Cezar Santos
Cezar Santos

PT mantém candidatura do corrupto Lula da Silva

Só a popularidade do ex-presidente bicondenado pode manter o partido vivo eleitoralmente

Lula da Silva em encontro do PT, em São Paulo: discurso de acirramento da militância contra condenação por corrupção

O “nós contra eles”, categoria de pensamento instituída pelo Partido dos Trabalha­do­res na sociedade brasileira, en­trou agora em nível paroxístico. O “nós”, no caso, são os petistas, e o “eles” são todos os outros cidadãos que não comungam com as ideias e as práticas do petismo.

O PT entrou, definitivamente, num beco sem saída, após confirmada a condenação do ex-presidente Lula da Silva por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, com o acréscimo de mais três anos na pena. Seus dirigentes já não sabem — e muitos deles nem querem — admitir que a totalidade da sociedade brasileira não embarcou no conto do nirvana que o partido teria estabelecido no País.

Pelo contrário, a maioria dos brasileiros não acredita no conto e mais que isso, repudia o que o PT fez nos 13 anos de poder, seja pela fla­grante incompetência administrativa, principalmente com Dilma Rou­sseff, seja pela imoralidade e falta de ética estabelecidas no pla­no institucional.
O partido se desidratou acentuadamente na esteira dos inúmeros casos de corrupção ao quais se viu envolvido como cabeça e/ou coadjuvante desde que assumiu o poder, em 2003. E não se está di­zen­do que não havia corrupção an­tes do PT, claro que havia, sempre houve.

Mas a partir do momento em que Lula da Silva subiu a rampa do Palácio do Planalto e recebeu a faixa presidencial de Fernando Henrique Cardoso, a corrupção na política brasileira alçou níveis nunca antes imaginado. Estão aí a confirmar o mensalão e o assalto à Petrobrás que resultaram e estão resultando num punhado de petistas e seus aliados condenados e presos.
O carimbo da corrupção tirou votos do PT nas eleições municipais de 2014, quando a sigla perdeu dezenas de prefeituras. Na Câmara Federal vários deputados bandearam para outros partidos. Em que pese isso, o PT segue sen­do uma sigla de peso, basta lembrar que tem a segunda maior bancada na Câmara, com 57 deputados federais.

O medo real dos dirigentes pe­tis­tas é que esse número caia drasticamente na eleição deste ano. Menos cadeiras na Câmara significa menos empregos para a militância mais graúda, por exemplo. E quanto menos deputados, menos dinheiro público do Fundo Par­ti­dá­rio, fonte de sustentação da má­quina partidária para toda e qualquer sigla. E tudo isso vale também nos Estados, com as bancadas nas Assembleias Legislativas.

O PT precisa de Lula vivo e pelo menos aparentemente forte, para trazer de volta aquele eleitorado que admira o ex-metalúrgico, tanto pelo que ele representa no ima­ginário popular — o pobre que chegou lá —, quanto pelo que efe­tivamente tenha realizado en­quanto presidente. Mas boa parte des­se eleitorado, diante da cornucópia de escândalos patrocinados pelos governos petistas, migrou para outros partidos e nomes, deixou de acreditar que o PT possa dar algo de positivo ao País.

Petista está inelegível

Confirmada a condenação de Lula, o PT insiste em manter a pré-candidatura dele. Ignorando o que isso significa de conturbação do cenário político em geral. A con­denação deixa o petista inelegível, mas recursos podem garantir o registro no Tribunal Superior Elei­toral (TSE) para concorrer este ano.

E logo após o julgamento na quarta-feira, 24, o próprio Lula anunciou, em discurso para sua militância, em São Paulo, que lan­çaria sua pré-candidatura no dia se­guinte. E o fez num tom de cla­ro acirramento dos ânimos. “Eu já nem queria mais fazer política. Eu já tinha sido presidente. Mas parece que tudo que eles [olha o “eles” aí] estão fazendo é para evitar que eu seja candidato. Mas essa provocação é de tal envergadura que me deu uma coceirinha e agora eu que­ro ser candidato”, disse Lula.

O que é apenas uma ratificação, porque de fato Lula está em pré-cam­panha desde que sua pupila Dil­ma Rousseff foi deposta da Presidência da República, há mais de um ano.
O PT precisa manter a pré-candidatura de Lula como forma de se­guir vivo como ente político im­por­tante no cenário atual. Os 36% que o ex-presidente tem nas pesquisas de intenção de voto são significativos, principalmente se lembrarmos que o segundo lugar, Jair Bolsonaro, tem menos da metade disso.

Não foi por acaso que instantes após o julgamento, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann (PR), divulgou uma nota em que chama o julgamento do ex-presidente de farsa. Na nota, ela reafirma a candidatura de Lula e diz que (os petistas) não vão aceitar passivamente que “a democracia e a vontade da maioria sejam mais uma vez desrespeitadas”.

— Se pensam que a história termina com a decisão de hoje, es­tão muito enganados, porque não nos rendemos diante da injustiça.

Ou seja, petistas consideram in­justiça qualquer decisão da Justiça que não seja favorável a eles.

A estratégia neste cenário está clara. Lula e o PT vão ex­plo­rar ao máximo o discurso (ou a narrativa, como virou moda falar) do que chamam de perseguição po­lítica ao seu babalorixá, que estaria configurada numa manobra ju­rídica com o objetivo de tirá-lo da disputa de outubro. O delírio des­sa versão é que o Judiciário brasileiro mancomunou-se para prejudicar o PT, para não deixar Lula ser candidato.

Ignoram os petistas as carradas de provas e evidências de corrupção, de tráfico de influência, de en­ri­quecimento repentino (patrimônio multiplicado 27 vezes desde que assumiu a Presidência e os filhos também enriqueceram) de Lu­la da Silva no exercício do po­der. Mas o discurso de “somos per­seguidos” servirá para deixar a mi­litância mobilizada, ativa.

A estratégia é manter a candidatura de Lula até o Tribunal Su­pe­rior Eleitoral (TSE) impedi-lo de dis­putar a eleição. Afinal, há regras e leis, incluindo a da Ficha Limpa, que é claríssima na vedação de can­didatura de condenado por co­le­giado, como é o caso de Lula da Sil­va. Mas, enquanto isso, o partido vai radicalizar o discurso, colocando o ex-presidente como vítima.
Lula é a grande figura do PT. Mais que isso, é o único líder petista de apelo popular nacional. Ob­via­mente, a condenação por corrupção empanou muito desse brilho, por ter mostrado a verdadeira dimensão de ídolo de pés de barro que ele é, no tocante a moralidade. Mas o partido precisa de manter a cha­ma acesa.

Há um substrato da sociedade que manifesta repúdio à corrupção, até por ver que a Lava Jato es­tá revelando irregularidades e pu­nin­do os malfeitores, muitos deles já condenados e cumprindo pena. Es­se repúdio, como já foi dito, pre­judicou o PT na eleição de 2014. A questão, agora, é saber o tamanho do impacto que esse sentimento do eleitor vai impor ao PT na eleição de 2018.

Plano B

Fernando Haddad: ex-prefeito de São Paulo será o “poste” da vez de Lula

Os dirigentes petistas sabem que as chances de candidatura de Lu­la da Silva são mínimas. A pré-can­didatura do ex-presidente persiste, mas faz parte de uma estratégia, e o partido já definiu um no­me alternativo: Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo — cogitou-se também em Jaques Wagner, mas este prefere disputar cargo legislativo na Bahia, porque teme ficar sem mandato, já que também está enrolado na operação Lava Jato.

E a estratégia para levar Ha­ddad ao segundo turno foi traçada na quinta-feira, 25, no encontro do partido em São Paulo. “O que vai acontecer com Haddad é a sutileza da aparição. Ele sempre estará ao la­do de Lula no palanque. O ex-pre­sidente já o colocou como co­or­denador do programa de governo dele e vem focando os seus discursos na educação justamente para começar a apresentar Haddad ao eleitor”, revelou um petista, con­forme reportagem do blogueiro Gerson Cama­rotti, publicada na quinta-feira.

Aí, quando Lula não puder mais fazer campanha por ser ficha suja, ele apontará o dedo para o pos­te, digo, Fernando Haddad, di­zen­do aos petistas: “Esse é o meu candidato”.
Foi mais ou menos isso que Lula fez com Dilma Rousseff e o final da história todos sabem.

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Ivon Santos Bueno

Mas que vergonha!! Cadê a imparcialidade devida a esse veículo de comunicação?

Carlos Raimundo Lucas Batista

Sr. Ivon Santos Bueno, falar a verdade é ser parcial? Ser imparcial é dizer que o Lula é a alma mais honesta deste mundo e o PT é verdadeiramente o partido dos trabalhadores? Sr. Ivon, não subestime a inteligência alheia.