianças Yanomami. Com este recurso, o Executivo federal pôde realizar mais de mil atendimentos aos indígenas em cinco dias, montar aeroporto e hospital de campanha na região. A agilidade com que o governo Lula (PT) começou a resolver o assunto leva a questionar as razões para o fracasso do governo anterior. 

Não se cria uma tragédia humanitária por omissão. Não basta um deslize para causar cenas de guerra dentro de um país em paz. A catástrofe não é um acidente provocado pela natureza. É produto de uma cadeia de erros. Lidando com a questão indígena há séculos, o Brasil possui órgãos cuja função é se certificar de que cada um desses erros não aconteça. O principal desses órgãos é a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), que foi aparelhada nos últimos anos para favorecer determinadas Ongs (como a evangélica Caiuá, que recebeu R$ 872 milhões sem prestar serviço algum pelos Yanomami). 

Durante a semana, diversas reportagens revelaram o que Bolsonaro (PL) fez com a verba destinada à saúde daquela comunidade. Segundo coluna de Álvaro Gribel no jornal O Globo, quase toda a verba beneficiou organizações pouco eficientes, cujos donos são grandes garimpeiros na região. Fontes do jornalista de dentro da Funai explicam que nos últimos quatro anos os garimpeiros expandiram seus negócios para o transporte aéreo, impedindo que profissionais de saúde, antropólogos, sociólogos e agentes públicos chegassem até a terra Yanomami.

Dados trazidos a público recentemente revelam que garimpeiros também levaram infecções sexualmente transmissíveis (IST) e exploraram as adolescentes indígenas. Dois relatórios de inteligência da Funai feitos em 2019 descreveram a situação ao Ministério dos Direitos Humanos, então comandado por Damares Alves (Republicanos), e foram sumariamente ignorados. Os documentos apontam que os garimpeiros condicionam a oferta de alimentos a favores sexuais das jovens Yanomamis. Em 2020, pelo menos três garotas de 13 anos morreram em decorrência das ISTs. 

Os relatórios registrados a Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos também informam que os garimpeiros têm relação de parentesco com militares do Sétimo Batalhão de Infantaria da Selva (BIS), que por sua vez vazavam informações sobre operações de combate à atividade ilegal e permitiam a circulação de ouro ou drogas mediante pagamento de propina.

Se lê no documento: “Ao chegar na ‘Currutela do Coito’ […] encontramos o local totalmente vazio, com exceção de um cidadão e sua esposa. Ficou claro que todos sabiam da chegada da tropa e evacuaram o local.” O vazamento de informações era feito, em muitos casos, por um grupo de WhatsApp. 

“[Meu chefe] possui diversos militares comprados que trabalham como informantes”, diz uma das fontes em depoimento à Funai. O pagamento, além de dinheiro vivo, é feito em ouro. Em um dos relatos, mostra o jornal, um garimpeiro paga 10 gramas de ouro mensalmente a militares que avisam quando os soldados entram na terra indígena yanomami e quando saem, além de mostrarem as rotas em que irão passar e quantos são os membros da operação. 

Como grande parte dos povoados de Roraima são isolados, os indígenas não possuem a memória imunológica que protege aqueles que viveram em grandes sociedades contra doenças. Além disso, a atividade de mineração cria represas para descarte de rejeitos, locais onde se multiplicam os mosquitos do gênero Anopheles, transmissores da malária. A região possui cerca de 30 mil habitantes e, somente em 2022, foram registrados 11.530 casos de malária nesta região.

O governo e as forças armadas brasileiras agiram para impedir que o medicamento usado para tratar a malária chegasse à região. A cloroquina, usada para tentar combater a Covid-19 mesmo sem evidência de eficácia, falta na região já há pelo menos dois meses. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), principal produtora do medicamento para o Ministério da Saúde, afirmou que a produção continua normalmente, o que indica que a cloroquina produzida para tratamento da malária está sendo desviada. 

Em 2021, a Hutukara Associação Yanomami denunciou que garimpeiros estavam sendo vacinados em troca de ouro por profissionais de saúde que atuam na Terra Yanomami. Autoridades de Roraima fizeram pressão para redirecionar parte das doses dos indígenas, um grupo prioritário, para não-indígenas. 

Toda essa corrente de erros foi supervisionada e engendrada principalmente pelas forças armadas. O Exército Brasileiro é uma das poucas instituições de Estado a estar fisicamente presente com seus oficiais em território Yanomami. Além de falhar em sua atribuição de proteger os habitantes da região, oficiais atuaram na tragédia alertando garimpeiros sobre ações de fiscalização.

Os militares de um governo militarizado acumulam dívidas com a sociedade civil, afinal são fiadores do fiasco do enfrentamento à pandemia; foi o general Ramos, na Secretaria de Governo, quem criou o orçamento secreto; as Forças Armadas incentivaram o golpe até o último segundo. Apesar disso, militares continuam encarando os civis como cidadãos de segunda classe e os indígenas como cidadãos de terceira. Os militares continuam pensando que o restante da sociedade precisa de sua tutela, e não parecem compreender que sua tutela mais mata do que salva.