Marcelo Mariano
Marcelo Mariano

Por que Ciro Gomes não quer subir no palanque de Fernando Haddad?

Culpar o ex-governador do Ceará por uma eventual vitória de Jair Bolsonaro é mais uma prova da falta de mea culpa do PT

Ciro Gomes e Fernando Haddad em 2016 | Foto: Divulgação

Com a definição da disputa do segundo turno entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT), o apoio do terceiro colocado na corrida presidencial, Ciro Gomes (PDT), passou a ser cobiçado pelo petista, que o teria convidado para comandar algum ministério em caso de vitória.

A presença do ex-governador do Ceará no palanque do ex-prefeito de São Paulo poderia ajudar a transferir boa parte dos mais de 13 milhões de votos obtidos por Ciro Gomes a Fernando Haddad.

Mas o PDT declarou “apoio crítico” ao PT e o presidente nacional da sigla, Carlos Lupi, garantiu que o partido será oposição independentemente de quem vencer as eleições e que Ciro Gomes não subirá no palanque de Fernando Haddad neste segundo turno. “Não faremos nenhuma reivindicação. Por isso que a gente fala que é o voto crítico. É voto sem participação em campanha. Não queremos, já está clara a nossa posição, a participação em nenhum governo se Fernando Haddad ganhar a eleição”, disse.

Ainda no primeiro turno, Ciro Gomes deu indicações de que não participaria ativamente da campanha de Fernando Haddad — tanto é que viajou para a Europa após o resultado. “Não é mais possível, para mim, andar com o PT na política”, frisou o pedetista, que chamou o partido de “organização odienta de poder”.

Apesar de nunca ter sido filiado ao PT, Ciro Gomes tem um histórico de caminhada ao lado da legenda. Ele ocupou o Ministério da Integração Nacional durante o primeiro governo do ex-presidente Lula da Silva, foi cogitado para disputar a Presidência em 2010 com o apoio petista e se posicionou contra o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

Mesmo assim, a presidente nacional do PT, a deputada federal eleita Gleisi Hoffmann, disse, antes das definições das chapas presidenciais deste ano, que Ciro Gomes não passaria pela partido “nem com reza brava”.

O ex-governador do Ceará se viu isolado no pleito após uma manobra articulada por Lula da Silva de dentro da cadeia. A aliança entre PDT e PSB estava praticamente certa, mas o PT propôs retirar a candidatura de Marília Arraes ao governo de Pernambuco — ela liderava as pesquisas de intenção de voto —, o que favoreceria a reeleição do governador Paulo Câmara (PSB).

Em troca, o PSB ficaria neutro na disputa a presidente e retiraria a candidatura de Márcio Lacerda ao governo de Minas Gerais a fim de facilitar a reeleição de Fernando Pimentel (PT), que nem sequer foi ao segundo turno.

É, portanto, natural e compreensível que Ciro Gomes fizesse ressalvas a um apoio ao PT. Afinal, o partido o tratou como um verdadeiro inimigo.

Cid Gomes

Na última semana, Cid Gomes (PDT), irmão de Ciro, participou de um evento em apoio a Fernando Haddad e cobrou uma autocrítica do PT, que, segundo ele, fez “muita besteira”. Parte do público não reagiu bem e começou a vaiá-lo. Cid, então, continuou: “Vão perder feio, porque fizeram muita besteira, porque aparelharam as repartições públicas, porque acharam que eram donos de um país, e o Brasil não aceita ter dono, o Brasil é um país democrático”.

Muitos petistas, inclusive Gleisi Hoffmann, disseram que não pedirão desculpas. “Não dá para o PT pedir desculpas porque venceu para ir ao segundo turno”, enfatizou a presidente nacional do partido.

Há uma ideia na esquerda, ou no campo progressista, de que não se deve criticar Fernando Haddad e seu partido porque o adversário é Jair Bolsonaro. Mas a democracia só prevalece quando as críticas são apontadas a qualquer um que as mereça.

Além disso, para o PT vencer, precisa tirar votos do presidenciável do PSL. Sem um reconhecimento dos erros, isso não será possível. E culpar Ciro Gomes por uma eventual vitória de Jair Bolsonaro, como alguns já estão fazendo nas redes sociais, é mais uma prova da falta de mea culpa do PT.

Ciro Gomes 2022

O PDT conseguiu eleger um número bom de parlamentares e pode se dizer que saiu fortalecido das eleições de 2018. Com Cid no Senado e Ciro articulando Brasil afora, torna-se naturalmente um player importante para o pleito de 2022.

A propósito, a ideia de lançar o nome de Ciro Gomes na próxima disputa presidencial é tratada com seriedade. Já é possível, inclusive, considerá-lo um pré-candidato. Resta saber se o PDT conseguirá, de fato, quebrar a hegemonia do PT na esquerda. O ex-governador do Ceará já demonstrou essa vontade, que só deve aumentar daqui em diante.

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