Marcos Aurélio Silva
Marcos Aurélio Silva

Não tomar a segunda dose coloca em risco a imunização coletiva

Mais de 60 mil goianienses não retornaram para tomar a segunda dose da vacina contra a Covid-19, comprometendo a volta da “vida normal”

Ainda no final de 2020, quando foi anunciado que nos primeiros meses deste ano haveria vacina disponível aos brasileiros para iniciar a imunização, ficou evidente a euforia – não era pra menos, afinal todos anseiam a volta da “vida normal”, que apenas a vacina pode nos trazer. Logo que as primeiras doses começaram a ser aplicadas nos grupos prioritários, notava-se a ansiedade geral da população. Até “calculadoras” foram inventadas para calcular quando seria a vez de cada grupo ou faixa etária. Com o avanço da vacinação essa empolgação que as doses de imunização provocava de forma geral foi se perdendo pelo caminho. Chegaram os sommeliers de vacinas, que querem escolher qual a grife do imunizante, e também surgiu um outro problema: aqueles que não voltaram para receber a segunda dose –  uma questão que as autoridades sanitárias ainda se descabelam em busca uma ou mais respostas.

Na última semana a Prefeitura de Goiânia divulgou um dado que desperta a preocupação de qualquer pessoa que tem acompanhado o avanço da vacinação  –  seja por mera curiosidade ou por ainda aguardar sua vez para se vacinar. Mais de 60 mil goianienses aptos a receber a segunda dose não retornaram aos postos para completar o ciclo de imunização. Autoridades que representam a saúde municipal e estadual estão diariamente nos noticiários fazendo o alerta e a convocação para este público-alvo, para que compareçam –  sem nem precisar agendar –  aos locais de vacinação para receber a segunda dose que lhes é reservada. Entretanto, esses apelos parecem surtir pouco efeito, gerando um alerta para a tão sonhada “imunização coletiva” que nos permitiria a retomada de uma rotina bem próxima da que tínhamos antes da pandemia. 

A “imunização coletiva” ou como muitos preferem chamar, “imunidade de rebanho” é um conceito que representa o nível de proteção coletiva que bastaria para conter a transmissão da Covid-19. Segundo entidades e autoridades sanitárias internacionais o conceito se baseia em uma premissa que, quando uma porcentagem suficiente da população está imune ao vírus, cria uma barreira de proteção que protege os demais do vírus. A expectativa é de que com 70% da população totalmente imunizada (recebendo primeira e segunda dose), a tendência é de que haja a baixa na curva de contágio do vírus. A porcentagem significa a queda de transmissibilidade do vírus, o que faria, teoricamente, a vida voltar à normalidade.

Pois bem, quando mais de 60 mil goianienses decidem deixar para lá a segunda dose, eles comprometem essa imunização coletiva. Cito os números de Goiânia, mas a nossa capital é uma amostra de uma situação que ataca todo o país.  Ao menos 6% dos brasileiros que tomaram a primeira dose da vacina contra a covid-19 não receberam a segunda e, portanto, não podem ser considerados imunizados contra o coronavírus. O Ministério da Saúde estimava, no começo do mês, que 3,4 milhões de brasileiros ainda não haviam retornado aos postos para a segunda dose, mesmo já estando liberados para tomar.

Entender o motivo para que as pessoas que estavam dispostas a tomar a primeira dose, agora desistam de se imunizar, é o primeiro passo para tentar encontrar uma solução. Mas ouvindo as explicações e apelos das autoridades, é possível perceber que ainda não há uma resposta. Possivelmente haja mais de um motivo para esse estranho fenômeno.

O esquecimento não parece uma razão plausível. Até porque a mídia tem feito alertas constantes. Mas deve existir uma combinação de fatores, que vão desde medo dos efeitos colaterais (comumente relatados quando foram aplicadas as primeiras doses), passando pelas fake news que são capazes de intimidar ou fazer pessoas mudarem erroneamente de ideia, e há também a falha no cronograma de compra e distribuição das vacinas. 

Seria prudente que os municípios criassem uma força-tarefa para identificar quem são as pessoas que não retornaram aos pontos de vacinação e os motivos do não comparecimento. É preciso saber se há também diferenças regionais e por classe social, já que deslocamentos e disponibilidade para ir se vacinar podem ter efeito na campanha de imunização. 

Uma boa estratégia seria a implementação de uma comunicação uniforme por parte do Ministério da Saúde, tirando dúvidas, esclarecendo a importância da segunda dose para eficácia da vacina, e abrindo um canal para que as pessoas se sintam seguras quanto às medidas que estão sendo coordenadas. 

A sociedade precisa que todos tenham a consciência de buscar a imunização completa para voltar à normalidade. E quem perdeu o prazo, é absolutamente relevante concluir o esquema vacinal. Completar esse esquema não quer dizer reiniciar a contagem e tomar a primeira dose do imunizante novamente. Basta tomar a segunda dose e seguir a vida, tomando os cuidados necessários até que a vacina chegue no braço de todos.

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