Rodrigo Hirose
Rodrigo Hirose

Quem perde alguém para o coronavírus perde também o direito ao abraço

Além da devastação de vidas, Covid-19 impede o ritual do luto, importante para o conforto psíquico e espiritual de quem dá adeus

A morte – especialmente os rituais em torno dela – é uma das mais ricas fontes de pesquisa para arqueólogos e antropólogos, entre outros estudiosos. Compreender como as antigas civilizações lidavam com o fim da vida – e com as conjecturas sobre o que ocorre (ou não) depois – ajuda a pintar o quadro da história da humanidade. Entre todas as complicações e implicações, a Covid-19 também impacta diretamente nessa etapa da existência, modificando o modo como as pessoas lidam com ela e comprometendo a fase do luto, fundamental para que as pessoas lidem melhor com a perda.

Impressiona a humanidade, independentemente de qualquer tipo de crença, os rituais fúnebres do Egito antigo. Havia a concepção de que o corpo é morada a alma. Preservá-lo, portanto, após a morte era manter, de alguma forma, a vida. Por isso, faraós e suas famílias (mas não só eles) tinham seus corpos mantidos por uma sofisticada técnica de mumificação. Os túmulos (no caso dos nobres, as pirâmides) eram parte fundamental. Os deuses definiam se o morto teria ou não acesso aos prazeres do corpo na nova existência.

Milhares de anos depois, arqueólogos continuam se debruçando sobre os simbolismos da morte nessa que era uma das civilizações mais desenvolvidas da antiguidade. Curiosos do mundo inteiro procuram as maravilhas do Cairo e outras cidades egípcias anualmente. Uma visão impactante para qualquer um.

Consciência da morte

Ainda em sua infância, a humanidade desenvolveu uma relação íntima com a consciência da morte. Já no paleolítico, os homens criaram processos de sepultamento que indicam sinais de uma proto-religião. Nas sepulturas mais primitivas, foram encontradas carcaças de animais. Gradativamente, a elas foram acrescentados adornos de marfim e de contas, sinalizando o aumento da abstração em torno do que o sepulcro representava. Mesmo nossos primos, os neandertais, preparavam covas para enterrar seus mortos. Despedir de quem se vai, portanto, está no DNA de todos os seres humanos.

Na região do Xingu, no Mato Grosso, o Kuarup ainda hoje é realizado pelas tribos indígenas. Na celebração, troncos representam os mortos. Conforme os estudiosos, ela, em sua origem, visava trazer os falecidos de volta à vida. Indígenas de aldeias distintas se encontram em uma reunião festiva – que remete mais ao Dia dos Mortos mexicano e ao Bon Odori japonês que ao Dia de Finados brasileiro.

O islamismo tem um cuidado especial com seus mortos. O corpo é banhado três vezes e depois envolvido com mortalhas brancas. Os pés devem ser direcionados à Meca, a cidade sagrada para os muçulmanos. O imã, líder religioso, faz súplicas pelo falecido e recita trechos específicos do Alcorão.

No cristianismo, os rituais se diferem em alguns detalhes entre a tradição católica e a protestante. Entre os católicos romanos, é comum a realização da extrema-unção, um sacramento dedicado aos enfermos. Orações e cânticos fazem parte da tradição antes do sepultamento. Mas é na vitória de Jesus sobre a morte que toda a crença cristã encontra sentido.

Mas não são apenas as religiões que se preocupam com o ritual da morte. Psicólogos e psiquiatras entendem que o luto é fase importante para assimilação da perda de alguém (sentimento também presente no final de um relacionamento ou na perda do emprego, por exemplo). Lidar com ele de forma saudável é importante para o bem-estar futuro da pessoa enlutada. Mas passar por ele de maneira desequilibrada pode desencadear processos patológicos graves.

Sem abraços

A Covid-19 chegou para destruir todos esses simbolismos importantes para o ser humano. Com a alta transmissibilidade do coronavírus (Sars-CoV-2), caixões são lacrados, a presença das pessoas é limitada e praticamente não há velório. A despedida é abrupta. Não se vê o rosto de quem parte, não se recebe abraço de consolo, não se ouvem canções de adeus.

A quem fica, a Covid-19 só reserva a solidão.

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