Marcos Aurélio Silva
Marcos Aurélio Silva

Sem liderança, oposição em Goiás segue pulverizada

Articulações feitas pelo governador Ronaldo Caiado tem feito com que as reconfiguração políticas neutralizem grupos opositores

A eleição de 2022 já é pauta e está na agenda política há um tempo, afinal, daqui a um ano e dois meses já estarão rolando os prazos para desincompatibilização. No entanto, a largada para o pleito já foi dada, embora em Goiás a percepção é de que o governador Ronaldo Caiado (DEM) esteja solitário nesta corrida. 

Muito pode mudar até as eleições para o governo do Estado, mas cabe avaliar com as peças que estão em jogo no panorama atual. E a julgar pelas últimas mexidas no tabuleiro e a visão de horizonte político em Goiás, a sensação é de que Caiado caminhará até as urnas com certa tranquilidade. O que provoca esta percepção é a ausência de uma figura que lidere à oposição em Goiás.

O desenho deste cenário se deve em parte às articulações lideradas pelo próprio Ronaldo Caiado, que foram iniciadas desde o momento em que o democrata assumiu o Palácio das Esmeraldas. O principal êxito das movimentações colocadas em prática por ele está no resultado das eleições municipais, no qual o DEM trabalhou para se fortalecer e retirar os espaços de partidos que poderiam encabeçar a oposição em Goiás.

O DEM, sob o comando de Caiado, conseguiu eleger 62 prefeitos em 2020. A eleição municipal representou a consolidação do grupo caiadista na região Sudoeste. Mais do que isso, resultou no avanço da base governista no entorno do Distrito Federal, o que tem um significado muito forte para 2022 — a região era reduto de Marconi Perillo (PSDB), que tinha como estratégia usar o que restava de prestígio do PSDB no Entorno para liderar a oposição.

O PSDB saiu enfraquecido das eleições municipais e mesmo que ainda seja o partido que represente a principal oposição ao grupo caiadista, por certo falta um nome que lidere esse projeto e que coloque em prática um discurso antagônico para 2022. O atual presidente estadual da sigla, Jânio Darrot, já deu declarações que o PSDB não deve encabeçar o bloco oposicionista. A bem da verdade, o que os tucanos aguardam é poder se juntar a um grupo adversário ao governador Caiado, mas, ao que se apresenta, ainda não encontrou esse caminho. O espaço de oposição segue com grandes vácuos e sem líderes que possam trabalhar pela união entre os que se divergem do atual governo.

O PT segue sufocado e, portanto, menor. A eleição em Anápolis, que as pesquisas apontavam uma vitória fácil de Antônio Roberto Gomide (PT), gerava uma expectativa de que o partido poderia ganhar nova evidência e musculatura para 2022. Mas o resultado previsto não se firmou e o PT saiu derrotado. O mesmo ocorreu na capital com Adriana Accorsi, que ficou em terceiro lugar na disputa pela Prefeitura de Goiânia. A sigla busca um rearranjo no grupo, que sente a falta de alguém que personalize a oposição petista em Goiás. 

O resultado da eleição em Goiânia apontou de onde poderia surgir um foco de oposição a Caiado já com discussões para 2022. A chapa encabeçada por Maguito Vilela (MDB) venceu Vanderlan Cardoso (PSD), que era apoiado pelo governador. No entanto, a morte do emedebista provocou alterações em todo o processo. Rogério Cruz (Republicanos), que assumiu a Prefeitura de Goiânia, demonstra interesse pela aproximação com Caiado, e, pensando em parcerias administrativas para o sucesso de sua gestão, não deve dar espaço para nenhum palanque oposicionista.

Todos analistas políticos tinham clara a posição de que o presidente regional do MDB e filho de Maguito, Daniel Vilela, se colocaria de imediato como uma liderança oposicionista ao grupo caiadista. Para esse projeto ele poderia contar com o apoio do prefeito de Aparecida de Goiânia, Gustavo Mendanha (MDB) — ele que é muito bem avaliado na cidade que representa o segundo maior colégio eleitoral do Estado. 

A liderança que Daniel Vilela exerceu nos momentos mais críticos da campanha de seu pai foi decisiva para a vitória na capital. No entanto, esse cenário que colocava o MDB em lado oposto ao DEM em 2022 já não é tão certo. Aliás, o mais correto é apontar uma aliança forte entre as siglas, inclusive com o líder emedebista compondo a chapa que será encabeçada por Caiado em 2022. As conversas nesse sentido já foram iniciadas. Essa composição agrada a maior parte dos correligionários, inclusive Iris Rezende, que, apesar de se dizer aposentado, segue nas articulações políticas e é apoiador do governador.

A conclusão até aqui é de que toda reconfiguração política no Estado parte das articulações feitas pelo grupo caiadista. Nessa órbita ainda não se formata um grupo de oposição que, a essa altura, mesmo sem apresentar um candidato, poderia trabalhar o discurso para as eleições de 2022.

É preciso entender que a oposição a Caiado existe. Isso pode ser mais evidente, por exemplo, na Assembleia Legislativa, onde o governador enfrenta alguma dificuldade para aprovar projetos relevantes para sua gestão, motivo pelo qual ele busca algumas aproximações para ampliar sua base no Parlamento. O que se analisa é a falta de um ou mais nomes que seja a “cabeça” da oposição e que, ao mesmo tempo, seja capaz de aglutinar e de liderar o grupo adversário.

Geralmente o surgimento de lideranças parte da perspicácia de ação, habilidades de relacionamento, atuação para transformações políticas, econômicas e ou sociais. Debater os rumos de Goiás é um imperativo para essa formação de um líder. Que fique claro: políticos com as aptidões mencionadas não estão em falta.

Ao contrário da visão de que faltam líderes, o que chama atenção é que poucos querem se colocar nesta posição ante os eleitores, que por sua vez anseiam por um figura que conduza e, evidentemente, tenha a capacidade de coordenar, tenha vocação e se desenvolva para o poder, mas sempre sabendo que ninguém resolve nada sozinho, e sim, coletivamente.

Para isso não se faz necessário ter mandato ou estar em evidência no poder. A formação desta liderança parte da capacidade de impor no debate público os tópicos de outra agenda que não seja a governista. Mostrar a existência de alternativas, sem abrir espaços à radicalização mas ter capacidade de aglutinar e pavimentar uma candidatura.

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