Marcos Aurélio Silva
Marcos Aurélio Silva

O preço da crise chega na conta de luz

Grande vilão da inflação, a alta na tarifa de energia, terá impacto maior sobre os goianos

Um choque para todo e qualquer consumidor: aumento tarifário de mais de 16% para os goianos. A população parece já ter perdido sua capacidade de indignação. Como as porradas de preço alto vem de todos lados e  de todos os itens e serviços básicos. O termômetro é a inflação, que pode chegar a 7,7% em 2021, puxado principalmente pela alta da conta de luz.

A conta de luz é a principal responsável pela disparada do índice de inflação no país, segundo os dados do IBGE para o mês de setembro. O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) do mês passado ficou 1,16%, o maior para o mês em 27 anos. Só a energia, com 6,47% de elevação entre agosto e setembro, representa 26,72% de toda essa alta. Para os goianos isso vai doer um pouco mais nos próximos meses.

Sem alarde, sem questionamentos ou espaço na grande mídia, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou o reajuste das tarifas de energia da Enel Distribuição Goiás. O reajuste já está valendo. Entrou em vigor imediatamente, antes mesmo que o consumidor pudesse tomar conhecimento de mais esse soco tarifário. Será um aumento médio de 16,45%. As contas das residências terão acréscimo de 16,37%. Já para quem é atendido na alta tensão (indústrias, principalmente), o impacto na tarifa será de 14,21%. Na baixa tensão, o impacto fica em 17,32%. Quem são as vítimas: 3,12 milhões de unidades (residências, comércio e indústrias).

Falar em aumento da conta de energia para os goianos é mais doloroso que para outros. Aqui já se tornou rotineiro um serviço que não atende minimamente com o respeito devido ao consumidor. Uma ventania é capaz de deixar bairros da capital sem o fornecimento por mais de 48 horas –  sem que se consiga falar com a empresa.

O produtor de leite goiano já é reconhecido internacionalmente como o terror dos atendentes da Enel. Afinal, a única forma que eles encontraram de ter seu fornecimento restabelecido é jogando o leite estragado nos escritórios da empresa concessionária. Funciona, mas os prejuízos ficam, e se repetem.

Mas para além do problema com a Enel –  já retratado de tantas formas pelo Jornal Opção –  há situações que se agravam e que atendem pelos nomes de crise energética e de crise econômica. Os resultados delas o goiano vê na conta de luz.

A falta de chuvas no país, que ainda persiste, ligou o alerta da Aneel, que repassou aos consumidores, por meio das bandeiras tarifárias, os custos pesados das usinas térmicas, que produzem eletricidade mais cara. Neste quesito, faltou ações do governo federal em busca de alternativas menos onerosas para os brasileiros. 

A Aneel autorizou aumentar as tarifas de algumas das concessionárias levando em conta os custos com encargos setoriais e com a aquisição. A agência precisou contabilizar os gastos na compra de energia, em especial de países vizinhos, como Uruguai e Argentina, que sofrem influência da variação cambial.Neste ponto o governo federal fez muito. A equipe econômica foi a fundo para gerar uma confusão que tensiona o mercado, elevando o valor do dólar e a fuga de capitais. 

O preço da crise está na conta de energia. E mais, ela alimenta uma inflação já alta, que pressiona o orçamento das famílias. Quanto maior a pressão nas contas do trabalhador, menor a renda. 

A alta na energia elétrica afeta ainda o setor produtivo. Esse é um ponto que compromete a retomada econômica. Mais uma crise que precisa ser gerenciada com ações do poder público, mas que não há demonstração de alguma influência positiva do governo federal.

Logicamente que o impacto da energia é sentida muito mais pelos trabalhadores. Mas os efeitos não se isolam na população. Ela recai no governo federal. Como já apontado, a alta nas contas é fator preponderante para a inflação. Puxando esse termômetro para cima, o setor público paga também: diversos gastos são corrigidos pela inflação, como as aposentadorias, o seguro-desemprego e o abono salarial.

No fim das contas, Bolsonaro acaba por interferir no setor econômico e de energia, com potencial para trazer mais prejuízos do que os brasileiros já têm sentido. O presidente, que dizia não entender de economia, não consegue se conter e consegue ampliar as crises que são sentidas na conta de energia.

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