Cezar Santos
Cezar Santos

“PIBinho” e “inflaçãozona”, legados do 1º ano de Dilma

Banco Central prevê que a economia brasileira encolha 3,6% e a carestia chegue a 10,8% em 2015

Os consumidores brasileiros amargaram um ano de alta nos preços, queda na renda e desemprego crescente

Os consumidores brasileiros amargaram um ano de alta nos preços, queda na renda e desemprego crescente

Contra fatos não há argumentos. Números ilustram e confirmam os fatos. Daqui a quatro dias termina o ano de 2015, ou seja, o primeiro do segundo mandato de Dilma Rousseff. Com isso, a petista perfaz cinco anos de assento na cadeira presidencial consolidando um fato confirmado pelos números: a economia entrou em crise.

Se vivemos em plena democracia, com (razoável) garantia de liberdades civis, o que dá a medida de excelência ou não de um governo são os indicadores econômicos — para quem já ia gritar dizendo que mais importantes são os indicadores sociais, lembramos que estes são importantes sim, mas só são possíveis se a economia estiver ajustada e em crescimento.

Os indicadores econômicos atestam o fracasso da forma dilmista de governar. Desemprego aumentando, recessão, empresas fechando as portas… Essa realidade de números ruins foi por demais mostrada no primeiro governo da economista Dilma Rousseff — sim, ela tem um diploma em Economia, por incrível que pareça! Para sofrimento dos brasileiros, esses números se agravaram em 2015.

Na quarta-feira, 23, o Banco Central (BC) divulgou mais desses indicadores lamentáveis. Segundo cálculo do BC, a economia brasileira deve encolher 3,6% e a inflação chegar a 10,8% em 2015. Note, leitor, que são estimativas do Banco Central, e não de alguma entidade a serviço da oposição ao governo do PT.

A previsão do órgão oficial, de acordo com o relatório trimestral de inflação, faz uma projeção pior do que a anterior, do último relatório, em setembro, quando o BC falava em encolhimento de 2,7% da economia e inflação em 9,5%.

Para o ano que começa daqui a cinco dias, a projeção do BC é de que a inflação chegue a 6,2%, pior do que a expectativa anterior, de 5,3%, mas ainda abaixo do teto da meta do governo. O objetivo do governo é manter a inflação em 4,5% ao ano, mas com tolerância de dois pontos porcentuais para cima ou para baixo (na prática, variando entre 2,5% e 6,5%).

O jornal “Folha de S.Paulo” fez um quadro (ao lado) com as projeções do BC para a economia brasileira ao longo do ano.

Confiança cai

Nesse cenário, é natural que a confiança do consumidor caia, mesmo porque o endividamento das famílias tem aumentado progressivamente. É o que atesta a Fundação Getúlio Vargas, que também na quarta-feira divulgou o Índice de Confiança do Consumidor (ICC), mostrando recuo de 2% neste mês, em relação a novembro. Com isso, o ICC de dezembro caiu para 75,2 pontos. É o menor nível da série iniciada em setembro de 2005. Na comparação com dezembro do ano passado, a queda é de 21,3%.

Economistas atestam que a queda do índice foi influenciada pela piora da percepção em relação à situação financeira familiar, reflexo direto da combinação de alguns fatores: aceleração da inflação de alimentos, piora das avaliações sobre o mercado de trabalho e dificuldades para redução do grau de endividamento.

O jornal “Valor” trouxe nota da coordenadora da Sondagem do Consumidor, Viviane Seda Bittencourt, que diz que o período natalino não refrescou em nada a situação. “… nem mesmo a renda extra auferida no período e a maior oferta de empregos temporários foi suficiente para reduzir a insatisfação e o pessimismo em relação aos próximos meses”.

O consumidor vai começar 2016 em baixo astral. A nota da técnica da FGC diz que houve piora nas avaliações dos consumidores sobre a situação atual e das expectativas em relação aos meses seguintes. O Índice de Situação Atual (ISA) caiu 4,0%, atingindo 63,2 pontos, menor nível da série, enquanto o Índice de Expectativas (IE) recuou 0,8%, de 82,8 para 82,1 pontos. O indicador de satisfação com a situação financeira da família caiu 3,7%, de 89,4 para 86,1 pontos, atingindo o mínimo histórico da série após uma sequência de oito meses consecutivos de queda.

O “Valor” registra que a parcela de consumidores que avaliam a situação financeira como boa diminuiu de 12,2% para 10,2%; e a dos que dizem estar ruim aumentou de 22,8% para 24,1%.

“Com relação às perspectivas futuras, houve nova redução no ímpeto de compra de bens duráveis para os próximos seis meses. O indicador recuou 2,8%, entre novembro e dezembro, ao passar de 60,4 para 58,7 pontos. Apenas 7,3% dos consumidores afirmaram ter expectativas de comprar mais, enquanto 48,6% planejam comprar menos.”

Já no que diz respeito a análise por classes de renda, registra a reportagem, todos os consumidores tiveram perda da confiança em dezembro exceto os com renda familiar mensal entre R$ 2.100 e R$ 4.800 cujo resultado foi melhor do que no mês anterior. “A piora mais expressiva ocorre para os consumidores de baixa renda, até R$ 2.100, queda de 4,3% do índice.”

Screenshot_1Presidente faz apelo à nova equipe

Em que pese o discurso otimista, às vezes admitindo às vezes negando a situação difícil da economia, o Palácio do Planalto sabe que precisa fazer algo. Na terça-feira, 22, o ministro da Casa Civil, Jaques Wagner, anunciou que a nova equipe econômica do governo, agora comandada por Nelson Barbosa, deve se reunir nesta segunda-feira, 28, para afinar o discurso sobre as propostas da área para o ano que vem.

Em entrevista coletiva Wagner disse que na volta do Natal, Dilma terá uma reunião com a equipe econômica e com os ministros para uniformizar a fala e preparar um conjunto de medidas que ela vai ter que apresentar ao Congresso no retorno. Já se sabe que uma das propostas será a reforma da Previdência.

O ministro não entrou em detalhes, sobre o que será apresentado porque o governo não definiu qual será o modelo adotado. “Todo mundo sabe que precisamos olhar para o futuro. Isso vai dar credibilidade para o governo se conseguirmos garantir que a Previdência, que é geradora de parte do desequilíbrio possa, daqui a 15 anos, ter um equilíbrio.”

Conforme Jaques Wagner, Dilma deverá otimizar de três a quatro eixos da economia para apresentar ao Congresso. Além da previdência, esses eixos devem ser a simplificação tributária, livre negociação de questões trabalhistas entre empregador e empregadores, e medidas de desburocratizações.

Wagner pediu também um voto de confiança ao ministro Nelson Barbosa, que assumiu o Ministério da Fazenda em substituição a Joaquim Levy.

“Pediria que as pessoas não sentenciassem antes que o cara trabalhasse.
Ninguém é suicida. Todo mundo que está na atividade econômica quer que as coisas andem. É claro que tem que ter um pouco de aposta, de ajuda, de querer que as coisas deem certo. Se não, não funciona. [Ele] não vai fazer nenhuma loucura. Nelson é cara equilibrado”, disse.

Wagner acredita que a mudança na equipe econômica, com a saída de Levy da Fazenda, e a ida de Barbosa para a pasta e de Valdir Simão para o Planejamento, criará uma equipe mais “harmônica”. Ele creditou a saída de Levy a um desgaste natural fruto de um ano turbulento.

“Quando o vento está bom, qualquer um é bom. Quando o governo está ruim, toda a culpa vai para o ministro, para a presidente, para a equipe econômica. Já havia o desgaste, até do ponto de vista do relacionamento. E eu acho que vai se ter uma equipe mais harmônica. Mas mais harmônica não quer dizer samba de uma nota só. O contraponto vem da rua”, disse o ministro.

Wagner mostrou otimismo e disse o governo encerra o período “melhor do que em alguns momentos durante o ano”. O ministro fez um mea-culpa sobre os erros do governo ao dizer que foram feitas apostas em áreas que não deram muito certo.

“Todo mundo sabe que teve medidas que nós apostamos e a posologia [dosagem] foi errada. Como no caso das desonerações, na redução do nosso [equilíbrio] fiscal. Isso todo mundo reconhece. [As críticas vêm] dos engenheiros de obra pronta, o que é fácil. Então, não tem uma culpa só. Temos culpa? Evidente. Fizemos uma aposta que não deu certo. Mas isso não é dolo. É que exageramos na dose”.

Ajuste e crescimento econômico

Dilma Rousseff tem duas pressões enormes sobre si: a maior recessão desde o período de Fernando Collor e um processo de impeachment. Por isso sua esperança é que a nova equipe econômica consiga fazer o “que for preciso” para retomar o crescimento.

Ao dar posse a Nelson Barbosa na Fazenda e Valdir Simão no Planejamento, a presidente repetiu pelo menos cinco vezes que ajuste fiscal e retomada do crescimento “podem e devem vir juntos”.

“Três orientações imediatas eu levo aos ministros da área econômica: trabalhar com metas realistas e factíveis para construir credibilidade; atuar para estabilizar e reduzir consistentemente a dívida pública; e fazer o que for preciso para retomar o crescimento sem guinadas e sem mudanças bruscas, atuando neste ambiente de estabilidade, previsibilidade e flexibilidade”, discursou.

Conforme Dilma, os novos ministros precisam “contagiar a sociedade brasileira com a crença de que o equilíbrio fiscal e crescimento econômico podem e devem vir juntos”.

A presidente buscou ainda responder às críticas do mercado financeiro, que recebeu mal a indicação de Nelson Barbosa. Segundo ela, os objetivos de curto prazo são “restabelecer o equilíbrio fiscal, reduzir a inflação, eliminar a incerteza e retomar com urgência o crescimento”.

Brasil cai, o mundo cresce

Os apelos da presidente a sua nova equipe econômica mostram que ela não tem consciência de que o problema maior se chama Dilma Rousseff, cuja inapetência para governar é flagrante. Ela sempre dizia que a crise econômica brasileira era reflexo da crise mundial. O argumento é falso.

Recupero informações de reportagens do início deste mês, que mostraram que a queda da economia no Brasil é a mais forte e mais longa entre as chamadas economias globais. A retração de 1,7% do PIB brasileiro no terceiro trimestre em relação aos três meses anteriores era apontada como um destaque negativo na economia global: não apenas foi a maior queda entre 41 países que tinham divulgado os seus dados de julho a setembro, como também é a mais longa. A contração foi praticamente o dobro da registrada pela Grécia (-0,9%), a segunda economia que mais encolheu no período.

O resultado chamava a atenção porque aconteceu em um período em que boa parte da economia mundial teve crescimento: dos 41 países analisados, 35 obtiveram resultado positivo ou ficaram estagnados. Somente Dinamarca, Japão, Taiwan e Estônia encolheram no terceiro trimestre, além de Brasil e Grécia. Nos países da América Latina (referência para o ritmo do PIB brasileiro), somente Chile e Colômbia tinham anunciado seus dados de julho a setembro. O primeiro cresceu 0,4%, e o segundo, 0,8%.

Também soava como destaque negativo do PIB o fato de que ele acumulava o terceiro trimestre consecutivo de retração, uma sequência que nenhum dos países analisados obteve no período — nem mesmo a Grécia e a Ucrânia, dois locais que vivem crises graves.

Essa sequência negativa não significa que a crise brasileira seja a mais grave no mundo hoje —a economia ucraniana, por exemplo, encolheu 6,8% no ano passado e deve cair, segundo projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), mais 9% neste ano, ainda sob efeito do conflito com a Rússia. Porém, enquanto alguns países já dão sinais de que a crise chegou ao fundo do poço, o Brasil não dá indícios de que ela chegou ao fim.

Analistas consultados pelo Banco Central para o boletim Focus (realizado semanalmente) esperam que a retração do PIB continue até ao menos o fim de 2016.

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