Cezar Santos
Cezar Santos

O clima é de infelicidade com o governo Dilma

Pesquisa mostra medo de desemprego e de perda de renda na maioria da população, que por isso mesmo considera que o impeachment se justifica

Placas de “vende-se” e “aluga-se” tomam conta das áreas comerciais: a economia do País em recessão | Foto: Fernando Leite

Placas de “vende-se” e “aluga-se” tomam conta das áreas comerciais: a economia do País em recessão | Foto: Fernando Leite

Se o leitor se detiver a contar o tanto de placas de aluga-se e vende-se nas áreas comerciais da cidade, vai se surpreender. Isso é o sinal claro de que a economia está em recessão. Lojas fechadas significam menos empregos, menos consumo; logo, menos dinheiro circulando.
Quem se dispõe a analisar o cenário político-econômico atual se depara inevitavelmente com uma dúvida: a economia está ruim por causa da política ou a política está ruim por causa da economia?

Mas não há dúvida de que muito do que está acontecendo com a economia brasileira advém da péssima política que Dilma Rousseff, sua equipe e seus partidos aliados vêm fazendo ou deixando de fazer: escolhas erradas, estímulo ao consumo de forma artificial, investimento em obras no exterior em detrimento do País…

A culpa disso tudo é da mandatária maior, a presidente. Afinal, ela é que em última análise sacramenta escolhas políticas. E é ela que tem a caneta para, por exemplo, nomear e demitir. Ou seja, Dilma poderia montar um time bem melhor do que o que presta expediente no Palácio do Planalto, nos ministérios, nas agências e outros órgãos federais.

Para piorar, a aliança governista fez água, Dilma perdeu apoio até de seu partido e o PMDB passou a governar o País num estranhíssimo e incongruente regime “parlamentarismo legislativo” — uma jabuticaba brasileira. O PMDB de Renan Calheiros, no Senado, de Eduardo Cunha (principalmente este), na Câmara Federal, e do vice-presidente Michel Temer (um pouquinho só) impôs a agenda política do Brasil. E Dilma e o PT assistem atarantados, impotentes, sem nada poder fazer.

Com a crise política estabelecida — crise, seu nome é Dilma! —, a economia degringola. A presidente deu sobejas mostras de que é inepta para comandar a nação, e desde o final de sua gestão anterior, ficou consciente de que havia encalacrado o País, mas não podia admitir isso, por orgulho, pela vaidade, pela arrogância que lhe constituem o caráter. Demitiu o desastrado Guido Mantega, uma forma de dizer: não fui eu quem fez o estrago, foi ele.

A partir daí, ela sabia que não estava no PT o nome que poderia dar ao mercado a garantia de que a economia entraria nos eixos. Buscou alguém fora do partido para dirigir o Ministério da Fazenda. Joaquim Levy, coitado, até que ten­ta, tem propostas — o tal ajuste fiscal —, mas é sistematicamente torpedeado pelos “aliados” de Dilma, principalmente o próprio PT.

Ninguém sabe o que Dilma e seus “aliados” vão aprontar no pas­so seguinte. Ninguém sabe o que o Congresso (sob domínio de Renan e principalmente de Cunha) vai aprontar para atazanar a vida do governo. Ali as propostas do ajuste fiscal vão sendo modificadas, perdendo a eficácia para ajustar alguma coisa. Com isso, a economia vai indo para o fundo. Os brasileiros sentem no bolso a situação. E cada vez mais perdem a confiança em dias melhores com Dilma no poder.

O fato é que com a péssima política, falta confiança aos agentes econômicos, o tal “mercado”, os investidores. E tome lojas fechadas. E tome placas de aluga-se e vende-se!

Na semana passada, pesquisa do instituto MDA divulgada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) mostrou que a presidente chegou ao pior nível de avaliação de sua gestão e imagem pessoal. Superou Fernando Henri­que Cardoso, que enfrentou uma terrível crise econômica em 1999, além de ter herdado um governo extremamente complicado de Fernando Collor, após o mandato-tampão de Itamar Franco.

Destacamos os números da pesquisa MDA com foco da economia, o que dá bem o retrato do que o po­vo pensa da situação. Nada menos que 84,6% da população acha que Dilma não está sabendo lidar com crise econômica, que 60,4% dos entrevistados apontam como mais grave que a crise política — 36,2% acham esta mais grave. O resultado disso é que 62,8% acham que o impeachment da presidente se justifica.

Até o ano passado, os petistas diziam que as políticas do partido colocaram o Brasil numa situação de “pleno emprego”, o que não era exatamente verdade, mas não é o caso de ser discutido aqui e agora. Pois bem, continuemos com os índices focados na economia detectados pela pesquisa MDA. Mais da metade dos entrevistados (55,5%) disse que a situação do emprego no país piorará nos próximos seis meses — 15% acham que deve melhorar, e 27,5% que deve ficar estável.

E 50% dos entrevistados disseram ter medo de ficar desempregado em consequência do desaquecimento da economia brasileira — 43,7% responderam negativamente à questão, 6,3% não souberam ou não quiseram responder. E 33,7% acreditam que o seu rendimento diminuirá no mesmo período, enquanto a maioria (50,2%) acredita que não haverá mudança.
Os números mostram que a situação econômica abalroou o ânimo da população no que diz respeito à confiança. Os brasileiros hoje têm medo de perder o emprego, temem perder renda. Esse é o tipo de preocupação que mexe diretamente com a felicidade e a saúde das pessoas.

Traduzindo: o governo de Dilma Rousseff está deixando os brasileiros infelizes. Por isso, a maioria deles veem o impeachment dela como solução mais prática e viável para o momento.
Obs. O leitor reparou que neste texto nem se falou em corrupção? Pois é…

Desemprego sobe e renda cai 

Tudo o que pode ser demonstrado com números fica mais estabelecido. A imprensa divulgou na semana passada que, diante da retração da economia, alta da inflação e dos juros, a taxa de desemprego apurada nas seis principais regiões metropolitanas do Brasil subiu para 6,9% em junho, ante 6,7% em maio. Os dados foram divulgados na quinta-feira, 23, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

É a sexta alta consecutiva e trata-se do maior índice para o mês desde 2010, quando a desocupação atingiu 7%. Segundo a pesquisa, diante do cenário de instabilidade por conta do crescente volume de demissões, aumenta o número de pessoas buscando emprego. Só a população desocupada cresceu 44,9% em relação a junho do ano passado, uma diferença de 522 mil pessoas a mais na fila por uma vaga.

Técnica da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE, Adriana Beringuy disse que por trás disso pode estar a disseminação das dispensas por atividades como comércio e outros serviços. Segundo ela, a dispensa que ocorreu em junho é mais acentuada. “Antes, você tinha um processo de dispensas que estava mais na indústria e na construção. Agora, começa a haver processos de demissões em setores que não estavam dispensando tanto, como o comércio.”

Em junho, o comércio demitiu 95 mil pessoas em relação a igual mês do ano passado, enquanto os outros serviços dispensaram 114 mil trabalhadores. Foram os maiores cortes em termos absolutos no período. Na construção, houve redução de 88 mil postos, enquanto a indústria demitiu 20 mil. Em 2015, o crescimento da desocupação tem sido sistemático.

Renda

O rendimento médio real do trabalhador foi de R$ 2.149 em junho, queda de 2,9% ante junho do ano passado e alta de alta de 0,8% em relação a maio. Em Belo Horizonte, o rendimento médio real, estimado em R$ 1.995 em junho de 2015, aumentou no mês (1,1%) e reduziu no ano (-2,5%). A baixa no rendimento é explicada pelo efeito corrosivo da inflação, segundo o IBGE. l

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