Cezar Santos
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O teflon de Lula está vencendo?

Ex-presidente se mostra cada vez mais convencido de sua inocência, como diria José Dirceu, outro petista “inocente” cada vez mais preso por atos criminosos

Luiz Inácio Lula da Silva a plateia de filiados em evento do PT: “Ninguém precisa ficar com pena. Eu vou sobreviver” | Antônio Cruz/ABR

Luiz Inácio Lula da Silva a plateia de filiados em evento do PT: “Ninguém precisa ficar com pena. Eu vou sobreviver” | Antônio Cruz/ABR

Politetrafluoretileno é o nome de uma das mais curiosas substâncias. Trata-se de um polímero conhecido mundialmente pelo nome comercial teflon. Está lá na Wikipé­dia: A virtude deste material é que é uma substância praticamente inerte, não reage com outras substâncias químicas exceto em situações muito especiais. Isto se deve basicamente a proteção dos átomos de flúor sobre a cadeia carbonada. Essa reduzida reatividade permite que a sua toxicidade seja praticamente nula sendo, também, o material com o terceiro “menor coeficiente de atrito” de todos os materiais sólidos.

O destaque entre aspas diz tudo: menor coeficiente de atrito.

Essa qualidade do teflon é a principal característica de um personagem muito conhecido de todos: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nada parece “pegar” em Lula. Ele não atrita com nada que possa lhe causar problemas maiores. As suspeitas de irregularidades sobre Lula da Silva são tantas e de há tanto tempo que é incrível: tudo resvala so­bre ele, como se lhe cobrisse uma grossíssima camada do melhor teflon.

Por exemplo: Lula foi o chefe do mensalão, não há dúvida, mas nem sequer foi indiciado. O empresário Marcos Valério, executor dos pagamentos mensais feitos a parlamentares durante o primeiro mandado de Lula da Silva, afirmou que o ex-presidente não só tinha conhecimento, como era o chefe do esquema.

Além disso, são propriedades, fortuna inexplicável com suas fontes de renda, provas com fotos e tudo de peleguismo descarado nos anos de sindicalismo, do qual saiu como herói…

Mas nada disso “cola” no homem.

Na quinta-feira, 29, Lula conclamou os filiados petistas a não aceitarem as críticas calados e começarem a defender o Governo Dilma Rous­seff. Foi na abertura do encontro do diretório nacional da legenda, em Brasília, quando Lula se referiu às denúncias contra seus familiares e disse que está preparado para apanhar nos próximos três anos. “Vou sobreviver”, foi o recado, que explicitamente joga a perspectiva para o ano de 2018 quando ele poderá ser novamente candidato à Presidência.

O tom e os termos usados pelo ex-metalúrgico mostram que ele está cada dia mais convencido de que é inocente de toda e qualquer suspeita sobre sua honestidade. Foi assim mesmo que um aliado de Lula, o ex-ministro José Dirceu, quando estava em vias de ser condenado no mensalão, disse: “estou cada vez mais convencido de minha inocência”.

Dirceu foi condenado por corrupção, ficou na cadeia e ainda está cumprindo pena por aquele crime, embora esteja preso agora por mais crimes, dessa vez no petrolão. Ou seja, José Dirceu “está cada vez mais inocente”, embora cada vez mais preso por atos criminosos.

Lula está magoado com a denúncias sobre seus familiares. Um de seus filhos é investigado pela operação Zelotes e uma nora dele foi acusada por um delator da Lava Jato de receber propina em nome do petista. A referência aos seus familiares surgiu após Lula fazer uma análise sobre a crise de confiança enfrentada pelo governo de sua pupila Dilma Rousseff.

“É tudo muito incerto no país. Tem 19 pedidos de impeachment, denúncia contra o presidente da Câmara, denúncia contra o presidente do Senado, denúncia contra o filho do Lula. Eu ainda tenho mais três filhos que não foram denunciados e sete netos. Porra, não vai terminar nunca isso. E ainda tenho uma nora que está grávida”, disse ao som de risadas e aplausos.

E continuou: “Eu tenho quatro noras, dizem que uma recebeu dois milhões, aí as outras perguntam, quem é que está rico aqui na família? Daqui a pouco uma começa a abrir um processo contra a outra, para repatriar esse dinheiro”.

Disse mais: “Ninguém precisa ficar com pena [de mim], porque se tem uma coisa que aprendi na vida é enfrentar a adversidade. Se o objetivo é truncar qualquer perspectiva de futuro, então vão ser três anos de muita pancadaria e, pode ficar certo, eu vou sobreviver”, afirmou.

Em um outro momento, o ex-presidente disse que se estivesse no pelourinho, suas costas já estariam sem pele, de tanto que apanha.

Como se vê, a tranquilidade do ex-presidente chega ao ponto da provocação. Lula solta chistes, mas a verdade é que nem ele nem seus filhos explicam como conseguiram amealhar fortunas em tão pouco tempo. Dois dias antes do discurso de Lula, o filho caçula do ex-presidente, Luís Cláudio Lula da Silva, foi intimado pela Polícia Federal para depor.

Na véspera (segunda-feira, 26), as empresas de Luiz Cláudio foram alvo de uma operação de busca e apreensão por parte da PF.

Segundo investigações da Operação Zelotes, uma das em­presas de Luiz Cláudio, a LFT Mar­keting Esportivo, recebeu pa­gamentos de Mauro Marcondes, um dos lobistas investigados por negociar a edição e aprovação da MP 471 durante o governo Lula. A norma prorrogou incentivos fiscais para o setor automotivo. Luiz Cláudio, que também é dono da empresa Touchdown, confirma o recebimento de R$ 2,4 milhões.

O caçula sustenta que os valores se referem a projetos desenvolvidos para uma empresa de Mauro Marcondes, a Marcondes e Mau­toni Empreendimentos, em sua “área de atuação”, o esporte. Mas nunca deu detalhes dos serviços prestados.

Veja, leitor, a coincidência: empresas que contrataram, a peso de ouro, “palestras” de Lula também não conseguem explicá-las. Notadamente a Odebrecht, a grande contratadora do ex-presidente. Na verdade, a suspeita do Ministério Público Federal é que enquanto presidente da República, Lula fez lobby a favor da empreiteira, trabalho que continuou fazendo após deixar o cargo.

As suspeitas sobre Lula e seus filhos e noras mostram que fatalmente a Polícia Federal e o Ministério Público Federal estão fechando o cerco. As investigações chegarão a provas, é questão de tempo. É o caso de perguntar: o teflon de Lula começa a perder a validade?

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Donizete Santos

Chega-se à conclusão que tudo o que levaria qualquer um outro cidadão a bater com as costas no xilindró; em Lula é coisa corriqueira e normal. Logo, “arquive-se”!

Caio Maior

Cezar Santos mais uma vez instiga o leitor à reflexão. Há tempos os brasileiros “aprendem” a conviver desde a infância com o hábito da impunidade envolvendo e protegendo todo tipo de abuso. A cidadania ainda está na fase de adaptação à realidade imposta pela moderna “globalização”: gradualmente as sociedades que se pretendem civilizadas limitam o espaço dos criminosos sem castigo e de suas façanhas. Pode ser este o caso do Pixuleco. O exemplo está diante de todos. Durante décadas o imaginário coletivo suspeitava que o propalado “padrão FIFA” ocultava bem mais do que aparentava impor. Bastou a Justiça norte-americana e… Leia mais