Marcos Aurélio Silva
Marcos Aurélio Silva

Passa mais uma boiada no meio ambiente

Ricardo Salles reforça sua arrogância ao ignorar especialistas e relatórios técnicos para forçar o uso temerário de produtos químicos no combate aos incêndios na Chapada dos Veadeiros

O Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, tem forte necessidade de causar incredulidade. Suas falas arrogantes revelam de forma insistente sua inaptidão ao cargo. O último desacerto foi cometido em terras goianas – ordenou o uso de um produto químico não regulamentado no Brasil para combater o incêndio na Chapada dos Veadeiros, ignorando as recomendações do próprio Ibama. 

A receita da gestão errática que Salles exerce à frente do Ministério do Meio Ambiente foi colocada novamente em prática quando decidiu usar o produto químico chamado “retardante” na Chapada dos Veadeiros. A fórmula que parece ter sido adotada por ele é a de ignorar todas as opiniões, relatórios técnicos ou estudos de quem tem know how em questões ligadas ao meio ambiente.

No caso do uso do retardante, o ministro desconsiderou os brigadistas que há semanas combatiam as chamas na reserva ambiental e possuem conhecimento acumulados por anos sobre a região e suas peculiaridades. Salles ignorou as advertências constantes de uma nota técnica Ibama, em que é recomendada a suspensão do “consumo de água, pesca, caça e consumo de frutas e vegetais na região exposta ao produto pelo prazo de 40 dias. Ele também dispensou o diálogo com o governo de Goiás, mesmo sabendo que a aplicação do produto químico controverso ocorreria na região do Catingueiro, próximo ao limite com da Área de proteção Ambiental (APA) de Pouso Alto, administrada pelo Estado.

Mesmo deixando de lado os riscos que representam o produto químico escolhido por Salles para o enfrentamento às chamas que consumiam a Chapada dos Veadeiros, ainda temos demonstração de inabilidade ou falta de senso de urgência em sua gestão. O produto, se fosse de fato tão benéfico como defende o ministro, deveria ter sido usado no início dos focos e de forma coordenada com os brigadistas. No entanto, o retardante só foi misturado a água e despejado pelos aviões que faziam o combate às queimadas após as chamas já terem consumido mais de 75 mil hectares de vegetação. E ainda assim, foi no mesmo dia em que as previsões meteorológicas alertavam para chuvas na região – o que de fato ocorreu e ajudou no controle dos focos, que logo foram totalmente debelados.

A maneira desastrada com que Salles lida com o meio ambiente, reforçando sempre o negacionismo de que o Brasil vivencia um aumento exponencial nos danos ambientais, poderia ter cessado neste episódio do uso do retardante. Mas o ministro parece obstinado em provocar incredulidade, não só entre os ambientalistas, mas na sociedade em geral. Assim, Salles fez um sobrevoo na Chapada dos Veadeiros e depois visitou o local, se gabando por estar atuando “na linha de frente” das ações de combate ao fogo no parque e pelo uso do retardante no enfrentamento ao fogo.

Brigadistas, voluntários e moradores da Chapada dos Veadeiros protestaram. Num era para menos. Depois de semanas enfrentando diuturnamente o fogo que se multiplicava na área de proteção ambiental, inclusive promovendo campanhas para arrecadação de recursos, foi inconveniente capitalizar para si e para o retardante os créditos pela vitória contra o fogo. E em mais um rompante de arrogância e de despreparo, o ministro se pronunciou por meio de nota oficial: “a opinião de meia dúzia de maconheiros não tem relevância.”

O que se pode esperar?

Salles ficará eternizado pelo convite ao crime que fez em uma reunião ministerial, quando propôs usar a crise sanitária do coronavírus como cortina de fumaça para “passar uma boiada” e assim flexibilizar ao bel-prazer as legislações ambientais. De um ministro do Meio Ambiente, que constrói seu legado a partir da decisões assim, o que se pode esperar?

Só no  bioma Cerrado os focos de queimadas passaram de 56 mil este ano, segundo os dados do  Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Para efeito de comparação, em 2019 foram 54 mil, e no ano anterior foram 34 mil. Diante desse cenário, cabia ao ministro, além de investir em equipamentos e equipes de combate ao fogo, propor medidas para aumentar a punição e a fiscalização dos responsáveis na tentativa de reprimir novos focos de incêndios ilegais.

Mas o que se pode esperar de Salles? Além da decisão do ministro de utilizar milhares de litros de uma substância química de efeito retardante, que pode comprometer o meio ambiente, ele passou a defender uma ideia de sua colega, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina: “boi bombeiro”. 

“Ouvimos de várias fontes diferentes sobre a necessidade de haver um reconhecimento do papel da criação de gado no Pantanal, uma vez que o gado também contribui para diminuir o que há de excesso de matéria orgânica. O capim, enfim, o pasto que ele ajuda a reduzir”, declarou o ministro Salles.

Os declarações e atos da gestão de Salles frente ao Ministério do Meio Ambiente parece representar a formalização da falência do sistema ambiental brasileiro. O ministro não tem reação aos problemas ambientais e segue fórmulas que o isolam numa política ambiental de retrocesso –  que representa resistência interna e externa. Quando cobrado por ações de preservação ambiental Salles joga suas responsabilidades para o governos estaduais, se esquecendo de sua principal função frente ao Ministério: gerenciar as ações do Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama), cuja a missão é a “proteção, melhoria e recuperação da qualidade ambiental em todo o País”, como consta em seu estatuto.

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