Cezar Santos
Cezar Santos

O petismo e o desastre social e econômico

Aumento de famílias que vivem na rua ilustra fracasso de gestões que, além de corrupção institucionalizada, optaram pelo populismo irresponsável

Número de famílias que passaram a morar nas ruas aumentou no último ano, reflexo da crise econômica | Foto: Divulgação

Na semana passada foi divulgado que o nú­me­ro de famílias que vivem nas ruas e recebem programa social aumentou em 35% nos últimos 12 meses. Dados do Cadastro Único do Ministério de Desenvolvimento Social, mostram que, entre junho deste ano e o mesmo mês do ano passado, mais 20 mil famílias passaram a ser beneficiadas por programas como o Bolsa Família e dormem em vias públicas. Especialistas apontam o óbvio: a crise econômica é o principal motivo da alta.

Em reportagem da Agência Brasil, a economista Maria Beatriz David, professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), explica que o momento econômico atravessado pelo país pode, sim, ter sido um dos motivos que levaram ao crescimento do número de cadastrados em medidas para assistência morando em vias públicas.

A pessoa perde o emprego na crise, não consegue arcar com o aluguel e acaba nas ruas, mesmo ganhando Bolsa Família. O Brasil tem mais de 13 milhões de desempregados atualmente — e desemprego, ao contrário do que os petistas hoje dizem, na tentativa de jogar esse índice nas costas de Michel Temer, não surge repentinamente, é resultado de um processo gradativo de enfraquecimento da economia. No total, existem mais de 27 milhões de famílias inscritas no cadastro único para programas sociais do governo.

Quem sofre mais nesse cenário é a população com menor grau de qualificação. Segundo a pesquisadora, são vários os motivos, mas os principais são a recessão econômica, as dificuldades que enfrenta o país e o desemprego. “Quem perde mais com recessão e tudo isso são os mais vulneráveis: a mão de obra menos qualificada, que é a primeira a perder o emprego, e os jovens com menos experiência.”

Esse quadro é resultante dos 13 anos e meio de gestões do PT – duas de Lula da Silva e uma e um pedaço de Dilma Rousseff. Nesse período, a irresponsabilidade na condução da política econômica deu a tônica. No primeiro governo Lula, graças aos bons ventos da conjuntura internacional – a China comprava todas as commodities possíveis – e ao seguimento da política tucano do antecessor, a economia seguiu a contento.

Lula pôde ampliar os programas sociais, auferindo os benefícios políticos, e fazer caridade para amigos ditadores, como Fidel Castro e outros, distribuindo, via Banco Na­cional de Desenvolvimento Eco­nô­mico e Social (BNDES), dinheiro para os “campeões” – e recebendo comissões generosas, como confessou os parceiros do petismo como os empreiteiros da Odebrecht, OAS e outras e os irmãos Joesley e Wesley Batista, da JBS.

No segundo governo Lula, as coisas começaram a degringolar. A China retraiu seu ímpeto de comprar tudo. O dinheiro, que era farto e podia ser dado aos ami­gos, começou a faltar. Com Dil­ma o desastre se completou, graças aos equívocos em série cometidos na condução da política econômica. Seguiu com o populismo fiscal, com desonerações tributárias para determinados setores. O objetivo era estimular o consumo de forma artificial, casuística. Não poderia dar certo e não deu.

A crise econômica se aprofundou, mas Dilma, empenhada na reeleição, se negou a admitir o problema e adotar medidas a­margas politicamente, mas ne­cessárias. Com isso, empurrou os efeitos da crise para anos e anos à frente. Com o impeachment da petista, Michel Temer herdou essa crise econômica aguda, que só pode ser atenuada com reformas estruturais e medidas austeras que nem Lula nem Dilma tiveram a coragem de tomar.

Fatores políticos à parte, Temer vem fazendo o que pode. Já há sinais de um início – é preciso marcar bem a expressão, um início — de recuperação econômica. Mas não será no governo Temer – talvez nem no próximo governo, se não for rigorosamente responsável – que a economia voltará aos eixos. É uma tarefa para duas ou três gestões.

O resumo do que se falou acima é que a herança maldita dos 13 anos de petismo está sendo e será muito difícil de ser debelada. Numa das mais perversas consequências sociais, milhares de brasileiros perderam e estão perdendo o emprego e indo viver nas ruas.

Isolamento

No início da semana passada, a Organização Mundial do Comércio (OMC) divulgou um relatório que revela a dimensão dos malefícios causados à economia brasileira pelos governos do PT. Reportagem da “Folha de S. Paulo” detalha o informe da OMC sobre a política comercial desenvolvida pelo país nos últimos quatro anos, em que a instituição aponta, por meio de uma série de fatores, que o Brasil segue extremamente isolado a investimentos externos e pouco competitiva em relação às mais modernas nações do planeta.

A OMC destaca que diversos setores da economia –saúde, energia nuclear, transporte aéreo e serviços financeiros, entre outros – seguem totalmente fechados ou muito limitados a investimentos externos. O órgão menciona ainda a continuidade de um sistema tributário complexo, investimentos reduzidos em infraestrutura e inovação e um pequeno número de empresas exportadoras em relação ao total de companhias como algumas das características que explicam a baixa integração da economia do Brasil com o resto do mundo.

Relator da proposta de reforma tributária brasileira, o deputado federal e economista tucano Luiz Carlos Hauly (PR) comentou as revelações feitas pela OMC. Ele disse que a persistência de um modelo tributário inadequado impede que a economia do país se desenvolva de maneira similar aos principais países do mundo.

Segundo o parlamentar, a OMC não precisa fazer nenhum relatório, porque já é sabido de cor e salteado que a economia brasileira não vai bem, que o sistema tributário brasileiro é anarco-caótico, um verdadeiro manicômio tributário, do ponto de vista jurídico, e um Frankenstein pouco funcional. “A burocracia vem destruindo a economia brasileira”, apontou.

Para consertar o estrago, Hauly defende a reforma tributária. “A mudança no sistema tributário, ao lado de outras medidas já aprovadas, como a modernização das leis trabalhistas, é fundamental para que as empresas brasileiras possam ser competitivas fora do país.

A OMC aponta também que a economia brasileira segue muito dependente do setor agrícola, sendo responsável por 5,1% das exportações do setor em todo o mundo em 2015. O país fica atrás apenas dos Estados Unidos e da União Europeia no ranking mundial. Em 2016, a agricultura representou 41,6% do total das exportações brasileiras. Segundo o relatório da OMC, mais da metade dos produtos exportados pelo Brasil são commodities primárias.

A indústria, por outro lado, apresenta uma integração global muito baixa. Com empresas do setor ainda pouco competitivas no exterior, a exportação de produtos mais sofisticados segue muito aquém do potencial do país. Luiz Carlos Hauly acredita que a continuidade da agenda de reformas permitirá que a situação mude num futuro próximo. Para ele, com a aprovação dessas medidas, um novo relatório da OMC daqui a quatro anos já mostrará uma série de evoluções na política comercial do Brasil.

Reforma tributária

O economista acredita que a aprovação da reforma tributária mudará a situação. “A reforma trabalhista, a terceirização aprovada e o teto de gastos já foram aprovados. Faltou a reforma da Previdência, que vai ter que ser rediscutida, e a tributária, que nós estamos discutindo e queremos ver aprovada ainda esse ano. Se isso acontecer, daqui a quatro anos o Brasil vai ter indicadores pelo menos duas, três vezes melhores do que esses da Organização Mundial do Comércio, que nos coloca para baixo, como se fosse o país mais derrotado do mundo. E realmente não tem muito a contradizer nesse relatório.”

Esse fechamento econômico dificulta a vinda de investidores externos. Com isso, a economia se ressente, gera menos empregos, diminui a renda dos brasileiros. Isso significa mais crise social. Mais gente indo viver nas ruas.

A bem da verdade, o PT não foi o único causador desse fechamento, que vem de décadas. Mas o petismo agudizou a tragédia ao insistir e, sob muitos aspectos, agravar, uma política fechada e protecionista, sem ter coragem para iniciar o saneamento tributário. Mais um efeito danoso da herança maldita do petismo para o Brasil.

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