Cezar Santos
Cezar Santos

Os 8 em pré-campanha à Presidência da República

Lula da Silva, Ciro Gomes, Geraldo Alckmin, Marina Silva, Jair Bolsonaro e João Doria se movimentam de forma franca; Joaquim Barbosa é discreto; Henrique Meirelles espera recuperação da economia para se lançar

A campanha à Presidência da República já foi deflagrada, mas o nome que se dá a isso é pré-campanha, por causa da legislação eleitoral, que permite campanha propriamente dita só depois das convenções partidárias (20 de julho a 5 de agosto de 2018). A seguir, analiso de forma ligeira cada um dos nomes, sem tecer considerações maiores sobre possibilidades, mas apenas alinhavando fatos e impressões que atestam: eles estão sim em pré-campanha.

Lula (PT-SP)

Lula Marques/Agência PT

Como sempre fez, Luiz Inácio Lula da Silva já está em campo, em giro pelo Nordeste, fazendo uma campanha explícita. A campanha de Lula tem direito a tudo que se faz numa campanha: comícios, promessas de baixar o céu à terra para quem votar no PT, e ameaças aos adversários, que agora não são apenas os outros partidos políticos, mas também a Justiça, a Polícia Federal e a imprensa.

A campanha do petista é tão escancarada que nos leva a pensar que o sono da Justiça Eleitoral é tão profundo que nem um abalo sísmico pode acordá-la. A diferença agora das outras campanhas extemporâneas que o petista sempre fez é seu visível desespero, que transparece em suas falas e em seu semblante, pelo medo de vir a ser preso – já foi condenador por corrupção e tem mais uma meia dúzia de processos que também poderão resultar em condenação. Invariavelmente há uma claque mobilizada e paga com dinheiro público por sindicatos (notadamente a Central Única dos Trabalhadores-CUT, braço sindical do PT), para ouvir Lula.

Ciro Gomes (PDT-CE)

Foto: Bruna Aidar

Sem poder para mobilizar uma claque própria, Ciro Gomes se movimenta forçadamente com um pouquinho mais de discrição. Ciro também anda pelo país, profere palestras, vai a universidades e associações, e discursa a formadores de opinião. Concede longas entrevistas na imprensa e, ao seu estilo, tripudia de tudo e de todos, passando a mensagem de que todos são muito ruins, e de forma muito humilde diz que bom para governar o Brasil é só ele.
Ciro é um homem culto, inegavelmente de bom preparo intelectual. Mas não consegue sublimar sua verve autoritária, arrogante, o que já lhe atrapalhou antes. Segundo Ciro Gomes, se ele não for presidente do País, o Brasil vai entrar numa idade das trevas total. Ao jornal “El País”, no mês passado, o pedetista disse que uma chapa com ele e o petista Fernando Haddad na vice seria o dream team.

Geraldo Alckmin (PSDB-SP)

Foto: Diogo Nogueira

O governador de São Paulo é discreto por natureza, mas nas últimas semanas se viu forçado a ficar mais saliente. Ele vive o drama de ter em seu próprio ninho um adversário que se apresenta como o novo, o prefeito João Dória — de quem se vai falar mais à frente. Alckmin tem a seu favor o fato de ser governador de São Paulo, o que lhe garante a mais importante vitrine política do País.

Alckmin já concorreu à Presidência – e perdeu para Lula, em 2006—e se tem como postulante natural para outra disputa. Ele tem viajado mais pelo País, participando de eventos. Se conseguir pacificar seu PSDB, larga com uma boa base partidária, embora o charme tucano tenha perdido volume principalmente a partir do envolvimento de seu presidente (licenciado) Aécio Neves, que foi grampeado extorquindo dinheiro do empresário corrupto Joesley Batista.

Marina Silva (Rede Sustentabilidade-AC)

Foto: Leo Cabral/ MSILVA Online

A ex-senadora e ex-ministra sempre fica de tocaia, esperando algum acontecimento que lhe favoreça no noticiário político. E quando aparece se põe a criticar a classe política como um todo, como se ela não fizesse parte dessa mesma classe. E toca a dizer platitudes, com um ar de quem vive de luz e por isso merece ser presidente do Brasil; dá a impressão de que espera ser ungida à Presidência por um poder divino, sem a necessidade de passar por campanha eleitoral.

Ela disse recentemente que a ainda não se decidiu, e nem seu partido, sobre a eventual candidatura, mas que os esforços do Rede se concentram na atualização de um programa de governo. Ela rejeita a queixa recorrente de que está omissa nas questões políticas cruciais do Brasil. “Tenho me posicionado constantemente, mas não disponho das estruturas faraônicas dos grandes partidos.” Besteira, independentemente da estrutura de seu partido, a imprensa repercute toda e qualquer coisa que ela fale, por mais inócua que seja.

Jair Bolsonaro (PSC-RJ)

Foto: Renan Accioly / Jornal Opção

O deputado federal também está na roda. Parlamentar de baixíssima produtividade, ele tem tempo para flanar pelo país, em busca dos holofotes da imprensa. Qualquer coisa que diga e faça ganha repercussão. Bolsonaro vocaliza uma parte considerável da sociedade, que acredita num ideário de extrema direita, e ninguém pode tolher sua legitimidade para pleitear a Presidência. Em seu discurso moralista ele diz insanidades, mas também toca em pontos incômodos que calam fundo no brasileiro médio, principalmente num momento de crise ética e moral na política.

Bolsonaro tem a característica interessante do bom humor, da resposta rápida e fácil nos embates. O problema é quando tem de falar sobre temas mais complexos, como política econômica, por exemplo. Nessas oportunidades, fica escancarada sua falta de fundamentação sobre os problemas nacionais, que não podem ser tratados na base do discurso extremado do debate esquerda versus direita.

João Doria (PSDB-SP)

O prefeito de São Paulo também anda pelo País, recebendo homenagens, títulos de cidadania fazendo palestras. É com certeza o prefeito brasileiro que mais viaja. Como usa muito bem as redes sociais, dá a impressão de sempre estar em dois ou três lugares ao mesmo tempo. Mais que isso, ele dá umas incertas pelo exterior, graças aos contatos familiares e os angariados como empresário bem-sucedido.

No início do mês, Dória foi à França, onde se reuniu com o presidente Emmanuel Macron e a elite empresarial do país. Desde que assumiu a Prefeitura de São Paulo, ele já esteve na China, nos Estados Unidos e em Dubai. E sempre capitaliza essas viagens para reforçar a imagem de um líder cosmopolita e bem-relacionado.

Embalado pela vitória sensacional sobre o petista Fernando Haddad, no primeiro turno da disputa pela prefeitura, Dória encarnou de vez a figura do anti-PT.

Joaquim Barbosa (sem partido-DF)

Foto:Nelson Jr./SCO/STF 

O ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal (STF) se notabilizou por relatar o processo da ação penal 470, o mensalão, o estratagema que o PT de Lula armou para comprar congressistas. Ali, ele foi o principal responsável pela condenação e prisão de uma turma de políticos e empresários corruptos.

Muitas pessoas duvidam que Joaquim Barbosa esteja em pré-campanha. Ele não admite — aliás, nem poderia, porque nem tem filiação partidária. Mas seu nome aparece nas pesquisas como um dos preferidos dos eleitores, assim como o juiz Sergio Moro.
— O senhor é candidato?
— Não, não sou.

A pergunta foi feita pela repórter Maria Cristina Fernandes, do Valor (edição de 1º de setembro), em longa entrevista com ex-ministro. Barbosa revela que PT (sim, PT), Rede e PSB o procuraram, além de líderes políticos evangélicos, interessados em seu passe político. Recusou todos. Mas ainda tem tempo até início de abril de 2018 para se filiar (a homologação da filiação deve estar concretizada no dia 7). Por enquanto, sua pré-campanha fica limitada aos pitacos constantes sobre política nas (poucas) entrevistas e em seu perfil no Twitter, no qual tem mais de meio milhão de seguidores. Ele “bate” sem dó no governo Temer. A imprensa fica de olho e toda e qualquer “tuitada” de Joaquim Barbosa ganha as manchetes. É um pré-programa de candidatura.

Henrique Meirelles (PSD-SP)

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Mas, o ministro Henrique Meirelles é pré-candidato? A resposta é sim, mas depende das circunstâncias. Meirelles tem filiação partidária. Se a recuperação da economia continuar, ele se torna um candidato natural, assim como ocorreu com Fernando Henrique Cardoso em 1994. FHC, então ministro da Fazenda de Itamar Franco, comandou a elaboração do Plano Real, que estabilizou a economia. Com o sucesso do plano, foi candidato e elegeu-se Presidente da República no primeiro turno. Meirelles quer ser o FHC de 2018.

Nos últimos meses, o goiano fez movimentos típicos de político de olho em candidatura, como a participação em dois encontros com pastores evangélicos e a criação de uma conta na rede de microblogs Twitter, administrada por sua assessoria, onde comenta os resultados positivos da economia.

Volta e meia se diz que o PMDB, sem opção de candidato para a eleição presidencial de 2018, não descarta tentar “roubar” o ministro do PSD para lançá-lo candidato à Presidência.

O problema aí, é que se a economia se recuperar de fato, naturalmente haverá um outro candidato “natural”… que vem a ser Michel Temer, do PMDB.

Mas isso é tema para outra coluna.

Deixe um comentário

wpDiscuz