Cezar Santos
Cezar Santos

O marqueteiro da corrupção

João Santana diz não saber a origem de pelo menos US$ 7,5 milhões —cerca de R$ 30 milhões – que foram depositados em sua conta

João Santana: especialista em embrulhar produto ruim em belas embalagens

João Santana: especialista em embrulhar produto ruim em belas embalagens

No início da semana passada foi preso o publicitário João Santana e sua mulher, Mônica Moura, ao voltarem ao Brasil e se entregarem para a Polícia Federal. A prisão ocorreu após a PF deflagrar a Operação Acarajé, uma das fases da Operação Lava Jato.

Santana é acusado de receber ao menos US$ 7,5 milhões ilícitos, depositados pela empreiteira Odebrecht e pelo operador Zwi Skornicki, ligado ao pagamento de propina proveniente de recursos desviados da Petrobrás, no esquema de assalto aos cofres da petroleira que PT, PMDB e PP montaram no chamado petrolão.

Pois eis que o guru das campanhas políticas do PT admitiu, em depoimento à PF, que não declarou dinheiro recebido de candidatos e disse que os recursos encontrados pelos investigadores da Operação Lava Jato em contas secretas no exterior são pagamentos por trabalhos eleitorais em países como Argentina, Panamá e Angola.

E aí — pasme-se! –, o marqueteiro do PT, tentando desqualificar as acusações de lavagem de dinheiro, disse que não sabia a origem dos milhões de dólares repassados às suas contas. Imagine você, leitor, nessa situação: milhões de reais (reais não, dólares!) em sua conta e você não sabe de onde veio, ninguém viu, mas taí na sua conta.

O Ministério Público — e os milhões de brasileiros honestos — tem sérios motivos para desconfiar que essa dinheirama foi desviada do esquema de corrupção instalado na Petrobrás. Os investigadores não têm dúvida: João Santana e a mulher, sócia dele na arapuca, sabem da origem espúria do dinheiro que escondiam no exterior.

O delegado federal Filipe Pace disse: “O indício que a gente tem de que João Santana e Mônica sabiam da origem do dinheiro é que eles trataram especificamente no caso dos desvios do Zwi Skornicki com uma pessoa que era representante e operador de propina na Petrobrás”.

Em seu papel de defender o indefensável, sendo regiamente remunerado para isso, o advogado do casal, Fabio Tofic, disse que desde o escândalo do mensalão, quando o marqueteiro petista da vez, Duda Mendonça, admitiu ter recebido dinheiro da campanha do PT no exterior, marqueteiros não estariam mais recebendo pagamentos de contas de campanhas brasileiras fora do país.

“Eles dizem que nunca suspeitaram e por ora continuam acreditando que nenhum desses recursos tenha qualquer relação com crimes cometidos no Brasil ou fora do Brasil. Se eles soubessem que qualquer desses recursos recebidos nos exterior de campanhas no exterior tivesse relação com algum crime certamente se recusariam a receber. Ninguém é maluco. Eles não têm como saber de onde vem o dinheiro que os paga lá fora”, disse Tofic.

Em sua tentativa desajeitada de defender seus valiosos clientes e tapar o sol com a peneira, o advogado afirmou: “O que eles dizem é que a profissão e a atividade deles são complicadas nesse aspecto [financeiro], principalmente em alguns países. Aqui, depois do famigerado mensalão, essa prática foi acabada porque as pessoas se conscientizaram e ninguém tem coragem de fazer isso aqui. Você acaba recebendo nas suas contas, mas não tem como saber quem está te pagando. Você tem como identificar o valor recebido e saber que o cliente quitou a dívida que tinha. É muito difícil para quem precisa receber os valores, precisa pagar os seus fornecedores e funcionários ficar fazendo uma ampla investigação para saber de onde vieram esses valores, principalmente quando se trata de transações internacionais”.

Ah, jura, senhor advogado? É isso mesmo? As práticas nefastas do mensalão acabaram?

Depois dessa, só encomendando a canonização e teremos São João Santana e Santa Mônica Moura.

Nas redes sociais circulam piadinhas sobre o casal. Numa delas, eles dizem que estão tranquilos, porque se conseguiram convencer milhões de brasileiros de que Lula e Dilma eram bons para o Brasil, então convencer a polícia e os procuradores de que eles são inocentes será moleza. Faz sentido.

João Santana, considerado como um gigante do marketing político brasileiro, trabalhou na reeleição do ex-presidente Lula da Silva e nas duas campanhas da presidente Dilma Rousseff. Também conduziu quatro campanhas presidenciais no exterior: Mauricio Funes (El Salvador, 2009), Danilo Medina (República Dominicana, 2012), José Eduardo dos Santos (Angola, 2012) e Hugo Chavez/Nicolás Maduro (Venezuela, 2012 e 2013).

O baiano se formou em jornalismo e chegou a trabalhar no “Jornal da Bahia”, no “Jornal do Brasil”, em “O Globo” e nas revistas “Veja” e “Isto É”. Deixou o jornalismo por dizer que isso não dava dinheiro.

João Santana certa vez se autodefiniu assim: “Sou um dos últimos socialistas românticos e um dos primeiros socialistas cibernéticos – ao mesmo tempo utópico e descrente; ao mesmo tempo sério e debochado”.

Sério e debochado?

Ah, vá… João Santana é na verdade corrupto como seus contratantes.

E ele fez uma profecia para o Brasil: “Aqui ocorrerão, neste século, as grandes tramas neopolíticas, neoestéticas e ciberétnicas. Gosto muito da definição espiritua¬lista, de que o Brasil é o laboratório do espírito santo”.

Que conversa é essa de laboratório do espírito santo o quê? Lembra aquele aranzel que outros baianos, especialmente Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Zé, proferem quando não dizem nada com ar de que estão dizendo coisas profundas. Será que isso é coisa transmitida pela água da Bahia?

No mensalão tivemos Delúbio, na Lava Jato temos Juquinha

Delúbio Soares e Juquinha: goianos no centro da corrupção

Delúbio Soares e Juquinha: goianos no centro da corrupção

No mensalão tivemos Delúbio Soares, goiano de Buriti Alegre, ex-te­soureiro do PT que em 2006 o en­tão procurador-geral da República An­tonio Fernando de Souza denunciou ao Supremo Tribunal Federal como um dos líderes da “organização criminosa”, juntamente a José Dir­­ceu, José Genoino e Sílvio Pe­reira. Delúbio foi condenado por corrupção. Na Lava Jato estávamos sem um goiano notório, mais eis que Goiás entra no mapa da operação, para que não nos sintamos discriminados.

Na sexta-feira, 26, a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão em seis Estados e no Distrito Federal. A operação é desdobramento da Operação Lava Jato, que apura desvios na Petrobrás, e co­meçou a partir de depoimentos da­dos em delações premiadas. A operação foi batizada de “O Recebedor”.

Segundo reportagem do “Valor”, os agentes da PF cumpriam 44 mandados de busca e 7 de condução co­ercitiva no Rio de Janeiro, São Paulo, Maranhão, Minas Gerais, Goiás e Paraná, além do Distrito Federal. Os mandados foram determinados pelo juiz federal de Goiás Eduardo Pe­reira da Silva, substituto da 11ª vara federal de Goiânia, e miram empreiteiras e as obras das ferrovias Norte-Sul e da Integração Leste-Oeste.

Em Goiás, foi detectado um desvio da ordem de mais de R$ 630 milhões em trechos da Norte-Sul, informou a PF. De Goiás, o principal nome (há outros) envolvido é conhecido de longa data, José Francisco das Neves, o “Juquinha”, ex-presidente da Valec.

Empreiteiras pagavam a escritórios de advocacia em contratos simulados, que eram usados por empresas de fachada para maquiar a origem do dinheiro ilícito. Os investigados co­meteram crimes de cartel e lavagem de dinheiro em contratos das obras. Eles pagaram propina para ter benefícios nessas obras, que foram superfaturadas, segundo os investigadores.

A operação foi deflagrada a partir de informações fornecidas pela empreiteira Camargo Corrêa em acordos de leniência e delação premiada fechados com a Lava Jato. Em abril de 2015, o expresidente da empresa Dalton Avancini disse em delação que houve pagamento de R$ 800 mil em propina para Juquinha, ex-presidente da Valec, estatal do governo federal responsável pela construção de ferrovias no país.

“O método utilizado para o recebimento de propina consistia na realização, pelas empreiteiras executoras das obras, de pagamentos a um escritório de advocacia e para mais duas empresas sediadas em Goiás e indicadas por ‘Juquinha’, sendo que os pagamentos não se referiam a serviços efetivamente realizados”, afirma o Ministério Público.

O ex-presidente da Valec vem sendo investigado desde 2012. No a­no passado, o Ministério Público Fe­deral denunciou Juquinha e mais sete pessoas por diversas irregularidades em obras de ferrovias. Os en­volvidos podem responder por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Juquinha é o nosso goiano na Operação Lava Jato.

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