O fim de uma eleição tão polarizada e disputada, que dividiu o Brasil, seguida de uma festa que os brasileiros ansiavam (Copa do Mundo), não deixou muito espaço para se notar que o Brasil voltou a registrar aumento nos casos de Covid. Na última semana, foram registradas 163 mortes por Covid e 7.774 casos da doença – uma variação de 34% na comparação com o dado de duas semanas atrás, o que aponta tendência de alta após 12 dias de queda ou estabilidade.

O uso de máscaras voltou a ser uma constante. O registro de filas em tendas de testes de Covid é noticiado. Os familiares e amigos voltaram a nos informar que estão isolados por alguns dias, pois estão ‘positivados’. A agitação no calendário de 2022 nos deu a sensação de que a pandemia tinha ido embora de vez, mas agora se prova ser pura ilusão. A tal subvariante Ômicron BQ.1 levanta um novo alerta para  possível aumento de internações, superlotação nos hospitais e mais mortes no futuro.

As informações sobre os novos casos de Covid, também são ofuscadas por outras urgências que o país demanda e que são tratadas no grupo de transição montado pelo presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva  (PT). São questões econômicas (precisando acalmar o tal mercado financeiro, que anda muito nervoso), questões sociais (a PEC do estouro que viabiliza o Bolsa Família de R$ 600, mas que o Centrão quer tirar uma vantagem – só para não perder o costume), ainda tem toda energia gasta para pacificar aqueles eleitores que não aceitam a derrota e os discursos golpistas de alguns militares.

Com uma agenda tão extensa e com pautas que não podem ser adiadas, os casos de Covid que escancaram que o Brasil precisa tratar a saúde como prioridade passa quase que despercebido pela opinião pública e pelas lideranças políticas. A “nova onda” da doença remete a um alerta de que o desafio na saúde agora é ainda maior, pois as políticas públicas precisam ser reconstruídas e/ou formuladas com a nova realidade da sociedade.

A subida no registro de casos de Covid são alerta, mas não só para as demandas que a pandemia ainda exige do governo federal. É um sobreaviso de que, ao lado das questões econômicas, sociais e de pacificação política, a saúde precisará de um olhar atento. 

Já, desde agora – ainda sem assumir o cargo de presidente – Lula precisa lidar com situações graves como a queda drástica na cobertura vacinal no país (um tremendo retrocesso), a redução significativa do orçamento do setor e o profundo desmonte do Sistema Único de Saúde (US) promovido pelo governo de Jair Bolsonaro (PL). Para poder mensurar:  proposta orçamentária do Ministério da Saúde para o ano que se aproxima, de cerca de R$ 150 bilhões de reais, é considerada a menor em dez anos pelo Conselho Nacional de Saúde. Isso significa uma redução de R$ 22,7 bilhões de reais em comparação aos recursos destinados à Pasta em 2022, excluindo os gastos com a Covid.

E na última semana, enquanto parte dos brasileiros tinham suas atenções voltadas para copa do mundo, o governo Bolsonaro anunciou um corte na de R$ 1,647 bilhão no Ministério da Saúde. Conforme fontes técnicas, há uma preocupação com o abastecimento de medicamentos, que podem causar impactos em programas como a assistência aos povos indígenas, a farmácia popular e básica, a prevenção e tratamento de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), a rede de atendimento materno e infantil, entre outros.

Outra situação muito grave e já acende alerta ao petista mesmo antes das eleições: a queda nos índices de vacinação dos brasileiros. Entre outros fatores, as fake news que evocaram discursos anti-vacinas tirou do País um de seus orgulhos: a adesão às campanhas de vacinação. Em setembro, a Organização Pan-Americana de Saúde emitiu um alerta de que o Brasil é um dos países sul-americanos com “risco muito alto” de reintrodução da poliomielite, doença erradicada em 1994 após uma massiva campanha de vacinação. Em 2021, a imunização contra a doença foi de apenas 67,1%, uma redução de 31,1% em relação há seis anos, segundo dados do Ministério da Saúde. A pouca adesão à vacina, em grande parte estimulada por Bolsonaro e outras autoridades com a divulgação de teorias conspiratórias, tem refletido no cenário de aumento das ocorrências de surtos da Covid-19.

O SUS que foi exaltado durante os momentos mais críticos da pandemia, é simbolo de resistência, pois sofre um desmonte promovido ininterruptamente durante os 4 anos de governo Bolsonaro. Em outubro deste ano a situação se mostrou tão temerária que o CNS chegou a acionar a Relatoria de Saúde da Organização das Nações Unidas. O motivo: os cortes feitos pelo governo federal que chegam a R$ 3,3 bilhões reais. Conforme o Boletim de Monitoramento do Orçamento da Saúde, produzido pela Instituto de Estudos para Políticas de Saúde em parceria com a Umane, o programa de custeio de bolsas para residentes em medicina Pró-Residência Médica e em Área Multiprofissional foi o mais afetado, com uma redução de R$ 922 milhões de reais.

Assim como tem se empenhado em encontrar recursos para atender a demanda social – ampliar o valor do Bolsa Família e combater a fome – Lula terá que encontrar meios de financiar a saúde. O presidente petista precisa encarar como um de seus grandes desafios a retomada vacinal no País. Para isso precisará de ações estratégicas, que passam pela comunicação, estruturas e logística – tudo requer investimentos. 

Lula precisará expandir o SUS, questão reconhecida até por candidatos liberais. Essa é resposta urgente que o governo federal precisa dar. O governo petista precisa encarar que se trata de uma questão urgentíssima a reorganização da saúde no país. Para tanto, Lula e sua equipe não pode deixar que o assunto esteja em segundo plano. Saúde para todos é um caminho essencial  para um país mais digno.