Marcelo Mariano
Marcelo Mariano

Plano Ursal: há quem faça piada, mas o assunto é sério

Os memes sobre o fictício projeto desviaram o foco do que realmente é importante no debate político brasileiro

Foto: Reprodução

O primeiro encontro entre os presidenciáveis, realizado no dia 9 de agosto pela Band, parecia que não teria surpresas e seguiria no rumo que geralmente se espera de qualquer outro debate — afinal, o tempo para a exposição de ideias por parte dos candidatos não é suficiente e as falas costumam ser mais do mesmo, salvo raras exceções.

Foi aí que o “efeito Cabo Daciolo” entrou em ação. O postulante à Presidência pelo Patriota perguntou a Ciro Gomes (PDT) o que ele teria a dizer sobre o suposto Plano Ursal, sigla referente à União das Repúblicas Socialistas da América Latina. “Não sei o que é isso”, respondeu o ex-governador do Ceará após um espanto inicial. “A democracia é uma beleza, mas ela tem certos custos”, ironizou posteriormente.

Na réplica, Cabo Daciolo, além de substituir, como quem não conhece o básico de Geografia, o termo “América Latina” por “América do Sul” — o que resultaria em uma mudança da sigla para Ursas —, disse que o assunto seria pouco divulgado. Mas ele estava completamente enganado.

Rapidamente, o tema se espalhou pela internet. A grande maioria fez piada e meme — houve até quem imaginasse uma seleção de futebol da Ursal, com o ataque comandado por Neymar, Messi e Suárez. Contudo, muita gente acreditou em Cabo Daciolo, como o vocalista da banda Ultraje A Rigor, Roger Moreira.

É até compreensível que se faça piada diante de um absurdo como este. Por outro lado, é preocupante ver que algo tão raso tenha ofuscado o que realmente interessa no debate político brasileiro: as propostas dos candidatos para o Brasil nas áreas da Segurança Pública, Saúde e Educação, entre outras. Esses, sim, são assuntos sérios.

No segundo debate entre os presidenciáveis, promovido pela RedeTV! na sexta-feira, 17, a Ursal, felizmente, não voltou à tona. Cabo Daciolo decepcionou aqueles que esperavam mais pérolas e tiveram que se contentar com as mesmas frases religiosas sem sentindo algum. A esperança é que, daqui para a frente, os políticos e os eleitores se concentrem em aspectos mais produtivos.

Origem
É importante, porém, explicar a origem de tudo isso. A primeira aparição do termo Ursal foi em um artigo intitulado “Os companheiros”, publicado em 9 de dezembro de 2001 pela socióloga Maria Lúcia Victor Barbosa no site do filósofo Olavo de Carvalho, tido como o guru da nova direita brasileira.

No texto, Maria Lucia criticava discurso de Lula da Silva (PT), então pré-candidato a presidente, durante reunião de partidos de esquerda da América Latina, em Havana, Cuba. “Será o fim da integração latino-americana”, disse o petista, criticando a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), chamada por ele de “projeto de anexação” dos Estados Unidos.

A sociológica, por sua vez, questionou a integração mencionada por Lula da Silva e cunhou o termo Ursal, de maneira irônica, tendo, inclusive, trocado “Repúblicas” por “Republiquetas”. “Mas qual seria, me pergunto, essa tal integração no modelo Castro-Chávez-Lula? Quem sabe, a criação da União das Republiquetas Socialistas da América Latina (URSAL)?”, indagou.

Reportagem do jornal “Folha de S. Paulo”, de 13 de agosto de 2018, assinada por Denise Perotti, ouviu Maria Lúcia, que confirmou que a Ursal não passou de uma invenção e se disse surpresa ao ver que sua piada foi parar em um debate entre presidenciáveis. “Isso é meu, olha onde foi parar, eu fiquei boba.”

Entretanto, é possível encontrar na internet sites que tratam a Ursal como uma realidade. Há até um “Dossiê Ursal”, ilustrado por uma foto do senador Aécio Neves (PSDB) e da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Vale deixar claro para quem ainda não entendeu: trata-se de uma teoria da conspiração da pior categoria.

Cabo Daciolo
Por fim, vale contar um pouco da história de Cabo Daciolo, um dos principais personagens da política na última semana e que, de repente, surgiu para o público — seu nome pouco aparecia antes das confirmações das candidaturas; hoje, é um dos mais comentados.

Em 2011, Cabo Daciolo liderou a greve dos bombeiros no Rio de Janeiro e ficou preso durante nove dias em Bangu I em decorrência de sua atuação. Três anos depois, elegeu-se deputado federal pelo PSOL. O candidato à Presidência pelo Patriota foi filiado ao Avante antes de chegar ao atual partido.

Religioso, o presidenciável apresentou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) com o objetivo de alterar o parágrafo primeiro da Constituição Federal. A ideia era trocar “todo poder emana do povo” por “todo poder emana de Deus”. Este foi o motivo que levou a expulsão de Cabo Daciolo do PSOL, em 2015.

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Roger Moreira

Não “acreditei” na URSAL. A união das repúblicas latinas comunistas é um sonho documentado da esquerda, tenha o nome que for. Mercosul, Unasul, Foro de São Paulo ou o que seja. Só gente cínica feito você é que finge que não existe o desejo.

Nathan Souza

É meu amigo, Roger, sou obrigado a concordar com você. Só não vê quem não quer que existe o desejo de tornar a América Latina em uma grande e única bandeira comunista.

ALVARO LUIS

KKKKKK… seria cômico se não fosse trágico… ter de ler isso é só trágico… principalmente quando se pensa no governo “comunista” do Lula, que não estatizou nada… onde os bancos tiveram lucros gigantescos… onde as industrias de bens duráveis venderam como nunca… onde os grandes latifundiários ficaram mais tranquilos que em governo de direita… acho que perdemos a capacidade de racioncínio…

DEUSDETE

Só não vê quem não quer, quantos bilhões os governos petistas investiram nesses países comunistas e, dizem que tirou não sei quantos mil brasileiros da linha da pobreza. Faça-me o favor sr.!!!

luis I

#URSALNÃO