Marcos Aurélio Silva
Marcos Aurélio Silva

Os impactos da guerra nas eleições de 2022

Conflito entre a Rússia e Ucrânia tende a complicar ainda mais o cenário econômico, causando reflexos na campanha eleitoral deste ano

Sempre que ousamos avaliar algum cenário eleitoral incorremos no risco de ter, já no minuto adiante, reviravoltas, surgimento de novos atores ou  impactos antes invisíveis. A eleição de 2022 vem sendo tratada desde que se encerrou a contagem de votos, em outubro de 2018. Muita coisa aconteceu nos últimos quatro anos – Nome que a justiça tirou da eleição agora lidera pesquisas, juiz que condenou político, agora é candidato, uma crise sanitária de proporções jamais enfrentada pela humanidade, e agora uma guerra. O ataque promovido pela Rússia a Ucrânia impacta globalmente todos os setores- não seria diferente com as eleições deste ano.

Tão logo o presidente da Rússia, Vladimir Putin, promoveu os primeiros ataques a Ucrânia, na quinta-feira, 24 de fevereiro, a pauta se tornou eleitoral no Brasil. Os analistas, pesquisadores e jornalistas estavam nas telas dos noticiários tratando dos impactos e dos posicionamentos do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro (PL). A redes sociais também serviram para que pré-candidatos ao Palácio do Planalto dirigem críticas aos adversários ao comentar a violência sofrida pelos ucranianos. Além da postura do presidente Jair Bolsonaro frente ao conflito, o debate passou a abordar a política externa brasileira, assunto que usualmente recebe pouca atenção na campanha eleitoral. Mas essa é uma guerra que mexe muito mais do que as forças militares dos dois países envolvidos.

Os impactos serão grandes para Jair Bolsonaro, que agora vê a guerra na Ucrânia como ponto a ser explorado por seus adversários. Primeiro fato a ser explorado é a forma como o presidente lidou com o conflito. Dias antes do início dos ataques Bolsonaro visitou Putin, e disse ter “solidariedade” com o país, em meio às ameaças de violação à soberania da Ucrânia – o que se confirmou. A manifestação do presidente vai pesar sobre ele na campanha eleitoral. Seus adversários saberão usar essa fala para correlacionar aos impactos que a guerra trará para vida dos eleitores brasileiros.

Os impactos econômicos trazidos pela guerra é que podem colocar Bolsonaro em uma situação ainda mais delicada e ampliar sua rejeição frente ao eleitorado. Falamos do aumento de preços e das incertezas no abastecimento de produtos importados essenciais. A inflação já vinha dando dor de cabeça para os consumidores. Nos 12 meses encerrados em janeiro, o IPCA-15, prévia da inflação, fechou em 10,76%, segundo o IBGE. A guerra vai complicar ainda mais a situação e vai se refletir na campanha eleitoral. 

O bolso do brasileiro, independentemente da classe social, vai sentir o impacto da guerra nos postos de combustíveis. Entre especialistas, há quem aposte que o barril do petróleo, usado como matéria-prima para produzir gasolina e diesel, vai ultrapassar a cotação recorde de US$ 147,50 por barril, de 2008. No Brasil, a disparada da commodity nos últimos dias, quando chegou a ultrapassar os US$ 105, pegou a Petrobras com seus preços inalterados havia 47 dias. Segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), a defasagem entre a Petrobras e as principais bolsas de negociação já chega a 11%, no caso da gasolina, e a 12%, no diesel. Logo essa diferença precisará ser repassada para as bombas. E o brasileiro que já sofre com a inflação, terá mais motivos para reclamar, e a depender de quanto dure essa situação, ela vai se refletir nas urnas.

Os alimentos também vão sofrer reflexos. E claro, o eleitor vai ter mais um fator para pesar na hora do voto. Rússia e Ucrânia respondem por 17% das exportações mundiais de milho e 28% das de trigo. Empresas alimentícias, que dependem da importação de trigo, poderão ser mais afetadas. O Brasil produz pouco mais de 60% do trigo que consome; o restante tem de ser importado.

O preço do trigo subiu 8,91%, chegando ao maior valor em 13 anos, enquanto o milho avançou 6,06% – no caso do grão, o impacto vem em efeito cascata, pois ele serve como base para produtos industrializados e principalmente ração animal, que claro, terão aumento no custo, e logo o repasse chegará aos mercados. 

Outro fator que pode impactar o agronegócio (onde se encontra uma grande fatia do eleitorado de Bolsonaro) é a importação de fertilizantes. Os preços já estão subindo devido a risco de oferta e à pressão de custos. Isso pode limitar a tecnologia no campo. A situação gera risco de médio prazo para as empresas do agronegócio listadas na B3, a Bolsa brasileira.

Tudo isso quer dizer que a tendência da economia do país piorar rapidamente, aumentando a pressão popular sobre os líderes políticos. A crise financeira e política vai aumentar e o eleitor ao sentir a inflação ainda pior tende a punir os políticos, em especial aqueles que estão no governo. Daqui até outubro muito ainda pode mudar, inclusive o curso da guerra na Ucrânia, mas o cenário atual não está mexendo na balança eleitoral. 

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