Cezar Santos
Cezar Santos

Militares e “Temer fora” são falsas soluções

A primeira hipótese pode abrir caminho para o abismo; a segunda agrava o quadro de instabilidade política que vai piorar a já combalida economia

Pedir intervenção militar é negação da política, mas fora de democracia as coisas pioram | Foto: Reprodução

No calor da greve do transporte de carga (empresas) e de caminhoneiros, esperando na fila a minha vez de ser atendido em um posto de combustível num bairro central de Goiânia, pude ouvir duas pessoas com posições aparentemente diferentes, em decorrência dos transtornos causados.

Uma delas dizia que só uma intervenção militar acabaria com a “bagunça” que o País estava “desde que os ladrões do PT entraram no governo”. A outra dizia que “tem de tirar” esse Michel Temer. Este último nada falava sobre o que colocar no lugar do emedebista, mas em nenhum momento chegou a falar nos militares.

Para prosseguir essa análise, chamemos o primeiro indignado de João e o segundo, de Josué.

As soluções apresentadas pelos dois pseudônimos bíblicos não são boas. Não é boa a ideia de João, flertando com a volta dos militares ao poder, se lembrarmos que eles estiveram lá e o resultado foi ruim.

A história mostra que a ditadura (alguns gostam de falar civil-militar) que se instaurou em 1964 teve efeitos nefastos, como a repressão, perseguição, tortura, desaparecimento e mortes.

E não, o tempo dos militares no governo brasileiro não foi essa maravilha em termos econômicos, como se costuma apregoar. Mesmo que o período tenha recebido o carimbo de “milagre econômico”, análises sérias mostram que não foi tão bom assim.

Verdade que, entre os anos de 1968 e 1973, houve crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) entre 10% a 14% ao ano. Apesar disso, o “milagre” aprofundou as desigualdades sociais no País, com alta concentração de renda. No índice de Gini, por exemplo, que mede a desigualdade no país e vai de 0 a 1, ela saltou de 0,50 em 1960 para 0,62 em 1977 – o pior nível da história. O salário mínimo em 1974 tinha metade do poder de compra de 1960.

Além da desigualdade, neste período a dívida externa do Brasil quadruplicou, passando de US$ 3,7 bilhões em 1968 para US$ 12,5 bilhões em 1973. São apenas alguns exemplos que derrubam a falsa ideia de que os militares teriam sido gestores eficientes na área econômica.

E, sim, houve muita corrupção no período militar.

Um dos grandes problemas de uma intervenção militar é que se sabe a hora que eles entram, mas não a hora que saem. Na intervenção de 1964, por exemplo, era para eles ficarem só uns meses. Ficaram 21 anos.

E por mais que se levantem razões para uma intervenção militar, não há como fugir do fato de que isso é quebra da democracia. Quando um grupo toma o poder e, fora dos ditames democráticos, passa a determinar o que a sociedade pode e o que não pode fazer, cai-se no arbítrio.

O apelo à “intervenção militar” tem seduzido uma minoria País-afora. Na greve do transporte de carga, muitos caminhões tinham cartazes com essa mensagem. Nas capitais, grupinhos fazem manifestações pró-intervenção. O que se pode dizer a esse pessoal é que leitura e buscar informações sobre a história não fazem mal e podem ajudar a não incorrer na repetição de erros.

Normalmente, quem quer intervenção militar professa a negação da política. Muitos o fazem como protesto contra o altíssimo índice de corrupção vigente na classe política brasileira. Não é à-toa que há um ex-presidente da República preso por corrução, prova de que o escárnio com o erário chegou a níveis inimagináveis.

Ninguém ignora que temos um Congresso Nacional (Câmara e Senado) com parlamentares horrorosos, dirigido por gente como Renan Calheiros, que é citado em vários processos de corrupção, Eunício Oliveira, Rodrigo Maia e outros do mesmo nível. Mas o Congresso sempre teve gente desse naipe, é o preço que se paga pela democracia.

E no regime democrático, esses maus líderes, de alguma forma, têm limitado o poder de fazer o mal. Ministério Público, Tribunais e Contas e outros órgãos de controle estão em cima. A imprensa pode estampar as irregularidades, levando a verdade aos cidadãos.

E, por fim, o eleitor tem o poder de depurar o processo, escolhendo bem seus representantes. O fato é que, fora de democracia, as coisas ficariam piores, muito piores, do que estão.

Por fim, a “solução” de Josué, lá do início do texto: derrubar Michel Temer. Também não é uma boa ideia, considerando que em quatro meses vamos às urnas para as eleições ordinárias, quando escolheremos o novo presidente da República, deputados federais e estaduais e dois terços do Senado.

Tirando Michel Temer agora, a instabilidade só crescerá. Em período tão curto e já no ano final do mandato, seriam realizadas eleições indiretas, pelos deputados e senadores, convocadas em até 30 dias. Os congressistas teriam de eleger um presidente para o mandato-tampão de apenas três ou dois meses.

Esse novo presidente, sem legitimidade e com menos apoio popular ainda em relação a Temer, iria mexer na equipe ministerial, talvez dar guinadas na política econômica que agravariam os problemas atuais. Certamente, iria querer ser candidato na eleição de outubro, usando o curtíssimo mandato para isso. Seria um desastre!

Essa solução agrada a quem quer agitar, se fazer notar pela estridência, como forma de “aparecer” para projetos futuros. Como disse bem a jornalista Eliane Cantanhêde, em recente artigo, tentar derrubar Temer da Presidência agora é como “chutar cachorro morto”. É fácil, mas é inútil.

Ruim com Michel Temer agora, pode ficar ainda pior sem ele até a eleição de outubro. Que o emedebista leve aos trancos e barrancos o resto de seu mandato. E a partir de janeiro de 2019, sem foro privilegiado, que responda pelas acusações de corrupção que lhe são imputadas pela Procuradoria-Geral da República. E que seja punido no rigor da lei, se for culpado.

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