Cezar Santos
Cezar Santos

Trabalhador, seu FGTS também foi entregue aos “carniceiros”

Governos petistas não se contentaram em dar apenas os recursos bilionários do BNDES aos irmãos Joesley e Wesley Batista e demais aliados na corrupção

Joesley e Wesley Batista: dinheiro farto para crescer e pagar propina aos governos petistas e aliados, como Eduardo Cunha

A formação de “campeões nacionais” foi uma política deliberada dos governos de Lula da Silva e Dilma Rousseff para criar “caixas” à disposição das eleições do PT e aliados. A recente confissão dos donos do grupo JBS, Joesley e Wesley Batista, de que pagaram propina para receber empréstimos de bancos públicos dirimiu quaisquer dúvidas que pudessem restar sobre isso.

Com dinheiro altamente subsidiado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), injetado com recursos do Tesouro Nacional, ou seja, dos brasileiros, empresas amigas foram selecionadas para se tornar gigantes em seus setores e, na versão oficial, competir globalmente. Na verdade, recebiam dinheiro público para devolver comissões ao PT e seus aliados.

Um parêntese: Este texto estava sendo finalizado no final da tarde de sexta-feira, 26, quando foi divulgado que a presidente do BNDES, Maria Sil­via Bastos, tinha pedido demissão. Pelo que consta, ela havia se tornado inimiga de empresários acostumados ao dinheiro fácil e estava sofrendo resistência do corporativismo ferrenho da área técnica do banco.

Voltemos. Mas não “apenas” recursos do BNDES foram injetados nessas empresas participantes de esquema de corrupção. Também o dinheiro do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) foi dado praticamente de graça aos empresários picaretas.

O FGTS foi instituído em 1966 e é um depósito mensal que toda empresa faz para os funcionários contratados pelo regime CLT. Na prática, funciona como um seguro no caso de demissão sem justa causa, mas também não deixa de ser uma poupança. O trabalhador pode sacar em caso de demissão sem justa causa e aposentadoria, além de outras possibilidades como doenças graves.

Em 2007, no governo Lula, foi criado o FI-FGTS, que vem a ser o Fundo de Investimento do FGTS. O objetivo foi proporcionar a valorização das cotas por meio da aplicação de seus recursos na construção, reforma, ampliação ou implantação de empreendimentos de infraestrutura em rodovias, portos, hidrovias, ferrovias, aeroportos, energia e saneamento.
Conhecedores que somos do caráter dos governos petistas, a coisa acabaria servindo para fazer mais falcatruas. Não deu outra.

Campeões da corrupção

Reportagem da CBN mostra que o FI-FGTS serviu também para irrigar os “campeões” de corrupção do PT. As informações que seguem são da reportagem.

Com patrimônio de mais de R$ 30 bilhões geridos pela Caixa Econômica, o Fundo despertou o de­sejo das grandes corporações, como Odebrecht e JBS, interessadas em receber seus aportes. O dinheiro do FGTS é o mais barato do mercado, com condições ainda melhores que os créditos do BNDES, ou qualquer outra aplicação.

Fala pesquisadora da Uni­ver­si­dade de São Paulo (USP), Cláudia Elói, consultora em financiamento habitacional. “Por que (o FI-FGTS) é um sócio muito pouco exigente. É uma condição que não se vai encontrar em nenhum fundo de investimento administrado para dar resultado. A rigor, você não precisa apresentar um projeto que tenha uma rentabilidade esperada, exigida pelo mercado”, diz Cláudia.

A J&F, holding que administra a JBS, recebeu quase R$ 3 bilhões em investimento do Fundo, a maior parte na indústria de celulose e Eldorado. Segundo Wesley Batista, em troca o grupo pagou R$ 90 milhões em propina.

Nesse caso, o lucro de uma empresa envolvida em corrupção, com um projeto que nada tem a ver com infraestrutura, foi financiado com o dinheiro do trabalhador, como explica o economista Gilberto Braga, do IBMEC do Rio: “Precisa discutir de uma forma mais ampla, mais transparência, quais são os critérios para se investir os recursos, que na prática pertencem ao trabalhador, o governo é só um gestor. Onde esse recurso será investido?”.

Os destinos dos recursos do Fundo é definido pelo comitê de investimentos, formado por indicações políticas. São 12 membros, 6 deles escolhidos pelo governo, 3 por entidades empresariais, e 3 por centrais sindicais.

Em delações primadas, executivos da Odebrecht, OAS e da Carioca Engenharia admitiram o pagamento de propinas milionárias a integrantes desse comitê ou aos responsáveis por indicá-los, como Eduardo Cunha.

Fala da professora de Plane­jamento Urbano da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, Luciana Royer, pesquisadora do FGTS, que questiona a destinação dada ao Fundo: “O FGTS tem um caráter de política pública. O que está acontecendo agora é que ele está virando um player de mercado. Mas onde é que investe em política pública? O melhor é nesses empreendimentos da Odebrecht, da JBS?”.

Eduardo Cunha indicou o aliado Fábio Cleto para o comitê de investimento do FI-FGTS. Em delação à PGR (Procuradoria-Geral da República), Cleto disse que ele, Cunha e o doleiro Lúcio Funaro cobravam até 1% de propina a cada repasse do Fundo às empresas. A Odebrecht admitiu que pagou R$ 20 milhões de propinas a Cunha.

Já a Carioca Engenharia diz ter repassado R$ 52 milhões ao ex-deputado pelas obras do porto Maravilha, no Rio. Cunha sempre negou. Em entrevista no ano passado, ele acusou Moreira Franco, homem forte do governo Temer, de estar por trás do esquema do porto Maravilha. Moreira Franco nega a as acusações de Cunha.

Também em delação premiada, Joesley disse que o dinheiro da JBS entregue a Cunha e a Funaro, tinha como objetivo justamente evitar que ambos fizessem revelações comprometedoras contra o núcleo duro do governo Temer.

‘The Economist’: carniceiros que podem acabar com Temer

A edição desta semana da revista britânica “The Econo­mist” traz artigos sobre a crise po­lítica do governo Michel Te­mer. Con­for­me a coluna Radar On-Line, de Veja.com (quinta-fei­ra, 25), a publicação descreve os irmãos Wesley e Joesley Batista co­mo os “os carniceiros que podem acabar com a presidência”.

A revista destaca o crescimento acelerado da JBS, que saltou de um lucro anual de 1,8 bilhão de dólares em 2006 para 170 bilhões em 2016. Fruto direto da tal política de “campeões” do PT para seus comparsas na elite empresarial.

“Enquanto a JBS comprava companhias rivais, os Batista compravam políticos. As doações de campanha saltaram de 20 milhões de dólares em 2006 para 400 milhões de dólares nas eleições de 2014”, explica a “Economist”.

A publicação anota que, apesar dos benefícios da delação premiada, Joesley e Wesley ainda podem ser punidos. “Os açougueiros não estão totalmente livres. A JBS terá de enfrentar ações judiciais de acionistas nos Estados Unidos”.

Prisão para eles

A título de curiosidade, o Instituto Paraná fez uma pesquisa nacional sobre o caso JBS.

Os resultados:
Os irmãos Joesley e Wesley Ba­tis­ta deveriam ser condenados à prisão?
Não 19,7%
Sim 75,7%
Não sabe/não opinou 4,6%

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