Cezar Santos
Cezar Santos

PT virou PB, o partido da burguesia

Cientista político faz levantamento e constata que a sigla não elegeu nenhum trabalhador para a Câmara dos Deputados

É em Goiânia que o PT estadual tem mais força. Natural, pois é na capital que o partido congrega mais filiados, onde os sindicatos estão estabelecidos e os ditos “movimentos sociais” podem ser articulados e cooptados a partir das estruturas da Câmara de Vereadores e da Assembleia Legislativa utilizadas pelos filiados que conquistam mandatos nessas casas legislativas. Antigamente, o perfil do petista goianiense — e por derivação goiano — era um.

Mas esse perfil mudou, o que ganhou evidência, principalmente, a partir do momento em que o PT conquistou pela primeira vez a Prefeitura da capital, com Darci Accorsi (1993-1997). Essa mudança se deu até nas roupas, na forma de se expressar dos petistas. E, naturalmente, nos hábitos de consumo.

Em Goiânia, aquele petista mal ajambrado da era pré-Darci Accorsi não existe mais. Aquele PT que fazia “vaquinhas” para pagar material de campanha acabou. Aquele PT que se cotizava em festas e rifas faz parte de um passado longínquo.

Isso porque desde então, houve uma “burguesização” (desculpe, leitor, o neologismo) dos petistas e do petismo goiano, aprofundada na segunda gestão dos “trabalhadores” na prefeitura, com Pedro Wilson (2001-2004) e o fortalecimento nacional da sigla com a conquista da Presidência da República em 2002, o que se mantém.

O processo se aprofundou com a presença de Paulo Garcia na Prefeitura, primeiro como vice de Iris Rezende (2009-2010) e depois como titular do cargo, desde 2010 e onde fica até 2016.
Além da miríade de cargos bem remunerados no governo federal, filiados ocupam postos também em outros níveis de governo, mesmo em gestões não petistas. Isso sem contar ONGs e empresas controladas pelos partidários que usufruem de generosos recursos públicos.

Com essa “burguesização”, os filiados do PT hoje passaram a ter nichos de frequência em cafés, restaurantes e botecos caros e bem frequentados em setores como Marista, Oeste e Bueno. Aliás, no que não se diferem da “nomenclatura” de outros partidos. Todo o mundo gosta de usufruir do bom e do melhor. O que muda agora é a quantidade, já que os petistas hoje nesses locais são em muito maior número do que os filiados de outras agremiações partidárias, reflexo da ascensão sócio-financeira advinda com a tomada do poder nos plano municipal e federal.

A reflexão me veio de forma mais aguda com a leitura de artigo do jornalista Cristian Klein, do jornal “Valor Econômico”, publicado na quinta-feira, 8. No texto, intitulado “O ex-Partido dos Trabalhadores”, o jornalista repercute estudo realizado pelo cientista político Luiz Domingos Costa, da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Falta trabalhador no PT

No texto, Klein mostra que pela primeira vez, o PT não terá trabalhadores em sua bancada de deputados federais, que toma posse em fevereiro, fato inédito que é um dos achados do levantamento de Luiz Domingos Costa.

O estudo levantou as profissões de 23.220 candidatos que concorreram nas últimas cinco eleições para a Câmara dos Deputados. São considerados “trabalhadores” os candidatos que declararam ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) exercer 111 ocupações: de motoristas a carpinteiros, de petroleiros a auxiliares de escritório. De torneiro mecânico – origem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – a bancário – como o atual ministro das Comunicações Ricardo Berzoini.

A principal conclusão de Costa, é que o PT “abandonou”, “largou a mão” de recrutar trabalhadores para suas fileiras. Segundo o texto de Klein, é um processo de aburguesamento de seus filiados. E cita como exemplo o caso de Vicentinho, que se reelegeu deputado, mas pela primeira vez se declarou como político, e não metalúrgico.

Alguns números interessantes na corroboração da tese: Em 1998, 21% dos candidatos petistas a deputado federal eram trabalhadores, índice que caiu a menos da metade, 9,8%, na disputa de 2014. Curioso que no mesmo período, a presença de trabalhadores de todos os partidos na eleição à Câmara teve um crescimento moderado, passando de 10,6% para 13,1%.

A pergunta que o pesquisador levanta é: para onde, então, foram os trabalhadores? A resposta: espalharam-se para a miríade de pequenas legendas que nos últimos anos levaram o Brasil a bater o recorde mundial de fragmentação partidária.

“A queda de candidatos trabalhadores no PT é muito alta, principalmente quando levamos em consideração que este é o período em que o partido cresce. O PT, quando se profissionaliza, expurga os trabalhadores”, diz Luiz Costa.

A consequência é que os demais partidos ocuparam o espaço – embora ainda não consigam eleger trabalhadores com a mesma eficiência que o PT fazia. “Apesar de uma leve recuperação desde 2006 (de 1% para 1,9%), a proporção de eleitos ainda é menor do que em 1998 (3,1%). A mudança, porém, está em curso, e o que se vê hoje seria apenas a ponta de um iceberg. Ou de uma arena em que o PT vem ‘apanhando’ nas periferias das regiões metropolitanas, afirma o pesquisador.”

A reflexão final do pesquisador, explicitada no texto do jornalista: “…os trabalhadores migraram para outras legendas, pequenas e mais conservadoras, favorecendo o recente fenômeno da popularização da direita. Em 2014, ‘nanicos’ como PHS (4,8%), PEN (4,5%) e PTdoB (4%) lançaram mais trabalhadores do que o grande PMDB (3,8%). O PT, apesar da queda, ainda é o quarto (4,9%), porém bem atrás do líder PSOL (11,7%) – o que indica que seu nome de batismo pode perder sentido, ou ser ameaçado, à direita e à esquerda.”

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