Sem acordo, EUA e Rússia colocam mundo em alerta sobre produção desenfreada de armas nucleares
07 fevereiro 2026 às 21h00

COMPARTILHAR
Na última semana, chegou ao fim o Novo Start, acordo entre Estados Unidos e Rússia sobre os limites de produção de armas nucleares. Ele existia desde 2011 e trazia o teto do número de ogivas e mísseis de longo alcance das duas potências. Há um cenário onde negociações ocorrem, mas, pelo menos por ora, não há nada de concreto em seu lugar, o que deixa o mundo em alerta.
O encerramento do pacto acontece em um momento muito delicado: guerra na Ucrânia, estremecimento das relações entre Washington e Moscou e expansão do poder nuclear chinês. O acordo foi assinado em 2010, com os então presidentes americano e russo, Barack Obama e Dmitry Medvedev, e marcava por ser o último de uma série de acordos criados para frear a escalada nuclear que foi herdada pela Guerra Fria. O tratado colocava um limite de 1.550 ogivas estratégicas instaladas para cada país, além de 700 lançadores de mísseis balísticos intercontinentais.
Para além dos limites numéricos, o acordo ainda previa inspeções presenciais, troca de dados regularmente e mecanismos de verificação que buscavam garantir previsibilidade e reduzir o risco de erros de cálculo entre as duas maiores potências nucleares do planeta. Juntos, os EUA e a Rússia são responsáveis por mais de 80% de ogivas existentes no mundo.
O tratado chegou ao fim por não poder ser prorrogado, de acordo com as próprias regras. Ele já havia sido prolongado por cinco anos, em 2021, logo no início do governo Joe Biden. Mesmo com o vencimento neste mês, havia margem política para um acordo sucessor ou, ao menos, para uma prorrogação informal de seus limites. O que não aconteceu até o momento.
Em setembro do ano passado, Vladimir Putin chegou a demonstrar interesse em continuar respeitando os tetos do tratado por mais de um ano, desde que o mesmo fosse feito pelos Estados Unidos. Donald Trump, por sua vez, classificou a proposta como “uma boa ideia”, mas não houve seguimento às negociações no seu governo. Além disso, em pronunciamentos mais recentes, o líder americano chegou a afirmar que prefere um acordo melhor, que inclua a China, que já demonstrou desinteresse em fazer parte.
A realidade é que as condições do tratado também já vinham se deteriorando desde 2020, quando a pandemia levou à suspensão das inspeções. Três anos depois, por causa da escalada de tensões provocada pela guerra na Ucrânia, a Rússia suspendeu a sua participação, a interrupção da troca de dados e o acesso de inspetores internacionais. Os Estados Unidos responderam com medidas similares. Entretanto, os países asseguraram que não ultrapassariam os limites de ogivas e lançadores.
Mesmo sem estar em vigor, o Novo Start continua sendo visto como um pilar importante de estabilidade e, mesmo com a inflexão em 2023, estimativas realizadas de maneira independente indicam que ambas as nações seguiram, em linhas gerais, os tetos estabelecidos.
A situação chama atenção já que, sem um acordo selado e com a devida fiscalização, a produção desenfreada de ogivas nucleares pode levar à extinção da raça humana da terra. Mesmo sem impedir a fabricação de armas nucleares, o tratado leva um país a tomar conhecimento do desenvolvimento armamentista do outro. E, mesmo com a impressão de um tratamento cordial, o acordo jurídico é rigoroso, que permite desenvolvimento de estratégias para controlar ou atenuar o risco de uma guerra nuclear por erro de cálculo.
“É como se um vizinho pudesse olhar dentro da garagem do outro e saber quais equipamentos ele tem para cortar a grama. Se ele melhora muito, corre-se o risco de a grama dele ficar mais bonita que a minha. É uma analogia simplista, mas é algo assim na realidade. É informação trocada e verificada, com previsão no acordo, para que os limites relacionados ao arsenal nuclear estratégico não sejam violados”, pontua Solemar Oliveira, que é doutor em Física e professor e pesquisador da Universidade Estadual de Goiás (UEG).
A falta do acordo, conforme adianta o professor, pode levar ao caos da informação e a níveis assustadores de armamentos nucleares que os países poderão desenvolver com os recursos e tecnologia existentes na atualidade. “Sem contar que funciona como uma sombra sobre o temor da guerra e a liberdade que outros países podem reivindicar ou adquirir para desenvolverem suas próprias armas nucleares”, reforça.
Além dos EUA, Rússia e China, outros países também aumentaram a sua produção bélica nuclear, como a França, que detém o maior arsenal da União Européia, Reino Unido, Índia, Paquistão, Coreia do Norte e Israel. Para Solemar, sem um novo acordo, a corrida armamentista será mais agressiva e sem limites.
“Erros de cálculo em testes podem vir a tornar-se um grande problema com consequências terríveis (como serem interpretados como um ataque iminente); a falta de transparência pode gerar medo e insegurança tanto em autoridades como na população em geral; a ascensão de novos produtores de armas nucleares e potenciais interessados em suportar a corrida com insumos radioativos; o enfraquecimento de outro tratado importante, o de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP) e, ainda, uma instabilidade tecnológica, que significa a produção de armas de última geração, mais rápidas e com potencial de destruição maior”, explica.
Diante de todo o cenário, o que chama atenção é que o novo acordo não deve apenas renovar o que já existe, mas atualizar com o que pode ser obtido com as novas tecnologias. “O acordo New Start foca em mísseis balísticos estratégicos tradicionais, deixando de fora armas hipersônicas e sistemas baseados em IA, que obviamente não estão incluídos. Outras armas com alcances menores, chamadas de táticas, também não constam no pacto. Um novo acordo precisa, para além de incluir outros países, sem dúvida a China, abranger também essas novas armas com relevante poder de destruição. Apenas renovar é como colocar um curativo numa ferida que exige cirurgia. Por outro lado, não se pode perder o que já existe. O pior cenário possível é a ausência total de renovação”, afirma.
A discussão deve ser assistida com bastante atenção pelo mundo como um todo. Ao logo da história, temos episódios marcantes e brutais que foram obtidos com armas nucleares de destruição em massa, como a Fat Man (feita de plutônio) e Little Boy (feita de urânio), que foram lançadas em Hiroshima e Nagasaki, no Japão, pelos EUA, em 1945, durante os estágios finais da 2º Guerra Mundial. No dia do bombardeio, estima-se que morreram entre 50 mil a 100 mil pessoas. Mas os casos de câncer aumentaram significativamente na região com os efeitos da radiação e as cidades viraram verdadeiros cenários de filmes de terror.

