Rodrigo Hirose
Rodrigo Hirose

Qual mundo renascerá depois da pandemia do coronavírus?

Pensadores, religiosos e pesquisadores de todo o planeta tentam imaginar o impacto da Covid-19 nas relações pessoais e econômicas

Um dos intelectuais mais aclamados do mundo, autor de uma trilogia de ensaios best sellers (Sapiens – Uma breve história da humanidade; Homo Deus – Uma breve história do amanhã; e 21 lições para o Século 21), o historiador israelense Yuval Harari publicou, no Financial Times, um instigante artigo em que especula qual será o mundo que nascerá da pandemia causada pelo coronavírus. Por um lado, otimista (ao vaticinar que vamos, sim, sobreviver à Covid-19), por outro, o escritor demostra a vulnerabilidade das pessoas em preservar a privacidade.

Governos do mundo todo utilizam recursos de geolocalização, disponíveis nos aparelhos eletrônicos que carregamos onde quer que vamos (na cama, no banheiro, no trabalho, em viagens). Por meio deles, são monitorados pontos de aglomerações. Assim, as autoridades sanitárias podem atuar, inclusive com ações autoritárias (como, recentemente, em Araraquara, onde a Guarda Civil prendeu uma mulher que se recusava a deixar uma praça da cidade).

Em seu texto, Harari alerta para os riscos dessa permissividade de acesso às nossas informações, pelos órgãos governamentais, não pode culminar em um novo tipo de dominação. A tecnologia atual é de tal complexidade, que governos autoritários têm em mãos ferramentas de manipulação e controle de fazer inveja a qualquer ditador da primeira metade do século passado. De certa forma, o artigo do israelense remete a 1984, o clássico distópico em que George Orwell discorre sobre um governo onisciente, onipresente e onipotente, em que, nas palavras do próprio, é uma alegoria sobre o que o fascismo e o comunismo já haviam feito na Europa.

Pensadores de todo o mundo desenham esse futuro que já está entre nós. Testemunha ocular privilegiada, o sociólogo italiano Domenico De Masi (autor de Uma Simples Revolução e O Ócio Criativo, entre outras obras), narra, em texto publicado na Folha de S. Paulo, a pandemia de dentro do coração de sua terra natal, a Itália.

Em um relato que não deixa de ter traços nostálgicos, De Masi diz que os jovens têm mais facilidade para lidar com a solidão imposta pelo coronavírus, dada a maior familiaridade com as ferramentas tecnológicas. Em uma ironia em relação a sua própria obra, o sociólogo lembra que o tempo, antes escasso, agora abunda. Ainda que ressalte que os mais sortudos possam transformar o ócio depressivo em ócio criativo, o italiano imagina o impacto do isolamento nos já solitários, nos casais em eterna crise e nos núcleos familiares onde o diálogo entre pais e filhos está claudicante há anos.

Outro italiano, Giorgio Agamben, remete à preocupação de Harari: para ele, as medidas de isolamento – classificadas por ele como frenéticas, irracionais e totalmente imotivadas – são uma forma de os governos exercerem seu poder despótico. Ainda na Itália, Roberto Esposito, enxerga nas ações governamentais diante da pandemia muito mais um sinal de “decomposição de poderes” que de tática totalitária.

Há quem enxergue na pandemia um marco histórico comparável às grandes revoluções (como a industrial, a francesa e a russa) ou grandes tragédias, como crash de 1929 e o 11 de Setembro. Em entrevista ao Universa, do Portal UOL, a historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz aponta a Covid-19 como o marco final do século 20. Para a escritora de Brasil – Uma Biografia, o coronavírus Sars-CoV-2 deixou claro os limites da falsa onipotência que o desenvolvimento tecnológico parecia representar para a humanidade.

Biólogo que ganhou notoriedade com suas análises sobre a pandemia no Youtube, Átila Iamarino acredita que o mundo como o conhecíamos até janeiro de 2020 não existe mais. Apesar de ser acusado de catastrofista por causa de suas previsões sobre a disseminação da Covid-19, Iamarino é um utopista: “Não quero dizer que o mundo que a gente vivia nunca mais vai voltar, mas não é para ele que vamos voltar. Vai ser diferente, talvez mais unido”.

A visão idílica do biólogo ganha o reforço com as imagens dos canais de Veneza, do céu de São Paulo ou de Pequim livres da poluição em tão pouco tempo de descanso das atividades humanas. Na China, a concentração de dióxido de nitrogênio (NO2), um gás tóxico, caiu 25% entre janeiro e fevereiro, quando a quarentena estava em pleno vigor no País onde a doença provocou milhares de mortes.

Um dos pastores mais conhecidos do Brasil, Hernandes Dias Lopes, da Primeira Igreja Presbiteriana de Vitória, no Espírito Santo, alertou os fiéis, em publicação no Facebook, que as “pestilências” são uma marca do fim dos tempos. Sem citar diretamente a pandemia, e alertando que ninguém é capaz de prever a data do retorno do Cristo (como esperam os cristão) a referência a ela foi entendida pelos seguidores do pastor, devido à narrativa do livro de Apocalipse, cuja autoria é atribuída ao apóstolo João, de acordo com a tradição cristã.

Um olhar mais benevolente com o próprio ser humano permite sonhar com um mundo menos competitivo e cooperativo pós-pandemia. Um planeta menos consumista, com mais janelas abertas e menos aparelhos de ar condicionado ligados, com pessoas que valorizam mais as relações de afeto que as relações de poder.

Tudo, nesse momento, é especulação e exercício de futurologia. Mas, voltando a Yuval Harari, a humanidade certamente vencerá mais esse inimigo. O que não dá para garantir é que as lições aprendidas sejam esquecidas e substituídas pela falsa percepção de que temos tudo sob controle.

Covid-19 escancara a face mais perversa das mazelas brasileiras

A pandemia de Covid-19 mais uma vez escancarou as mazelas brasileiras. Chegando às favelas, às aldeias indígenas e às regiões mais desassistidas, como o Entorno do Distrito Federal, o coronavírus revela a falta de assistência básica àqueles que mais precisam. Como o próprio presidente da República, Jair Bolsonaro, disse, os meninos das periferias brasileiras se expõem a toda sorte de infecções, com esgoto a céu aberto que se transforma em piscina.
Essas populações são, exatamente, as que têm menos acesso ao atendimento de saúde. Ainda hoje, dois meses depois que o primeiro caso foi registrado no Brasil, os suspeitos de contaminação têm de enfrentar obstáculos para ter acesso aos exames e ao posterior acompanhamento médico.
Não é à toa que o Entorno do DF e as favelas são, no momento, os pontos de maior preocupação dos médicos e cientistas. Às condições precárias soma-se a inevitável aglomeração de pessoas, seja dentro dos barracões (que abrigam famílias inteiras em dois ou três cômodos), sejam nas ruas.
Por fim, a questão financeira. Praticamente impossíve pedir para um favelado ficar em casa. É a face mais perversa da realidade: sem apoio dos governos, os mais pobres precisam se arriscar na corda bamba entre o vírus e a falta de comida na mesa de casa.

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