Cezar Santos
Cezar Santos

Se Cerveró saísse da prisão, seria morto na Espanha

Na Europa, o ex-diretor da Petrobrás se tornaria alvo muito mais fácil do que foi o então prefeito de Santo André, o petista Celso Daniel, assassinado para não denunciar o esquema de caixa 2 para seu partido

Ex-diretor da Petrobrás Nestor Cerveró e Celso Daniel: o primeiro poderia ter o mesmo fim do segundo, que foi assassinado para não entregar esquema de corrupção em favor de seu partido | Fotos: Wilson Dias / ABr/ reprodução

Ex-diretor da Petrobrás Nestor Cerveró e Celso Daniel: o primeiro poderia ter o mesmo fim do segundo, que foi assassinado para não entregar esquema de corrupção em favor de seu partido | Fotos: Wilson Dias / ABr/ reprodução

O homem está com medo, o coração disparado, muito ansioso para deixar logo o País, o que acontecerá em minutos. Deitado no banco traseiro de uma SUV de luxo, com um lençol escuro por cima, ele pensa que logo estará livre. Logo ficarão para trás os dias de agonia na carceragem do Complexo Médico-Penal de Pinhais, nos arredores de Curitiba, onde estava custodiado por ordem do juiz Sérgio Moro, como réu em uma das ações penais da Operação Lava Jato.

Nos últimos dias ele tomou várias providências, com a ajuda do filho. Aliás, foi o filho quem “costurou” com o senador, velho companheiro de negócios na Petrobrás, essa saída da prisão e do País. Com a ajuda do banqueiro amigo.

“Mas onde foi que erramos? Por que as coisas degringolaram assim? Estava tudo tão bom, todos ganhando um bom dinheiro, o partido tinha os recursos necessários para vencer as eleições, pelos menos mais duas, com o maioral, nosso grande líder que veio da pobreza, sendo o candidato. Poderíamos continuar ganhando muito. Onde erramos?”, questiona-se.

Chegam. Ele sai do carro. A noite está escura. O avião o espera. Ele embarca, rumo à liberdade, rumo à Espanha querida de seus antepassados. À Espanha, onde poderá desfrutar de uma boa vida nos anos que lhe restam, com um bom dinheiro que as autoridades brasileiras não descobriram em contas secretas.

“Chego à Espanha e o pesadelo acabou”, pensa, lembrando ainda que poderá contar com a mesada de R$ 50 mil que o senador lhe garantiu para a família no Brasil. “O senador é um homem de palavra, fizemos muitos negócios vantajosos para nós, para o partido. É de confiança, sei que posso confiar nele.”

Três meses depois.

Meio da tarde em Oviedo, capital do Principado de Astúrias, no Norte da Espanha. O homem não tão magro mas de aparência frágil, meia calva acentuada, vai atravessar a rua para entrar numa agência de câmbio. Ele tem um estranho defeito facial que deixa seus olhos desalinhados — o esquerdo com a pálpebra descaída e mais baixo que o direito —, provavelmente ptose ou exoftalmia, que faz lembrar uma figura cubista de Picasso.

Não vê se aproximar um carro escuro. A batida é seca. Não houve barulho de freada. Só duas ou três pessoas veem o carro atropelar o homem e em seguida passar por cima do corpo. O carro sai cantando pneus.

Claro que os parágrafos acima formam uma pequena peça de ficção, um conto policial de qualidade sofrível. Os fatos descritos não aconteceram, mas a questão é que PODERIAM ter acontecido.

Certamente teria acontecido coisa semelhante, descontadas variações de tempo, de lugar e de instrumentos, mas com o desfecho igualmente fatal, se tivesse dado certo o plano do senador Delcídio do Amaral, petista do Mato Grosso do Sul, com a ajuda do banqueiro André esteves, para tirar Nestor Cerveró da cadeia.

O ex-diretor da área internacional da Petrobrás é um tremendo problema para o PT e o PMDB, os dois partidos que mandam no governo federal, e a todos os envolvidos no monumental escândalo de corrupção na Petrobrás.

Cerveró é um arquivo vivo perigoso. Por sinal, já tinha acertado fazer delação premiada para entregar os envolvidos no escândalo. Isso precipitou a ação de Delcídio, que arriscou tudo para tirá-lo da cadeia e mandá-lo para longe dos procuradores e da Polícia Federal.

Depois disso, bem, depois disso… Cerveró é um homem já alquebrado, doente. Poderia morrer de “acidente”, de “susto”, de “causas naturais”, quem sabe de banzo por sua terra natal. E morto não fala.

Como não falou mais o petista Celso Daniel, que era prefeito da cidade de Santo André (SP), sequestrado e morto em janeiro de 2002. Celso foi condenado à morte quando quis acabar com um esquema de corrupção que havia dentro de sua própria administração para financiar campanhas do PT.

No curso da investigação, o promotor de justiça Marcio Friggi de Carvalho rejeitou a tese de crime comum e sustentou que o prefeito assassinado teria descoberto que o caixa dois da Prefeitura de Santo André, que servia para beneficiar o PT nas eleições e que era entregue pessoalmente a José Dirceu, estaria sendo desviado para enriquecimento pessoal de algumas pessoas envolvidas no esquema.
Uma declaração do promotor:

“O prefeito conhecia o esquema de dinheiro para o caixa 2 de seu partido, para beneficiar o PT nas eleições, inclusive para a campanha do presidente Lula naquele ano. Ele estava de acordo. Aí descobriu que o dinheiro também servia para enriquecimento pessoal de integrantes do esquema.”

Estranhamente, testemunhas e envolvidos no crime começaram a morrer, entre a quais o legista que examinou o cadáver de Celso Daniel e um delegado que investigou o assassinato.

Sombra

Nesta semana, o empresário Sergio Gomes da Silva, o Sombra, foi condenado pela Justiça de Santo André a 15 anos, 6 meses e 19 dias de prisão em regime fechado por concussão (exigência de cobrança indevida) e corrupção passiva. Sombra era ligado a Celso Daniel e foi acusado de ser o autor do homicídio.

Sombra é acusado de integrar um esquema que cobrava propina de empresários do setor de transporte durante a segunda gestão do petista morto, a partir de 1997. Também foram condenados o empresário do ramo de transportes Ronan Maria Pinto –com pena igual à de Silva– e Klinger Luiz de Oliveira Souza, ex-secretário de Transporte e de Serviços Municipais de Santo André no governo petista.

Ex-diretor era delator não confiável

A ação de Delcídio do Amaral (PT-MS) para tirar Nestor Cerveró da cadeia deu ao ex-diretor da Petrobrás um grande trunfo no acordo que ele já tinha acertado com a Procuradoria Geral da República (PGR). Com isso, ele ganhou provas de que o senador tentou, em conluio com o banqueiro André Esteves, do BTG Pactual, fazer com que ele não firmasse colaboração com a Justiça. Delcídio e Esteves foram presos pela Polícia Federal na quarta-feira, 25.

O acordo foi firmado entre advogados de Cerveró e a PGR uma semana antes. O filho de Cerveró, Bernardo, entregou aos investigadores imagens e áudios de Delcidio oferecendo vantagens a Cerveró para que ele não fizesse delação. No acordo ele também cita a presidente Dilma Rousseff ao afirmar que ela sabia dos esquemas envolvendo a Petrobrás como integrante do conselho da estatal.

Foi a terceira rodada de negociações entre o ex-diretor e os procuradores para firmar um acordo de delação. As primeiras conversas aconteceram por volta de agosto, quando ele falou sobre a compensação do contrato de um navio¬-sonda da Schahin para quitar uma dívida de campanha com o PT.

Cerveró também havia citado em um dos anexos que Delcídio ganhou propina na venda da refinaria de Pasadena. Na época, porém, os procuradores não consideravam o ex-diretor um figura “confiável” e o viam como um “jogador”. Mas o lobista Fernando Soares, o Fernando Baiano, tinha dito que Delcídio recebeu US$ 1,5 milhão pela Pasadena. O negócio foi feito pela Petrobrás em 2006 e deu prejuízo de US$ 790 milhões aos cofres da estatal.

Pelo desfecho, as imagens e áudios de Delcides do Amaral gravadas por Bernardo tornaram Cerveró um dedo-duro superconfiável.

Dilma perde talvez seu melhor congressista

É péssimo a prisão de Delcídio do Amaral para o governo de Dilma Rousseff (PT), que tinha no senador talvez a única peça de certa credibilidade e operosidade no Congresso. Ele era líder do governo, função que exercia com serenidade mesmo em meio ao horrível momento político. Tinha bom trânsito em praticamente todos os partidos.

Presidente Dilma Rousseff e senador Delcídio do Amaral: o governo perde

Presidente Dilma Rousseff e senador Delcídio do Amaral: o governo perde

Delcídio é um conciliador, um homem de trato afável, tranquilo, educado, sem arrogância, diferente da média dos petistas. Por isso mesmo, serão enormes os impactos políticos da prisão dele para o governo. Para começar, não é um senador qualquer.

Como líder do governo da presidente Dilma Rousseff era o porta-voz dela da República no Senado. Nas últimas semanas, Delcídio vinha conseguindo destravar a complicada pauta de votações de interesse do governo.

A prisão dele causa um arraso nas fileiras da base aliada do Palácio do Planalto, num momento em que o clima no governo é de barata-voa — clima que começou, aliás, no primeiro dia que Dilma tomou posse.

A área de atuação de Delcídio Amaral sempre foi a de energia. Teve influência na nomeação de antigos diretores da Petrobrás, assim como na demissão de outros. O senador preso é muito amigo do ex-presidente Lula. É do Mato Grosso do Sul, Estado onde o empresário e fazendeiro José Carlos Bumlai tem parte de seus empreendimentos. Bumlai, também amigão de Lula e envolvido em várias falcatruas com o governo federal na era petista, foi preso na segunda-feira, 24.

Delcídio do Amaral é citado na Lava Jato como suposto beneficiário de propina na compra da refinaria de Pasadena. Ele tem vínculos antigos com a Petrobrás. Sua ligação com Nestor Cerveró remonta ao final dos anos 90, quando chegou a comandar a diretoria de gás da petroleira no final do governo Fernando Henrique Cardoso (1999-2001). Cerveró era o número 2 de Delcídio.

Coligindo informações na internet, vê-se que Delcídio era próximo (mas não filiado) ao PSDB, partido pelo qual chegou a ser cotado para candidatura ao governo do Mato Grosso do Sul em 1998, mas iniciou uma ascensão meteórica dentro da ala lulista do PT.

Ele foi convertido ao petismo pelo então governador de Mato Grosso do Sul Zeca do PT, que fez dele primeiro seu principal secretário e, pouco depois, candidato vitorioso ao Senado em 2002. No início do primeiro governo Lula, Delcídio tornou-se um dos principais interlocutores do governo na área de infraestrutura e teria emplacado Cerveró para a diretoria internacional da Petrobrás.

Mais tarde, a permanência de Cerveró no cargo também teria tido apoio de Renan Calheiros (PMDB-AL). Após a prisão de Cerveró na investigação da Lava Jato, Renan e Delcídio passaram a empurrar, um para o outro, a paternidade do ex-diretor caído em desgraça.

Fagundes do Pantanal

Sul-mato-grossense de Corum-bá, Delcídio ganhou o apelido de Antonio Fagundes do Pantanal por causa da cabeleira. Contador de histórias, ele costuma visitar em uma fazenda herdada no Pantanal, onde gosta de cavalgar. Casado, é pai de duas filhas.

Embora tenha apoiado a continuidade da venda de armas no plebiscito de 2005 e seja forte crítico de invasões de terra, Delcídio destoa, ao menos no figurino, da imagem de pecuarista tradicional do Mato Grosso do Sul: aprecia rock dos anos 1960 e 1970 e é um frequentador habitual de praias e festas em Florianópolis.

Quando a casa caiu, Delcídio disse f…

O jornalista Andrei Meirelles publicou no site brasiliense Fato Online, às 10h07 de quarta-feira, 25, dia em que o senador petista foi preso, texto intitulado “O momento em que Delcídio sentiu que a casa caiu”. Reproduzo o primeiro parágrafo:

Passava das dez da noite da terça-feira (24), plenário do Senado praticamente vazio. Em um canto, Renan Calheiros dava uma entrevista informal a um pequeno grupo de jornalistas. Na outra ponta, depois de se despedir do colega Walter Pinheiro (PT/BA), o senador Delcídio Amaral, líder do governo, ao ler a manchete do Fato Online de que haveria uma reunião secreta da 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal, ficou lívido. Chamou seu chefe de gabinete. “Olha aqui, Diogo. F….”. Hoje de manhã, Delcídio e Diogo Ferreira foram presos, por ordem do Supremo.

E como o brasileiro é um povo bem-humorado, capaz de rir até da própria desgraça, o site humorístico Sensacionalista (abrigado no portal UOL), que faz sátiras impagáveis com personagens e fatos, usando a linguagem do jornalismo, não perdoou. O site, cujo slogan é “Isento de verdade”, fez uma linkagem da prisão do senador do PT com a economia brasileira travada pela péssima administração petista. Eis a “reportagem”.

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Juninho Bill

Excelente sua crônica, Cézar Santos!! Gostei mesmo.