Marcos Aurélio Silva
Marcos Aurélio Silva

Retomar às aulas presenciais com segurança representa responsabilidade com a educação

Rede pública de ensino só consegue minimizar as desigualdades sociais com alunos dentro da escola

Apreensão de pais e expectativa de filhos. Foi essa a leitura que pude fazer no movimento de volta às aulas presenciais na rede estadual de Goiás. Escolas que ficaram por um ano e cinco meses com suas salas vazias, reabriram e tiveram de volta as vozes do aprendizado.

Geralmente a volta às aulas é um momento de grande alegria e expectativa para comunidade escolar, especialmente aos estudantes. É o momento de rever colegas, amigos, professores e demais profissionais das unidades, de contar como foram as férias. Porém, está tudo diferente, uma mescla entre as incertezas advindas da pandemia e a esperança de que tudo passe, para que possamos conviver presencialmente como antes. 

São tempos difíceis e desafiadores. A pandemia nos trouxe crises econômica, social e sanitária –  e nenhuma delas se foi por completo. Ainda enfrentamos desafios que causam impacto na educação. Mas a decisão de voltar às salas de aulas nos dá a esperança de começarmos a correr atrás do prejuízo que ainda é calculado.

Em sistema de revezamento, cerca de 265 mil alunos goianos voltaram às aulas presenciais. No Estado, a prioridade de retorno presencial é para os estudantes sem acesso à internet, com dificuldades de aprendizagem e em vulnerabilidade social. Fator importante. Afinal, a escola é um espaço vivo de troca de energia, socialização de saberes e aprendizagens, construção de relações solidárias. 

O Conselho Nacional de Educação (CNE), órgão que ajuda na informação de políticas para uma área, apoia a volta às aulas presenciais. A resolução do órgão aponta que o quanto antes os jovens voltarem para a sala de aula, mais rápido poderá se enfrentar a maior crise educacional da história do país.

No período entre 11 de março de 2020 e 2 de fevereiro de 2021, escolas de todos os países estiveram fechadas em média por 95 dias, de acordo com dados da Unicef. Estudantes da América Latina foram os mais afetados, com 158 dias. O Brasil é quem puxa essa média para cima, com 191 dias. Esse é o cenário que anulou todos os esforços feitos, a partir de 2016, para a inserção de 3,9% de crianças e adolescentes que não tinham acesso à educação.

Especialistas apontam que há o risco de que os estudantes possam regredir duas décadas no acesso ao ensino. Um estudo realizado pelo Centro de Aprendizagem em Avaliação e Resultados para o Brasil e a África Lusófona (FGV-EESP Clear), vinculado à Fundação Getulio Vargas, ainda no âmbito das estimativas, projeta que os alunos dos anos finais do ensino fundamental (do 6° ao 9° ano) podem ter regredido, em média, até quatro anos em leitura e língua portuguesa, ao levar em conta os resultados de proficiência do Sistema de Avaliação da Educação Básica. A estimativa também indica uma redução na nota média de matemática — nesse caso, com perda equivalente a até três anos de escolaridade.

Outra pesquisa, do Instituto Unibanco em parceria com o Insper Instituto de Ensino e Pesquisa — “Perda de aprendizagem na pandemia”, divulgada recentemente —, aponta que os estudantes que chegaram ao terceiro ano do ensino médio em 2021 perderam nove pontos de aprendizagem na escala do Saeb em língua portuguesa e 10 pontos em matemática. O estudo também indicou como tais perdas na aprendizagem podem impactar a renda salarial ao longo da vida do estudante que concluir o ensino médio em 2021. Levando em consideração que um aluno pode perder 10 pontos na escala do Saeb neste ano, segundo a pesquisa, cada ponto afeta 0,5% na remuneração de um trabalho exercido pelo jovem.

Embora tenha havido grande esforço, não estamos preparados para contornar o problema por meio de aulas on-line. Veja que em Goiás foi feito a distribuição de smartphones, com acesso à internet, aos estudantes que tinham dificuldades de acompanhar as aulas de forma remota, mesmo assim, há locais que o sinal de internet é inexistente, e o único recurso viável para a educação é o ensino em sala de aula. 

Alunos fora das escolas nos ressalta as tonalidades das desigualdades socioeconômicas, que tiveram um peso expressivo para crianças e jovens em situação de vulnerabilidade. A retomada presencial, coloca os alunos em um mesmo ambiente e minimiza as diferenças tão gritantes no ambiente externo. 

É primordial o contato social no âmbito do aprendizado. Quando se fala em crianças é ainda mais fundamental. Defendo que o lugar do estudante é em sala de aula com outros estudantes. Embora a vacinação ainda não avance a contento, a cada dia as cidades têm baixado a faixa etária e ampliando o percentual de imunização.  Talvez esse seja o momento de retomar não só as aulas presenciais, como também a responsabilidade com as crianças e estudantes tão afetados pelas crises provocadas pela pandemia. Deixar os alunos fora da escola ao mesmo tempo que muita gente se aglomerava em festas, áreas de lazer de condomínios, praias e tantos outros lugares, me soa injusto. Vejo que os diretores, professores e comunidade escolar tem especial preocupação e dedicação com os cuidados para manter o ambiente seguro a todos. Vejo a satisfação no olhar dos estudantes que voltaram para as escolas mantendo os cuidados. Vamos seguir educando e vacinando.

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