Rodrigo Hirose
Rodrigo Hirose

O teste das chuvas vem aí: Goiânia será aprovada?

Nos últimos anos, Prefeitura investiu em obras de drenagem, mas o passivo histórico de desleixo com o meio ambiente deixa pouca margem para otimismo

Cenas de alagamento em Goiânia em anos passado vão se repetir?

O período que vai de novembro a fevereiro é, historicamente, o mais chuvoso em Goiás. É nesse intervalo que as chuvas costumam ser mais intensas – ainda que essa não seja uma variável imutável ano a ano – e, se esperadas com ansiedade para quem vive da terra e para quem não suporta mais a sequidão que se estende desde maio, elas sempre causam certa apreensão para quem mora em Goiânia. Neste período são comuns as cenas de árvores caídas, enxurradas carregando tudo que encontram pela frente e, em casos mais dramáticos, mortes.

O ano de 2019 deve ser o sexto consecutivo com diminuição no volume de chuvas em Goiás. Porém, ainda que menos constantes, elas têm caído cada vez com mais força. Nos últimos dias, a Defesa Civil tem emitido frequentes alertas de risco para raios e vendavais, o que sempre causa estrago e traz perigo para as pessoas.

Nos últimos anos, Goiânia padeceu com enchentes recorrentes. Segundo a Defesa Civil, são mais de 50 pontos de alagamento na capital. Além do volume elevado de precipitações, questões culturais e estruturais agravam o problema. Muitos bairros foram construídos onde não devia haver casas, como nas margens dos leitos, sem respeitar a distância mínima. Assim, adensamento e destruição de matas ciliares – e o consequente assoreamento dos leitos – formam a tempestade ideal (trocadilhos à parte) para o desastre.

Problemas históricos

Há problemas históricos que contribuem para que o escoamento das águas pluviais não seja o ideal. Prédios públicos foram construídos em áreas de alagamento, de nascentes e de leitos de córregos. O Córrego dos Buritis é um exemplo de ser vivo enterrado sob o asfalto e o concreto da capital. Ele nasce no Marista, na área do Clube dos Oficiais, e segue sua agonia pelo Setor Oeste, abaixo do Tribunal de Justiça e da Assembleia Legislativa, e pela região central, nos arredores do Estádio Olímpico, até encerrar a jornada no Capim Puba – um esgoto a céu aberto.

Mais acessível aos olhos está o Córrego Botafogo, um mártir do descuido com a natureza urbana. A nascente, no Jardim Botânico, está relativamente protegida – pois a ocupação irregular e a cobiça imobiliária são ameaças permanentes. Canalizado a partir de meados dos anos 1970, ele, que já agonizava pela falta de vegetação em suas margens e pelo esgoto in natura, foi ferido de morte com a construção da Marginal que leva seu nome – injusta “homenagem”.

Os demais córregos urbanos de Goiânia sofrem do mesmo mal. Capim Puba, Capuava, Cascavel… Todos pedem socorro há anos, sem ter quem os ouça. Como mostrou o Jornal Opção em reportagem recente, as autoridades públicas desconhecem a qualidade da água desses mananciais.

“Buliram muito com o planeta”

Mas, como diz a letra de uma canção de Raul Seixas, o mundo, muito bulido, é como um cachorro: se ele não aguenta mais as pulgas, se livra delas num sacolejo. E a reação literalmente salta aos olhos: a água das chuvas, que deveria ir para o lençol freático, se esgueira pelas veias entupidas do Buritis e do Botafogo, e, semelhante aos gêiseres, a pressão faz com que ela volte para a superfície, causando os alagamentos.

Para piorar, a infraestrutura de drenagem de boa parte dos bairros é do período imediatamente posterior à construção da capital. Segundo técnicos, a tubulação de águas pluviais de bairros como Setor Sul e Central tem uma espessura que, se tinha tudo a ver com a então pacata cidade, não suporta as necessidades de uma metrópole. O mesmo em relação aos bueiros, dimensionados para uma Goiânia que ficou no passado (nesse ponto, há que se ressaltar a contribuição da população, que teima em jogar o lixo que vai entupi-los).

A Prefeitura de Goiânia tem investido para melhorar a situação. Aproveitando as obras do BRT, a Secretaria de Infraestrutura está refazendo a drenagem na Avenida Goiás, até a Avenida Independência, em um trecho em que os alagamentos são comuns. A partir do Jardim América, foram feitas intervenções para diminuir a força da enxurrada que chega ao Córrego Vaca Brava (que recebe boa parte da descarga de água do alto do Setor Bueno e adjacências).

Jardim de chuva, uma ideia interessante da Prefeitura | Foto: Prefeitura de Goiânia

Jardins de chuva

Uma ideia criativa foi a construção dos chamados jardins de chuva. Eles são uma nova concepção das rótulas características da cidade. O projeto permite que parte da enxurrada seja absorvida e levada para o subsolo. Trata-se de uma intervenção engenhosa – que, espera-se, traga bons resultados.

Desde o grande desabamento da Marginal Botafogo, em abril de 2018, a Seinfra fez uma série de intervenções na via. Uma das partes mais sensíveis, entre o Cepal do Setor Sul e a ponte da Avenida Independência, em frente ao Bosque Botafogo, foi recuperada. Ao todo, a Prefeitura investiu R$ 20 milhões em obras de drenagem em toda a cidade nos últimos anos.
Muita coisa ainda há por ser fazer. E é preciso entender que há volumes de precipitação que nenhuma cidade suportará. Mas o teste das chuvas vem aí. A torcida é que Goiânia tenha uma nota melhor que a que obteve nas últimas temporadas.

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