Rodrigo Hirose
Rodrigo Hirose

Revolução digital pode deixar, mais uma vez, o Brasil para trás

Economia glocal, inteligência artificial, internet das coisas (IoT): o mundo muda à velocidade da luz enquanto o País não consegue colocar internet nas escolas

Está em andamento uma rápida e inexorável mudança nas relações profissionais e pessoais. A revolução digital é tão veloz e avassaladora que pulverizou inclusive a Lei de Gordon – que previa que a capacidade de processamento dos computadores dobraria a cada 18 meses. Como diz o ensaísta israelense Yuval Noah Harari (dos best sellers Sapiens – Uma breve história da humanidade e 21 lições para o século 21), não somos mais Homo sapiens.

O celular que temos em mãos tem mais capacidade que o computador de bordo da nave Apollo 11, que há 50 anos levou o homem a dar um pequeno grande passo na superfície lunar. E, ao contrário do enganoso lugar comum de que não usamos nem 10% da nossa cabeça animal, certamente não há quem explore totalmente todo potencial de um smartphone.

A Inteligência Artificial certamente ainda não substitui cérebros humanos, mas toda atividade repetitiva pode potencialmente ser realizada por uma máquina. Pior: ela, invariavelmente, será mais eficiente, produtiva e barata (é só lembrar que computadores não tiram férias, não têm licença maternidade/paternidade nem horas extras). Por enquanto, o que os pesquisadores dizem é que a IA não consegue substituir o homem em atividades mais subjetivas – mas até quando?

O filósofo italiano Domenico de Masi diz que as redes sociais representam o maior progresso do homem social e político. Visão bem diversa daquela expressada pelo compatriota Umberto Eco, para quem elas deram voz aos idiotas. O francês Pierre Lévy, um dos pioneiros dos estudos sobre cibercultura, acredita que, ao contrário do que muitas vezes pressupõe o senso comum, há muita emoção circulando nesses meios de comunicação.

A barreira da capacidade dos dispositivos não mais existe – talvez o grande obstáculo seja a questão da geração e armazenamento de energia para mantê-los ligados. Com redes de conexão cada vez mais velozes, a Internet das Coisas (IoT) estará cada vez mais dentro das casas, ambientes de lazer e trabalho, nos carros – que são cada vez mais um grande dispositivo.

Assim, o Homo sapien é cada vez mais um ciborgue: celulares, relógios, pulseiras inteligentes, eletrodoméstico, roupas – tudo se transforma em uma parte do corpo que fornece milhares de informações em tempo real para as grandes corporações. Assim, o relógio pode salvar sua vida (avisando, por exemplo, que você está tendo um infarto) ou contribuir com sua morte precoce (indicando aquele fast food que vende bacon em quantidades absurdas).

Os impactos na política são observados diariamente no noticiário. O Líbano acaba de derrubar seu premiê, Saad Hariri. A onda de manifestações, que uniu diferentes religiões, foi turbinada pelo WhatsApp – repetindo a Primavera Árabe (cujo combustível foram as redes sociais) e a influência nas recentes eleições nos Estados Unidos e no Brasil. Na América Latina, mais uma vez em ebulição, os aplicativos de comunicação também ajudam a dar musculatura aos protestos no Chile, Bolívia, Peru e Equador.

Se, no mundo todo, a discussão sobre como professores analógicos podem educar crianças digitais, no Brasil a situação é mais preocupante. Há um abismo profundo no ensino. Ainda hoje, apenas 28% das escolas têm computadores conectados à internet. Segundo a Anatel, mais de 1,5 mil municípios não têm acesso à banda larga de qualidade. Enquanto isso, no mundo desenvolvido, o 5G é uma realidade.  Se a maior parte dos alunos não tem, sequer, domínio do básico em língua portuguesa e matemática, como eles se sairão diante de um mercado de trabalho que exigirá mão de obra com qualificação cada vez mais refinada? A tendência, infelizmente, é de que o fosso social que separa os pobres e os ricos fique ainda mais profundo.

O setor produtivo e o poder público se mexem timidamente para diminuir esse GAP (para usar um jargão da administração). Em Goiás, existe a Aliança pela Inovação, que junta o setor produtivo, os centros de pesquisa e o terceiro setor, por meio do Sistema S. O objetivo é aproximar pesquisadores de empresas, de forma que a pesquisa aplicada renda frutos acadêmicos e econômicos.

A Universidade Federal de Goiás (UFG), a Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC), instituição privadas de ensino e os institutos federais, entre outros, têm laboratórios, incubadoras e aceleradoras. Mas essas iniciativas têm de ser radicalizadas. Em Goiás, a Fundação de Apoio à Pesquisa de Goiás (Fapeg) pode ser o instrumento indutor e o empresariado, o grande financiador.

Todos ganham. A academia, com aportes e desenvolvimento de pesquisa. O setor privado, com competitividade na economia glocal (formada ao mesmo tempo pelo local e o global). A sociedade, com produtos e serviços inovadores.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.