Rodrigo Hirose
Rodrigo Hirose

Quem vai ser o primeiro a arremessar a avó no poço de piche?

Para economistas, é falsa a escolha entre o cuidado com a vida e preservação da economia com o relaxamento de medidas contra o coronavírus

Na década de 1990, havia um divertido seriado, que passava na TV Globo: A Família Dinossauro. Quem tem mais de 30 anos, certamente se lembrará da frase repetida milhares de vezes a cada episódio pelo Baby – o caçula da família: “Não é a mamãe, não é a mamãe!”. Apesar do humor um tanto nonsense, o programa não deixava de flertar com a polêmica.

Vovó Zilda, a anciã da Família Dinossauro | Reprodução TV

Num dos episódios, a família se prepara para um momento especial. É chegada a hora da cerimônia de adeus da matriarca da família, a Vovó Zilda. Completados 72 anos, ela deve ser arremessada ao poço de piche, de acordo com a tradição milenar dos dinossauros, como forma de poupá-la de predadores.

Família Dinossauro – que foi reprisada pelo SBT e pelo Canal Viva e tem episódios espalhados pela internet – era um programa infantil, mas atacava frontalmente o “american way of life”, assim como o megassucesso Simpsons. “O Dia do Arremesso”, por exemplo, era uma sátira ácida sobre o tratamento aos idosos em uma sociedade que valoriza o jovem.

“Cinco ou sete mil mortes não podem parar o Brasil”

O leitor que chegou até aqui certamente já entendeu onde esse texto vai chegar. Sim, aos desdobramentos da pandemia de Covid-19 na economia mundial e de como empresários e trabalhadores estão lidando com eles.

Na última semana, grandes empresários divulgaram vídeos em que manifestaram a preocupação com o tamanho do estrago na economia brasileira. Luciano Hang, da Havan; Luiza Trajano, do Maganize Luiza; Alexandre Guerra, do Giraffas; Junior Durski, Madero; e Roberto Justus, empresário, apresentador e publicitário opinaram.

As declarações foram desde desastrosas (“Cinco ou sete mil mortos não podem parar o Brasil”, Durski) a arrogantes (“Demito 23 mil e ainda sobra dinheiro no bolso para ir para a praia”, Hang). Por outro lado, houve espaço para solidariedade: Trajano doou R$ 10 milhões para o tratar os doentes.

A preocupação dos grandes empresários é legítima – para os pequenos e médios, a situação é de desespero. Mas a forma como eles lidam com as palavras, nesses vídeos, transforma pessoas em dados contábeis, vidas em fluxo de caixa. Revela, ainda, um olhar utilitarista da vida: idosos, hipertensos, cardiopatas e diabéticos podem morrer, em nome da economia. Mais que isso, chega a ser uma abordagem higienista: os não produtivos tornam-se descartáveis (como a Vovó Zilda, da Família Dinossauro).

Do outro lado da moeda, trabalhadores temem cada vez mais por seus empregos e assim cresce a parcela deles que topa arriscar a própria pele para não perder o sustento – como bem observado pelo jornalista William Waack, em artigo no Estadão, o que é mais um vírus na vida de quem se acostumou à barbárie da violência urbana e às mazelas da falta de condições básicas de saneamento?

Crise profunda e longa

A crise econômica gerada pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2) será profunda e longa. Sem dúvida, muitos empregos serão extintos – em um país com 12 milhões de desempregados e 20 milhões de trabalhadores informais. Mas há quem aponte que existe uma falsa dicotomia entre manter empregos e preservar vidas: uma coisa não exclui a outra, mas há que se dar prioridade à vida.

Monica de Bolle: a escolha entre a vida e a economia é falsa | Foto: PIIE

A economista Monica de Bolle está nesse time de quem considera que essa é uma falsa escolha e que relaxar medidas sanitárias para preservar a economia é uma “ideia falaciosa”. Ela cita um estudo do infectologista Carlos Starling, para o governo de Minas Gerais.

Com base nesses parâmetros, de 50% a 60% dos brasileiros podem ser infectados pelo novo coronavírus, caso as medidas sanitárias sejam suspensas. O comportamento da epidemia mundialmente mostra que cerca de 20% de todos os contaminados precisam de tratamento hospitalar.

Não é preciso um esforço matemático muito grande para imaginar o tamanho do custo disso para o Sistema Único de Saúde (SUS). Portanto, o relaxamento das medidas sanitárias pode ter o efeito oposto do que se pretende, colapsando o sistema de saúde, que nesse cenário corroeria o Produto Interno Bruton (PIB) por meio do aumento do gasto público, e impactando nos custos do absenteísmo nas empresas.

Em entrevista ao Jornal O Globo, o economista Armínio Fraga, taxado por muitos como neoliberal, demonstra raciocínio parecido. Vindo de uma família de médico, ele afirma sem titubear que a única opção do momento “é salvar vidas”. Diz, ainda, que, caso as medidas profiláticas sejam suspensas e a Covid-19 atinja um grande número de brasileiros, haverá um “segundo baque” na economia do País, por causa do alto custo que o sistema de saúde terá.

É legítimo colocar pessoas em risco em nome dos empregos?

Para além das questões meramente econômicas, há o aspecto moral da questão. É legítimo colocar a vida dos mais vulneráveis em risco em nome da preservação do emprego? Pergunta difícil de responder: Quem vai atirar a primeira avó no poço de piche para manter seu posto de trabalho?

O planeta está diante de um desafio inédito para a atual geração. Muita gente, inclusive a chanceler alemã Angela Merkel (talvez a maior líder mundial contemporânea) o compara ao enfrentado durante a Segunda Guerra Mundial.

Mas, como De Bolle diz, o mundo sabe consertar economias. Fez isso nos dois pós-guerras, fez isso após o crash de 1929, fez isso depois do 11 de Setembro e depois do estouro da bolha de 2008. Mas o homem ainda não aprendeu a consertar vidas perdidas.

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