Cezar Santos
Cezar Santos

O silêncio nada inocente do senador

Ronaldo Caiado não se manifesta sobre um dos temas mais importantes para os goianienses: o caos na área da saúde na capital na gestão Iris Rezende, da qual o senador é copartícipe

Pacientes esperam horas na fila por atendimento nas unidades de saúde geridas pela Prefeitura de Goiânia

Médico por formação — e sólida formação, por sinal, posto que é formado na Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, com especialização em cirurgia da coluna na França e mestrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) —, Ronaldo Ramos Caiado tem saber mais que abalizado para avaliar a situação da área de saúde da capital de seu Estado.
Mas, estranhamente, o médico, que é também senador pelo Democratas de Goiás, tem optado pelo silêncio em relação ao tema. Pelo mutismo do político, pré-candidato ao governo do Estado na eleição do ano que vem, a população goianiense tem recebido um atendimento condigno nos postos de saúde sob responsabilidade da administração do peemedebista Iris Rezende. O problema é que a realidade não é essa.

Político antenado como é Caiado, e conhecedor da área por dever de ofício e por ser empresário — é ou foi sócio-proprietário de clínica médica em Goiânia e tem uma ampla gama de apoiadores no setor de saúde —, é óbvio que o senador tem conhecimento da realidade que vivem os goianienses que precisam da assistência médica que a municipalidade é obrigada a prestar.

Goiânia vive um de seus piores – senão o pior – momentos no tocante à saúde pública. As queixas são constantes, tanto dos usuários quanto de funcionários dos postos de saúde, dos Centros de Atenção Integrada à Saúde (Cais), dos Centros Integrado de Atenção Médico Sanitária (Ciams) e demais unidades da rede municipal.

A situação é tão calamitosa que, no dia 11 de outubro, a Câmara de Vereadores de Goiâ­nia instalou uma Comissão Es­pe­cial de Inquérito (CEI) para apurar os atos e possíveis ações irregulares praticadas na Secretaria Municipal de Saúde a partir do ano de 2010 até a data da instalação do colegiado. O detalhe é que essa comissão foi instalada por solicitação de um aliado do prefeito Iris Rezende, o vereador peemedebista Clécio Alves.

Clécio deixou claro o que o motivou a pedir a instalação da CEI: “a Saúde em Goiânia está um caos, já há muito tempo e o problema só vem se agravando. Diariamente chegam ao nosso conhecimento denúncias de atos que só pioram a prestação do serviço aos usuários, como fechamento de Cais, de UTIs, problemas com a Central de Regulação, demora e até omissão no atendimento”.

Senador Ronaldo Caiado é médico, mas faz questão de ficar em silêncio diante do caos na saúde em Goiânia | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Desde então, a CEI vem apurando vários problemas no setor, muitos herdados da administração anterior, do petista Paulo Garcia, mas muitos outros próprios da atual gestão, que tem se notabilizado pela inoperância e falta de planejamento. O colegiado realizou várias reuniões, com oitivas de funcionários da pasta, e também visitas surpresas nas quais constatou irregularidades como falta de médicos que deveriam estar nas unidades de saúde, filas quilométricas nos postos de atendimento, e irregularidades na liberação de leitos de UTI na capital.

A CEI apurou ainda o endividamento do Fundo Municipal de Saúde (FMS), verificada por relatório técnico do Tribunal de Contas dos Municípios do Estado de Goiás (TCM-GO). Segundo o relatório, a dívida do FMS até o mês de dezembro de 2016 era de R$ 10 milhões. O relatório apontou ainda que a administração municipal deve ao Instituto Municipal de Assistência à Saúde e Social dos Servidores (Imas) e ao Instituto de Previdência dos Servidores Municipais (IPSM), R$ 14 milhões que foram descontados dos servidores, fora a contrapartida patronal da Prefeitura.

CEI flagra o drama

Numa diligência, realizada no dia 30 de novembro, a dois Cais — Cândida de Moraes e Bairro Goiá— e ao Ciam do Novo Horizonte, os vereadores flagraram atendimento totalmente inadequado — pacientes medicados com soros com frascos pendurados em janelas e outros à espera de atendimento havia horas, deitados em bancos de concreto. Profissionais trabalhavam sem equipamentos de proteção individual (EPIs).

A visita foi acompanhada pelo repórter Yago Salles, do Jornal Opção, que viu servidores se escondendo, mas outros decidiram denunciar aos vereadores a falta de medicamentos, de luvas, máscaras, seringas, bolsas de sangue e infraestrutura desgastada por infiltrações e rachaduras.

O médico Maurício Chatter desabafou: “Alguns de nossos pacientes esperam até seis dias para conseguir uma vaga em UTI”. Há 26 anos na unidade, Chatter disse que “a situação está muito pior do que na gestão anterior”.

Médicos reclamaram de sobrecarga de trabalho, por falta de colegas. Foi o caso da clínica-geral Bruna Araújo, que está gestante. “Como pego atestado? Os pacientes ficariam sem atendimento. Raramente, quando fico sozinha, eles mandam outro médico para me ajudar”, disse ela.

A enfermeira Vanessa Araújo ecoou a reclamação: “Fico sobrecarregada e preciso fazer triagem, cuidar dos internados, supervisionar tudo. Muitos acompanhantes ficam nervosos, mas não podemos fazer muita coisa. Isso daqui é um campo de batalha, uma guerra diária pela sobrevivência”, disse ela, antes de ser interrompida por uma técnica de enfermagem que denunciou a falta de gazes, seringas e luvas.

Os maiores prejudicados, claro, são os pacientes. A dona de casa Luiza Vieira, de 52 anos, aguardava os vereadores em frente à sala de reanimação, onde a mãe, Maria de Lourdes Vieira, de 88 anos, esperava vaga em um hospital ou pelo menos uma bolsa de sangue para diminuir seu sofrimento. Diagnosticada com leucemia há cerca de dois anos, a idosa, anêmica, apresentava um olhar de abandono. “Eu pago 450 reais a sessão de quimioterapia para minha mãe. Não sei mais o que fazer”, disse, chorando, Luiza.

A artesão Maria Zélia, de 49 anos, ia saindo do Ciams Novo Horizonte quando a comitiva dos vereadores chegou. O neto dela, de 6 anos, teve a cabeça perfurada por um vizinho, mas foi impedida de fazer ficha na unidade às 19 horas e orientada a procurar atendimento em outro lugar. “Me mandaram pra cá com meu neto machucado. Nem olharam para ele. Disseram que não tinha pediatra”, contou à reportagem.

Em face da situação de calamidade, os vereadores da CEI se reuniram na quarta-feira, 13, com o coordenador do Centro de Apoio Operacional da Saúde, promotor Eduardo Prego, para pedir providências em relação a denúncias já identificadas pela comissão.

Prego confirmou a gravidade das denúncias recebidas e disse que as informações passadas pela CEI serão distribuídas a uma Promotoria de Justiça para que se instaure um procedimento de investigação. “A partir daí deve-se apurar as responsabilidades e veracidade dos fatos e tomar as medidas judiciais cabíveis caso elas sejam necessárias”, disse o promotor.

Silêncio estratégico

Em que pese tudo isso, continua mergulhado em silêncio o ortopedista e traumatologista Ronaldo Caiado, profundo conhecedor da área e da própria gestão municipal – sua filha, a advogada Anna Vitória Caiado, é procuradora-geral do Município. Não é por falta de informações que o senador se mantém mudo sobre a situação da saúde pública municipal. Trata-se de estratégia política.

Caiado prefere nada dizer porque é aliado da administração pemedebista, a qual apoiou na eleição de 2016. A­lém da própria filha, ele emplacou várias outras indicações na equipe do pre­feito Iris Rezende. Nesse sentido, o senador é copartícipe da gestão que mergulhou a saúde pública na situação de calamidade em que se encontra.

Além disso, o senador quer o apoio do PMDB para sua candidatura ao governo. Aliás, ele precisa desesperadamente, não é exagero usar o advérbio, desse apoio, em face da fraqueza de seu partido, o DEM, verdadeiro nanico em Goiás. A estrutura e a capilaridade do PMDB no Estado são extremamente valiosas para o projeto eleitoral do democrata. Eis a razão do silêncio do senador em relação aos desmandos na saúde — e em outras áreas, diga-se a verdade — da administração peemedebista na capital.

O senador, como oposicionista ao governo estadual, faz cerradas críticas à gestão do adversário Marconi Perillo, principalmente na questão de segurança pública, desconsiderando ações e programas tocados pela administração e que têm produzido efeitos positivos, como a queda no número de homicídios. Como oposicionista, a ele cabe mesmo o papel de fiscalizador, desde que tenha argumentos consistentes.

Mas é certo que os goianienses também precisam do papel de fiscalizador que o democrata pode e precisa fazer em relação ao caos na saúde municipal. Mesmo porque ele tem responsabilidade direta sobre a situação, como participante da gestão e profundo conhecedor da área. Mas o que se vê é que Ronaldo Caiado coloca seus interesses políticos-eleitorais acima do bem-estar da população e se mantém num silêncio nada inocente.

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Luciano Almeida

Veja a que ponto chegamos. Caiado é um omisso. E os demais senadores de Goiás? Não conhecem Goiânia? Não sabem o que se passa? E os deputados federais goianos? Quem representa Goiânia? Algum deles conhece os problemas da Capital? Nenhum reside em Goiânia. E os deputados estaduais? São mudos? Todos apoiam Iris, é isso? Ou falta coragem para denunciar? E Daniel Vilela, que pretende governar Goiás e tem o apoio de Iris? É esse o “modelo de saúde” que implantaŕá no Estado, caso seja eleito? Muitas perguntas. E as respostas? A verdade é que apenas alguns vereadores denunciam a falência… Leia mais

joão

Esse caos na saúde pública municipal é só uma amostragem do que o PMDB e o PT são capazes quando estão no comando da administração pública. Deus nos livre desse descalabro em 2018!!!!