Marcos Aurélio Silva
Marcos Aurélio Silva

O desconforto da vacina de Doria

Governador de São Paulo exagerou na ‘dose’ de populismo ao passar na frente do Ministério da Saúde e oferecer imunização contra Covid-19 a todos brasileiros

A vacinação contra Covid-19 é arma no jogo político de 2022. A campanha de imunização (e também a presidencial) antagoniza o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB). O embate antecipado, que tem a pandemia como um ativo eleitoral óbvio,  deixa transparecer diariamente a sensação de que jogam com o desespero gerado pela doença e de desrespeito aos mais de 180 mil mortos pelo coronavírus.

Anunciada para 25 de janeiro, a vacina de Doria era para ser mais uma etapa de seu intento de concorrer ao Palácio do Planalto. O anúncio ecoou em todos noticiários e entoou o que todos anseiam ouvir: “Todo e qualquer brasileiro que estiver em solo do Estado de São Paulo e pedir a vacina receberá gratuitamente. Não precisará comprovar a residência”. A fala do governador de São Paulo em entrevista coletiva no Palácio dos Bandeirantes foi uma dose exagerada de populismo.

A vacina de Doria teve efeito colateral. A primeira, foi imediata: pressão. A Anvisa se sentiu pressionada quanto à liberação da CoronaVac (vacina desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o Instituto Butantan que tem como garoto propaganda o governador paulista). No dia seguinte ao anúncio, a agência reguladora já mandou avisar que desconhecia os  dados relativos à terceira fase dos testes da vacina – etapa que confirma a segurança e a eficácia. Ou seja, apesar de ter data anunciada para iniciar a aplicação, ainda não há autorização. E a Anvisa deu sinais de que não vai ceder à pressão de Doria, o que significa que a liberação será feita conforme preveem os protocolos universais.

O segundo efeito do anúncio da vacina veio em seguida: desconforto. Governadores de outros Estados não viram com bons olhos o anúncio. A briga política de Doria e Bolsonaro provocou uma reação em cadeia com outros chefes de Executivo. Afinal, todos ficaram emparedados ao ter que responder: por que só São Paulo tem uma vacina própria e um plano de vacinação?

Após reunião com o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, na última terça-feira, 8, o governador Ronaldo Caiado (DEM), foi a voz da maioria dos governadores ao enfatizar que a iniciativa de Doria “preocupa”. “Isso coloca em jogo a credibilidade dos demais governadores”, se queixou Caiado.

“Essa notícia de querer definir plano de vacinação em 25 de janeiro. Isso é irresponsabilidade e descortesia com os demais governadores. Como se apenas o governador de São Paulo fosse competente e preocupado com a vida das pessoas”, completou.

Mais do que colocar a credibilidade dos colegas governadores em xeque, Doria criou  um ambiente que facilmente resultará em um desarranjo ao sistema de vacinação. Contra essa tentativa de formar um sistema paralelo ao Plano Nacional de Imunização, o governador goiano tomou a frente e chamou a atenção do paulista: “O Plano de Imunização não é responsabilidade de governador, é do Governo Federal”.

O que o Ronaldo Caiado disse não pode ser interpretado como torcida contra a vacina de Doria. Não é pessimismo. Trata-se de alertar para a politização da imunização, ao mesmo tempo em que busca se precaver dos negacionistas que enxergam nessa briga o pretexto ideal para questionar a doença e sua cura. 

Fazendo justiça, não podemos negar a Doria o direito de questionar o tratamento que o governo federal e as lives de Bolsonaro deram a CoronaVac. O desenvolvimento e processo de testes da imunização também foram usados pelo presidente como discurso político, chegando a abolir a chance de o País comprar um medicamento criado em parceria com a China. Soma-se a isso, o fato de o governo federal ter pedido o timing de elaboração e divulgação do Plano Nacional de Vacinação, deixando evidente o descontrole da situação.

Mas isso, tecnicamente, não significa repassar o domínio para o governo paulista. Embora deseje, Doria precisa entender que a política e a polarização numa pandemia têm limites. O processo de cadastramento das vacinas precisa ser coordenado, papel do governo federal, e São Paulo não pode se colocar acima dos outros Estados da federação.

A busca pelo protagonismo é evidente em Doria. Deixar governadores em situação incômoda, causar reações em agências e de colegas é preço baixo e calculado pelo tucano diante do seu propósito de assentar terreno para candidatura como presidente da República. Desde a chegada da pandemia, passando para corrida pela vacina, Doria não deixou, nem por um instante, o intuito de fazer de São Paulo o líder do processo de salvação da Covid-19. 

O que nos cabe, como quem aguarda ansioso o início da campanha de vacinação, é acreditar nos cientistas e não nos candidatos. Os pesquisadores têm nos dito que as vacinas não possuem nacionalidade e nem pertencem a um governo. Os critérios para nossa imunização são científicos e não políticos.

Isso é usar da boa fé das pessoas, da medicina e da saúde publica como ferramenta demagógica, populista e politiqueira da mais rasa e mais baixa que eu vi na minha vida.

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