Cezar Santos
Cezar Santos

O grande feito de Cunha, o nefasto: abrir o impeachment

O “malvado favorito” renuncia à presidência da Câmara dos Deputados, mas há que se reconhecer o bem que ele fez ao país

Eduardo Cunha ao renunciar à presidência da Câmara: “Estou pagando um alto preço por ter dado início ao impeachment”

Eduardo Cunha ao renunciar à presidência da Câmara: “Estou pagando um alto preço por ter dado início ao impeachment”

Como já é do conhecimento de todos, Eduar­do Cunha já não é mais presidente da Câmara dos Deputados. A renúncia, em tom dramático, se deu na quinta-feira, 7. Ele estava afastado da presidência desde 5 de maio por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que também suspendeu o seu mandato parlamentar por tempo indeterminado.

A decisão anunciada pelo peemedebista na quinta-feira não altera o andamento do processo que o investiga no Con­se­lho de Ética, que pode levar a punição que varia desde advertência até a cassação do mandato.

Eduardo Cunha caiu da presidência da Casa, o terceiro cargo na linha sucessória da Presidência da República. A queda era esperada e desejada por praticamente todos os brasileiros que se interessam minimamente por política, com exceção das dezenas de colegas dele, componentes do chamado “centrão” da Câmara dos Deputados. Gente que lhe deve favores (leia-se cargos e financiamento de campanha).

O que espanta é o fato de que tenha demorado tanto para a saída em definitivo do cargo. As evidências de irregularidades são tantas e tão robustas, que espanta também o fato de ele ainda não estar preso.

Mas, a favor de Cunha, deve-se lembrar que outros políticos igualmente tisnados por tantas e tão robustas evidências de ladroagem — e não há como não pensar em Lula da Silva, por exemplo — continuam livres. No caso de Cunha (e de Lula e de tantos e tantos) as investigações estão em curso. Chegará a hora em que essa gente terá de responder por seus crimes.

Eduardo Cunha renunciou num gesto desesperado para tentar salvar o mandato ao menos no plenário da Câmara. Mas ele sabe que não terá escapatória e que não passará incólume pelo julgamento do Su­premo Tribunal Federal (STF). Na hipótese pouco provável de que os colegas lhe poupem o mandato atual e que ele se eleja para outro mandato (se não for julgado até 2018), claro está que não escapará da condenação.

Mas há algo que precisa ser lembrado. O afastamento (por enquanto temporário) de Dilma Rousseff, a presidente que estava arruinando o Brasil, se deve a Eduardo Cunha. E que fique registrado: ele fez isso dentro dos ditames constitucionais e na atribuição legítima que lhe cabia como presidente da Câmara Federal.

A quem diga que um processo conduzido por um criminoso carece de legitimidade, lembro que Cunha ainda não foi julgado. Portanto, ainda não é criminoso “de direito”, embora o seja de fato. Na mesma toada, lembremos que Lula exerceu o cargo de presidente da República cometendo crimes.

Mas o que vale para Cunha vale pa­ra Lula (e para Renan Calheiros e as dezenas de políticos enrolados na Lava Jato e outras investigações): ainda não foram julgados, portanto, não foram condenados pelos crimes que cometeram, portanto, são inocentes ainda.

Então, Eduardo Cunha derrubou Dilma Rousseff? Não, o que derrubou Dilma foram a inépcia dela, a falta de senso político, a incompetência total para administrar, o que a levou a arruinar a economia e, por isso, a cometer crimes de responsabilidade fiscal na louca tentativa de cobrir rombos nas finanças públicas. Lembrem-se petistas: o argumento de Dilma de que nunca desviou dinheiro público para si não vale; ela não está sofrendo impeachment por isso, mas pelos crimes fiscais, as pedaladas.

Fato é que Eduardo Cunha foi sim o instrumento para derrubada da petista. E até nisso, em mais u­ma prova de sua inabilidade, Dilma buscou a desgraça com as próprias mãos, ao abrir guerra ao peemedebista quando decidiu peitá-lo na e­leição para a presidência da Câmara.

Em seu delírio de achar que presidente da República pode tudo, Dilma levou a disputa pelo comando da Câmara para dentro de seu governo, bancou outro candidato (Arlindo Chinaglia, do PT-SP), desconsiderando a força de Cunha com a turma do baixo clero e com a oposição. Dilma perdeu aquela batalha e ganhou o mais terrível adversário na atual conjuntura. Deu no que deu.

Malandro, Eduardo Cunha procurou dar à sua renúncia um tom heroico, dizendo que se via forçado a sair por causa de sua ação no processo do impeachment, e não por seus defeitos ao surrupiar dinheiro público.

“Estou pagando um alto preço por ter dado início ao impeachment. Não tenho dúvidas, inclusive, de que a principal causa do meu afastamento reside na condução desse processo de impeachment da presidente afastada. Tanto é que meu pedido de afastamento foi protocolado pelo PGR [procurador-geral da República] em 16 de dezembro, logo após a minha decisão de abertura do processo”, disse Cunha, referindo-se ao processo de impeachment da afastada Dilma Rousseff, que se iniciou na Câmara sob a gestão dele.

E aproveitou para malhar a desafeta: “A história fará Justiça ao ato de coragem que teve a Câmara dos Deputados sob o meu comando de abrir o processo de impeachment que culminou com o afastamento da presidente, retirando o país do caos instaurado pela criminosa e desastrada gestão que tanto ódio provocou na sociedade brasileira, deixando como legado o saldo de 13 milhões de desempregados e o total descontrole das contas públicas”, criticou Cunha.

Continuando a malandragem, o peemedebista tentou ainda se dar a importância de um patriota preocupado com a institucionalidade ao dizer que decidiu atender aos apelos “generalizados” de seus apoiadores e renunciar porque a Câmara, segundo disse, está sem direção — diversos líderes e aliados de Cunha já tinham defendido publicamente a renúncia, não só pelo desgaste à imagem da Câmara, mas, principalmente, para tirar o desastroso Waldir Maranhão da presidência interina.

“É público e notório que a Casa está acéfala, fruto de uma interinidade bizarra, que não condiz com o que o país espera de um novo tempo após o afastamento da presidente da República. Somente a minha renúncia poderá pôr fim a essa instabilidade sem prazo. A Câmara não suportará esperar indefinidamente”, declarou.

Eduardo Cunha na presidência da Câmara já era. Vai tarde. Esperamos que perca também o mandato de deputado. Esperamos que o processo de impeachment de Dilma Rousseff se complete e ela seja afastada de vez, para que o país retome o quanto antes o rumo da normalidade. O Brasil fica melhor sem Eduardo Cunha e sem Dilma Rousseff.

Deixe um comentário