Rodrigo Hirose
Rodrigo Hirose

Pavor com coronavírus cresce, mas o perigo maior está em nosso quintal

Por enquanto, a dengue continua sendo mais preocupante que o vírus que chega da China e da Europa: só este ano, são 14 mortes suspeitas em Goiás

Até a sexta-feira, dia 6, o Brasil contabilizava nove casos confirmados de infecção pelo novo coronavírus, o SARS-Cov-2, agente da epidemia de Covid-19. Nenhum deles em Goiás. A questão, porém, não é “se” a doença chegará ao Estado, mas “quando”. Em um mundo em que as distâncias são cada vez menores, não existem aldeias: estamos todos juntos e misturados.

A população brasileira – e, certamente, do mundo todo – acompanha em tempo real o alastramento da epidemia, que deve ser “promovida” a pandemia em breve. O noticiário dedica horas ao assunto, especialmente nos canais por assinatura. Diante das imagens e dos números que crescem exponencialmente, é inócuo o alerta das autoridades, especialistas e jornalistas de que não é preciso ter pânico.

O medo de um agente patológico invisível, como os vírus, atormenta a humanidade desde que gente é gente. Em sociedades mais primitivas, atribuía-se as doenças a espíritos malignos. Na Bíblia, várias passagens retratam casos assim. Um dos mais famosos é o caso do paralítico do tanque de Betesda, que, conforme relato do Evangelho de João, foi curado por Jesus Cristo que, mais tarde, lhe fala: “Vá e não peques mais para que algo pior não lhe aconteça”. Para os hebreus, a doença estava sempre ligada ao pecado.

O cinema recorre ao tema regularmente. Alguns bons filmes retratam o medo da humanidade a corrida da ciência diante desses desafios. “Filadélfia”, protagonizado pelo astro Tom Hanks, e “E a vida continua” mostram o início da epidemia da Aids, nos anos 1980. Um filme que tem despertado a curiosidade recentemente é “Contágio”, que conta exatamente a história de um vírus surgido na China e que rapidamente ganha o planeta.

Pânico

De alguma forma, tanto o noticiário quanto a ficção colaboram com o pânico generalizado. Imagens de pessoas usando máscaras cirúrgicas e de profissionais de saúde com os equipamentos de segurança (que lembram os usados em casos de contaminação radioativa, como nos acidentes de Chernobyl e de Goiânia, com o césio-137) reforçam o imaginário popular de que estamos, sim, diante de um inimigo devastador – medo que acompanha o ser humano desde sempre.

A cobertura do novo coronavírus repete o que ocorrera com o surgimento da SARS, do H1N1 e da MERS. Porém, a tecnologia proporciona a disseminação muito mais rápida e intensiva dos fatos (sejam reais ou fakes), atingindo um número também muito maior de pessoas. Não à toa o termo utilizado para caracterizar esse movimento é viralização de conteúdo.

Ocorre que, em pouco tempo, o efeito torna-se contrário (como nos casos citados de outras epidemias). O que vivemos, atualmente, é um exemplo da chamada Teoria do Agendamento: os meios de comunicação concentram-se de tal forma em um tema que ele fica muito maior do que realmente é. Por outro lado, a consequência é que, com o tempo, o impacto dessas notícias diminui, daí caímos noutra teoria: a Teoria da Dessensibilização.

Tomemos o exemplo da dengue. Todos os anos, os veículos de comunicação dedicam horas a fio relatando as epidemias (no Brasil, uma endemia), o aumento de casos, as mortes etc. Não há um ser humano que pode alegar não conhecer os meios de transmissão da doença e o que deve fazer para evita-la ou, ao menos, diminuir a sua incidência. Lembrando que o mosquito Aedes aegypti, vetor da dengue, também é o responsável pela disseminação da zika e da chicungunha.

Cuidados básico

Contudo, os anos de exposição acostumaram as pessoas que, em um processo de alienação, abandona os cuidados básicos, como evitar o acúmulo de água em casa – a maioria dos focos está em residências habitadas. O resultado é que a dengue não dá trégua, ano a ano. Em 2020, por exemplo, segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde de Goiás, já foram notificados 17 mil casos suspeitos, com 7,9 mil confirmações. São, portanto, 131 casos suspeitos por dia. Pior: em 2019, morreram 88 pessoas em Goiás vítimas da dengue. Em janeiro e fevereiro deste ano, foram registradas 14 mortes suspeitas, que ainda carecem de confirmação ou não.

Em conversa com o Jornal Opção, a superintendente de Vigilância Sanitária da SES, a epidemiologista Flúvia Amorin, contou um fato curioso. Quando surgiu a epidemia causada pelo H1N1, o registro de outras doenças respiratórias transmissíveis diminuiu no Estado. Por um motivo prosaico: as pessoas passaram a ter mais cuidados básicos de higiene, como lavar as mãos e introduzir a “ética do espirro”. Quando o H1N1 deixou de ser novidade e tornou-se tão íntimo quanto as demais variações do influenza, responsáveis pela chamada gripe comum, as pessoas voltaram aos antigos desleixos.

É claro que o fato de a dengue ser, no momento, mais preocupante que a Covid-19 não significa que se deva deixar de ter muito cuidado com o novo vírus. A taxa de letalidade dele está em torno de 2,5%, enquanto a do H1N1 é de 0,2% e o da gripe comum 0,13%. Importante ressaltar que a taxa do coronavírus deve mudar, porque boa parte dos doentes assintomáticos ou com sintomas muito leves não tem sido alcançada pelos dados estatísticos.

Mas, por enquanto, o perigo maior não está vindo da China ou da Europa: ele está no quintal de cada um de nós.

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aramis leite junior

nós profissionais da saude, como ficamos em relaçao ao atendimento de pacientes que regularmente trazem guias de procimentos para os agendamentos?