Cezar Santos
Cezar Santos

Se Lula for preso, como seria sua candidatura em 2018?

Enrolado em casos de corrupção, possibilidade de o ex-presidente ir para a cadeia aumenta a cada dia

Sítio em Atibaia reformado pela Odebrecht: diante das fartas evidências, Lula começa a admitir ligação com imóvel

Sítio em Atibaia reformado pela Odebrecht: diante das fartas evidências, Lula começa a admitir ligação com imóvel

“A série de suspeitas lançadas sobre Lula e sua família nos últimos meses mudaram o modo como o ex¬-presidente costuma reagir às crises. Pessoas próximas contam que Lula chegou a chorar ao falar das investigações que envolvem seu filho Luis Cláudio, na Operação Zelotes. Quem esteve com o ex-presidente recentemente diz ter encontrado um homem ‘abatido’ e ‘estarrecido’. O retrato assusta aliados pelo contraste que faz com o Lula ‘de ontem’, que se mostrava disposto ao enfrentamento.”

O parágrafo acima é trecho de reportagem que a “Folha de S.Paulo” trouxe na edição de sexta-feira, 5, intitulada “Lula é aconselhado a admitir que reforma de sítio foi um ‘presente’”. Esse título deixa claro que o entorno do ex-presidente já não consegue responder às tantas evidências de fatos estranhos em sua vida na Presidência da República e depois de sair do Palácio do Planalto e jogou a tolha no sentido de que é melhor admiti-los procurando desdenhá-los como coisa menor.

O texto dá as últimas informações sobre o imbróglio da propriedade que Lula jura não ser dele, mas aonde ele foi 111 vezes em três anos. O jornal explica que Lula, atingido pela maior crise desde que deixou a Presidência, está sendo aconselhado por aliados e integrantes do governo Dilma Rousseff a adotar oficialmente a tese de que “recebeu de presente” a reforma feita no sítio que frequenta em Atibaia (SP).

A linha de defesa de admitir o que está muito claro para todos não é consenso dentro do PT. Teme-se que as bases partidárias não “engulam” o discurso, já que os chefões petistas sempre diziam que atuavam em nome e favor do partido, e não em benefício próprio. Compreende-se, afinal, um belo sítio — e um apartamento tríplex na praia do Guarujá, em São Paulo — reformado a custo zero por empreiteiras amigas, com o bom e o melhor para desfrute da família Lula da Silva, não é exatamente “para o partido”. Se Lula “ganhou” reforma de presente, é evidente que a propriedade é dele, não há como negar.

A reportagem anota ainda outro problema na linha de defesa de admissão da reforma presenteada. A Odebrecht já ter avisado que não assumirá publicamente que custeou a reforma. “A decisão foi tomada internamente pela empreiteira e comunicada a pessoas próximas a Lula.”

O jornal já tinha revelado que, segundo testemunhas e depoimentos colhidos pelo Ministério Público, um consórcio informal das empresas Odebrecht, OAS e Usina São Fernando, dirigido por amigos do ex-presidente bancou as obras. A ex-dona de uma loja de material de construção em Atibaia, onde fica o sítio, disse que a Odebrecht pagou R$ 500 mil em material para a reforma. Um engenheiro da construtora admitiu ter participado da reforma, em “caráter informal”.

E aí vem mais admissão do que antes era negado, mas que as evidências não deixam que a negativa subsista. O Instituto Lula diz que o homem-símbolo do PT frequenta o local, de propriedade de amigos da família, em dias de descanso. Registra o jornal: “Um dos interlocutores do petista ouvido pela reportagem resumiu o estado de ânimo dos personagens envolvidos na aquisição e reforma do sítio: todos estão ‘em pânico’ com o caso.”

Como não dá para negar que o sítio foi reformado, a admissão da reforma como “presente” já está sendo testada. O ex-ministro Gilberto Carvalho, um dos mais próximos a Lula, disse que seria “a coisa mais normal do mundo” se a Odebrecht tivesse bancado a reforma do sítio. Um dos argumentos — pífios, por sinal — é que a reforma começou no fim de 2010, quando Lula ainda ocupava o Planalto, mas a primeira vez que o ex-presidente esteve na chácara foi em 2011.

Uma imagem que foi ao chão

A colunista Sonia Racy, do “Estadão” deu uma informação que corrobora o que já está cristalizado na opinião pública. Informa ela que a operação Lava Jato já fez um estrago muito maior, na imagem de Lula da Silva, do que o mensalão – e, em função disso, o líder petista “não representa mais um candidato viável para 2018”.

A nota repercute paper (estudo) do Eurasia Group, uma das consultorias mais respeitadas do mundo. O estudo mostra que em agosto de 2005, no início do mensalão, 49% consideravam o ex-presidente um político honesto. “Agora, esse número caiu para 25%”, observa.
O estudo destaca, ainda, que as dificuldades legais de Lula “representam um sério e imediato desafio para o governo Dilma”. E argumenta a seguir que “as chances de o PT se manter no governo (na próxima eleição) são extraordinariamente baixas”.

E aí se pode fazer especulação sobre a volta de Lula como candidato em 2018, como alguns petistas ameaçam. Será possível que um personagem envolvido em tantas histórias para as quais não consegue dar explicação plausível consiga votos suficientes para voltar a ser presidente do País?

Como argumenta o jornalista Helio Gurovitz, em artigo no G1, na sexta-feira, ainda que Lula consiga explicar tudo aquilo que parece não ter explicação, ainda que consiga comprovar ser, como afirmou, “a pessoa mais honesta do mundo”, persistirá uma marca sobre seu nome. A dúvida é legítima: ele terá condição de ser candidato à sucessão da presidente Dilma Rousseff?
Considerando que Dilma consiga terminar seu mandato – o que tem razoável possibilidade de não acontecer — , a pergunta é: poderá Lula ser o candidato de seu partido a sucedê-la?
Gurovitz lembra que a estratégia de posar de vítima das “elites”, da “mídia”, dos “ricos” — ou seja lá de qual figura fantasiosa, criada para se eximir do menor sinal que seja de responsabilidade por qualquer acusação — sempre funcionou para Lula angariar simpatia diante daquele eleitorado que procura eleger um messias, não um líder político. “Para essa estratégia, quanto mais acusações fizerem contra ele, melhor. Quanto mais ele puder acusar os juízes e o Ministério Público de perseguição, melhor.”

Mas isso funciona ou funcionou até um certo ponto. A questão, diz o articulista, se resume à qualidade das acusações e às consequências jurídicas delas. Não é difícil imaginar que tanto Ministério Público Federal quanto Polícia Federal estejam indo com muita cautela nas investigações, apertando o cerco com todo o cuidado, para o desenlace final – e fatal.
Os problemas do ex-presidente com a verdade não se resumem ao sítio de Atibaia e ao apartamento do Guarujá. Nos inquéritos abertos contra ele para apurar a venda de MPs (investigada pela Operação Zelotes), o tráfico de influência internacional em nome da Odebrecht (investigado pelo MP do Distrito Federal) e a compra do apartamento do Guarujá (investigada pelo MP paulista), seus advogados também têm tentado desviar o foco de Lula.
Gurovitz lembra que as investigações não cessaram – ao contrário, elas mal começaram. Fatos novos continuam surgindo a cada dia. São policiais e procuradores determinados que conduzem as diligências. Profissionais com capacidade e conhecimento que se mostram dispostos a revirar tudo o que for necessário para descobrir a verdade.

E se na sequência dessas investigações, comprovada a culpa – ou culpas – de Lula, se ele preso, ainda que temporariamente? Como Lula poderia depois, em 2018, se apresentar como candidato?

A pergunta é talvez extemporânea, mas pode sim ser formulada já. A popularidade de Lula foi corroída e continua caindo.

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