Cezar Santos
Cezar Santos

PT critica a política da crise, sem admitir que é o autor dela

Partido condena altas de juros e cortes de investimentos, mas não reconhece que é o culpado 

Fernando Morais e Rui Falcão: o primeiro faz questão de não enxergar a crise que até o segundo admite. Já o ideólogo Leonardo Boff “latiniza” a crise

Fernando Morais e Rui Falcão: o primeiro faz questão de não enxergar a crise que até o segundo admite. Já o ideólogo Leonardo Boff “latiniza” a crise

Infelizmente, para além de preferências partidárias, o drama brasileiro é que a permanência da petista Dilma Rousseff no Palácio do Planalto aprofunda a crise econômica por que passa o País. Mesmo que alguns partidários insistam que não há crise.

Na quarta-feira, 30, apareceu na timeline do Facebook desse articulista um exemplo desses e a notoriedade do autor faz merecer o registro. O escritor Fernando Morais, que sistematicamente posta em seu Facebook reprodução de notícias que “provariam” que a economia brasileira está às mil maravilhas: foto de uma praia lotada e o comentário irônico: “Acabei de ver na televisão: taxa de ocupação dos hotéis no Rio e em Salvador é de 100%. Deve ser a crise.”

Fernando Morais é petista de carteirinha, admirador dos irmãos Castro, os ditadores de Cuba, aquele país que é um pujante paraíso econômico e de onde os cubanos ingratos estão fugindo aos montes para o “inferno” Estados Unidos.

Quem não quer ver o óbvio não vê. Quem não quer realmente não enxerga crise em notícias como: rombo nas contas do governo em 2015 é o maior em 18 anos; desemprego cresce; inflação passa dos 10%; Produto Interno Bruto (PIB) cai; indústria voltou a mesma participação no PIB que tinha em 1950; Petrobrás valendo na bolsa menos de um terço de seu patrimônio; etc., etc.

Os exemplos são tantos que fica enfadonho relacioná-los. Ressalvando que alguns setores são menos atingidos, o fato é que o País está em crise, obviamente.

Alguns especialistas notam que o quadro é de recessão; outros falam na iminência de estagflação, que tecnicamente é uma situação típica de recessão, ou seja, diminuição das atividades econômicas e aumento dos índices de desemprego, além da inflação e da falta de instrumentos institucionais que regulem a economia.

A crise é tão real que mesmo petistas já reconhecem a gravidade e o próprio PT como instituição passou a não negar. Prova robusta foi estampada no site do partido na semana passada, em editorial assinado pelo presidente nacional da sigla, Rui Falcão. O petista diz, sem subterfúgios, que atos do governo Dilma geraram frustração.

Bingo! Bem-vindo ao clube dos que sabem e sentem que o governo Dilma faz muito mal ao Brasil e aos brasileiros.

No editorial de cinco parágrafos, intitulado “Uma nova e ousada política econômica para 2016”, está dito que o governo Dilma Rousseff tem de se concentrar nos próximos meses na construção de uma nova pauta econômica que, segundo Falcão, “devolva à população a confiança perdida após a frustração dos primeiros atos de governo”. Falcão também pede o fim das altas de juros e dos cortes em investimentos federais.

Sem mencionar a saída de Joaquim Levy do Ministério da Fazenda, Rui Falcão elogio os novos comandantes da área econômica, Nelson Barbosa, na Fazenda, e Valdir Simão, no Planejamento. Falcão diz que o PT confia no potencial dos novos ministros para dar novo rumo à combalida economia brasileira.

“Entre o final de 2015 e o início de 2016, o governo da presidenta Dilma Rousseff precisa se concentrar na construção de uma pauta econômica que devolva à população a confiança perdida após a frustração dos primeiros atos de governo. […] Chega de altas de juros e de cortes em investimentos”, anota Falcão.

Como não poderia deixar de ser, reiterando o que o petista faz na imprensa diuturnamente, é jogada na oposição a culpa pela crise. Ele ataca quem não está no governo dizendo que o cenário político se agravou devido à insistência de grupos oposicionistas com suas “tentativas de golpes”. Segundo Falcão, a oposição investiu ao longo do ano na estratégia do “quanto pior melhor” e acabou agravando os problemas do país.

“Claro que a oposição partidária do quanto pior melhor também contribuiu para agravar os problemas (muitos deles decorrentes da crise global do capitalismo), insistindo o ano todo com suas tentativas golpistas que desembocaram numa crise política”, diz.

Rui Falcão ainda citou no texto que, para ele, o governo deveria aproveitar que “o risco do impeachment arrefeceu”, para apresentar propostas para reaquecer a economia brasileira.

O que Rui Falcão não diz é que a crise econômica é resultado da política praticada pelo PT. Foi o petista Guido Mantega, no Ministério da Fazenda, sob ordem direta de Dilma Rousseff, que durante os quatro anos do primeiro mandato cometeu erros grosseiros causadores da crise. Esses erros aprofundaram os imensos equívocos do segundo governo Lula.

Ou seja, Rui Falcão não faz o mea culpa pelos erros dos governos do PT. Pedir juros mais baixos é fácil. Pedir mais empregos é fácil. Pedir mais investimentos é fácil. Um governo sem credibilidade como o de Dilma Rousseff fazer isso é que é difícil.

Conexões

Ao acessar o site do PT para escrever este texto, vi um link para um artigo do ideólogo petista Leonardo Boff, intitulado “O Annus nefastus de 2015 não invalida a esperança”. As duas primeiras frases de Boff (não por coincidência outro admirador do ditador Fidel Castro): “O ano que acaba de 2015 merece esta qualificação latina: annus nefastus. Outros o chamam de annus horribilis. Ocorreram tantas calamidades que além de espanto nos causam preocupações.”

Lembrei-me imediatamente do primeiro Ponto de Partida que escrevi em 2015, cujo título é “Que 2015 não seja um annus terribilis”, com o subtítulo “Por certas nomeações na equipe, dá para perceber que a corrupção e a inoperância causada pelo inchaço do ministério continuarão sendo as marcas do governo Dilma 2”.

Pela conexão com o artigo boffiano e a crise econômica, reproduzo dois parágrafos do texto de minha lavra:

Com a reeleição, que ficou por um triz, esperava-se que o segundo governo da petista pudesse ser diferente do primeiro. Isso, porque, sem a possibilidade de “trieleição” ela talvez raciocinasse que não precisaria entregar a alma aos aliados.

Dilma não tem personalidade para tentar dar uma “cara” própria ao seu governo. É refém dos acordos para a tal governabilidade. E, para resguardar um mínimo de condições no sentido de recuperação da economia, teve de atender orientação do ex-presidente Lula, colocando na Fazenda o economista Joaquim Levy, um eleitor de Aécio Neves. Levy na condução da Economia pode devolver a credibilidade que o País perdeu. Isso se Dilma deixá-lo fazer o que é preciso: aplicar o ideário que certamente Aécio Neves iria aplicar se tivesse sido eleito, porque urge consertar os estragos cometidos pela dupla Dilma-Mantega.

Estava na cara que 2015 seria nefastus ou horribilis ou terribilis — o leitor escolha o latim que mais lhe agrade. O resultado é o mesmo. A bancada do PT no Congresso foi o maior sabotador do ajuste fiscal que Levy tentou fazer. Se ele conseguisse, 2015 seria difícil como foi, mas entraríamos em 2016 numa rota de melhora.

Por mais que os brasileiros torçam para que o nefasto, o horrível e o terrível não se repitam neste 2016 recém-iniciado, já se sabe que essa torcida é vã.

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