Cezar Santos
Cezar Santos

Michel Temer conspira

Vice-presidente tem procurado governadores que se manifestaram contra o impedimento de Dilma Rousseff 

Vice-presidente Michel Temer: a perspectiva de poder está com ele, sucessor de Dilma se esta for impedida

Vice-presidente Michel Temer: a perspectiva de poder está com ele, sucessor de Dilma se esta for impedida

Haverá na história um vice-presidente que, estando o titular do cargo sob risco iminente de sofrer impedimento, não conspire? A resposta é não, convictamente, não. Com o vice-presidente brasileiro Michel Temer não é diferente. Ele está sim se movimentando para construir a chamada governabilidade para o pós-impeachment de Dilma Rousseff, caso isso aconteça.

Temer não está conspirando por ser malvado, infiel, ingrato ou coisa assim. Ele conspira porque conspiração é da natureza intrínseca da política. Se conspiração há em ditaduras, mesmo naquelas mais sanguinárias em que a pena para os conspiradores flagrados é o desterro ou a morte, imagine então em democracias.

Sabe-se que nos últimos dias, Michel Temer tem conversado muito com seus correligionários peemedebistas e, principalmente, com os tucanos. É com esses segmentos que Temer, se assumir a Presidência, fará sua base política. O ponta-de-lança do vice entre os tucanos é nada menos que o senador José Serra.

Temer tem procurado os governadores que já se manifestaram contrários ao impedimento da presidente. O tema dessas conversar é o mesmo que ele tem entoado como um mantra para outras lideranças: “Precisamos unir o Brasil!”.

Aí, claro, ele deixa no ar, como um espaço vazio a ser preenchido pelo interlocutor, que se Dilma Rousseff não consegue fazer essa união — e não consegue, por total incapacidade política —, então, ele, Temer, fará. E para isso, obviamente, ele precisará do apoio desse interlocutor.

Em linhas enviesadas, o que Michel Temer está dizendo é o seguinte: junte-se a mim agora, porque quem bebe água antes, bebe água mais limpa.

Neste domingo, 13 — dia em que foi marcada uma razoável manifestação pré-impeachment pelo País e que, curiosa ou ironicamente, marca os 47 anos do AI-5 —, José Serra tinha programada uma viagem a Pernambuco. Em princípio, é continuidade do trabalho do senador que procura governadores para oferecer ajuda no Senado.

Mas, na verdade, Serra está fazendo o papel de articulador político de Michel Temer. A assessoria do tucano informou que ele foi convidado pelo governador Paulo Câmara (PSB-PE) para dar uma palestra no Estado. Câmara é um dos governadores que já se manifestaram contra o impeachment. Mas seu partido, o PSB, está dividido sobre o tema. Serra vai dizer a Câmara que o governador será muito bem-vindo como futuro aliado de Temer, se Dilma rodar no impeachment.

Como o PT antes

Na sexta-feira, 11, Dilma Rousseff reagiu com ironia, em entrevista à imprensa no Palácio do Planalto, ao anúncio de busca de unidade do PSDB em torno do encaminhamento do impeachment de seu mandato e afirmou que a base do pedido de abertura do processo de impedimento aceito pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), sempre esteve associada ao partido oposicionista.

“Não é nenhuma novidade, né? Não é possível que os jornalistas aqui presentes tenham ficado surpreendidos. A base do pedido ou das propostas do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, é o PSDB. Sempre foi”, disse a presidente. “Ou alguém aqui desconhece esse fato? Porque senão fica uma coisa um pouco hipócrita da nossa parte fingirmos que não sabemos disso”, acrescentou.

A presidente petista certamente deve ter se lembrado que o PT na oposição foi o principal articulador de pedidos de impeachment, o que fez com José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Verdade que naquela época a presidente não era petista, e sim brizolista.

A referência de Dilma é ao fato de que na noite anterior, a cúpula tucana se reuniu em Brasília em busca da unificação do discurso partidário para apoiar o encaminhamento do pedido de impeachment da petista. O partido está dividido internamente, com interesses individuais das principais lideranças do PSDB, como José Serra, que poderiam se beneficiar com o eventual impeachment da presidente ou mesmo a convocação de novas eleições, no caso de cassação pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de Dilma Rousseff e do vice, Michel Temer.

O PSDB também se enrola na cobrança de correligionários sobre governadores tucanos que evitavam manifestações ostensivas a favor do impeachment, em função da relação federativa, que envolve, por exemplo, contratação de empréstimos com a União. É o caso do governador Marconi Perillo, que sempre destaca a boa relação com a Dilma.

A presidente comentou que não tem interesse em interferir em partidos que integram a base de apoio ao governo no Congresso, citando PT, PMDB e PR, mas que não se furtará em lutar contra o pedido de impeachment encaminhado no Congresso. “São coisas completamente distintas”, afirmou.

Em meio às divisões internas do PMDB quanto ao impeachment, o governo estaria atuando para reforçar o partido na Câmara, inclusive com a migração de integrantes de outras legendas. Ainda sobre o PMDB, Dilma afirmou que Temer, na condição de presidente nacional da legenda, tem questões a administrar com os correligionários.

A presidente procurou, entretanto, reafirmar a avaliação positiva do resultado da conversa mantida com o vice após uma série de ruídos e desencontros desde a deflagração do processo de impeachment pelo Congresso. “Colocamos a importância de todos nossos esforços em direção a melhoria da situação econômica e política do país.”

Um falso grande político com veleidades poéticas

Escrever é expor-se.
Revelar sua capacidade
Ou incapacidade.
E sua intimidade.
Nas linhas e entrelinhas.
Não teria sido mais útil silenciar?
Deixar que saibam-te pelo que parece que és?
Que desejo é este que te leva a desnudar-te?
A desmascarar-te?
Que compulsão é esta?
O que buscas?
Será a incapacidade de fazer coisas úteis?
Mais objetivas?
É por isso que procuras o subjetivo?
Para quem a tua mensagem?
Para ti?
Para outrem?
Não sei.
Mais uma que faço sem saber por quê.

Os versos acima, caro leitor, são o poema intitulado “Exposição”. Sabe de quem é? Do vice-presidente Michel Temer. É de um livro que ele lançou em 2013, “Anônima Intimidade” (Topbooks). Na época ele disse: “Escrevi estes escritos para mim”.

E o fez, contou, em guardanapos de papel durante viagens aéreas entre Brasília e São Paulo. “Deixava a arena árida da política legislativa e me entregava, durante o voo, a pensamentos.”
Na semana que passou, como é do conhecimento de todos, Michel Temer cometeu outros escritos. Foi em forma de carta, enviada à presidente Dilma Rousseff. E nessa carta, está explicitada a envergadura política do vice, que é também presidente nacional do PMDB, o maior partido integrante da aliança governista.

Por sinal, foi uma semana pródiga de lances estapafúrdios na política brasileira. Além da pantomima diária encenada pelos deputados federais na eleição da comissão especial que vai analisar o pedido de impeachment de Dilma, houve troca de tapas entre parlamentares no Conselho de Ética da Câmara, que deve deliberar sobre continuidade de investigação contra Eduardo Cunha.

Mas, voltemos a Temer e sua, digamos, escalafobética carta a Dilma Rousseff. Nela, o peemedebista se queixa de ser tratado pela petista como objeto decorativo.

Vamos fazer algumas considerações sobre essa carta e seu autor.

Michel Temer é tido por muitos como um grande político, e normalmente quem o considera assim exalta sua capacidade de diálogo, o trato civilizado com o interlocutor. Também ressaltam muito seu conhecimento na área jurídica, lembrando que o homem é um professor de Direito Constitucional, um ”constitucionalista”. Verdade que ele tem livros publicados nessa área — e, como se viu, já tem até livro de poesia. Pintam-no, enfim, como um autêntico “estadista”.

Em que pese seus largos conhecimentos jurídicos, sua imagem meio hierática, a cara de mordomo de lorde inglês, sua fineza, etc. e tal., Michel Temer encarna o típico político brasileiro que preza o jogo baixo da influência, do toma-lá-dá-cá. O jogo preferido do homem é a ocupação de espaço na máquina pública, com indicação de apaniguados para cargos importantes, onde passa muito dinheiro e se pode usar a estrutura do órgão para o partidarismo. Temer é um autêntico peemedebista.

A respeito da carta, o jornalista Mário Magalhães escreveu: Temer nunca foi grande. Sua grandeza de estadista é miragem pincelada por vários pintores. Entre eles, jornalistas que se beneficiaram por décadas de informações sopradas pelo atual vice. De correligionários seus, não precisa nem falar. Os petistas não escapam, em seu empenho enganador para edulcorar a influência do PMDB no governo.

Prossegue Magalhães: O tamanho de Michel Temer é o expresso na mensagem a Dilma. Ele se queixa dos carguinhos e cargões que seus compadres perderam. O estadista amuado por vaguinhas no governo? Surpresa? Ora, que virtudes são compatíveis com o presidente nacional do PMDB? Se sempre se considerou um vice decorativo, e isso o chateava, por que topou participar da dobradinha eleitoral em 2014? Para manter os amigos nas altas esferas? Se quer despachar no Planalto, que batalhe pelo voto popular em 2018.

Sem mentiras

O mais interessante na missiva “temeriana” é que não há nenhuma mentira nela. Todas as queixas são procedentes. Mas as verdades contidas na carta do vice-presidente documentam a preocupação de uma personalidade que se ocupa praticamente apenas de seus apaniguados. Dilma realmente tem tratado Temer como um apêndice dos mais desimportantes. Para ela, o PMDB é uma “mala sem alça” que ela tem de carregar por conveniência eleitoral.

Mas, passada a eleição, fomos vitoriosos, chega!, pensa a petista. Até por ideologia, ela não suporta ser obrigada a tratar com gente como José Sarney, Renan Calheiros e outros. Michel Temer entra no rol.

E Dilma sabe que seu vice está conspirando. Mas Temer o faz em seu estilo sub-reptício, matreiro, dissimulado. É assim que ele gosta e está acostumado a agir. Faz de conta que não vai e não vai mesmo; nega que disse o que não falou. E a questão é: depois de tantos anos sem reclamar, pelo menos não publicamente, ele manda uma carta e certamente o fez num timing que considerou adequado.

A carta é uma declaração de rompimento com uma governante fraca, acuada, sem tino para a administração e sem capacidade para a política. Temer sabe que a possibilidade de impeachment já não é tão irreal. Pode acontecer. Acontecendo, ele, pelo cargo que ocupa, assumirá o posto. Com a carta ele sinalizou para seus correligionários peemedebistas e para potenciais aliados de outros partidos — principalmente o PSDB — que já está deixando Dilma e o PT. Portanto, esses aliados podem se aproximar dele, que neste momento é a perspectiva de poder.

Temer não é grande, é fato. Mas, se Dilma cair e ele assumir, dificilmente seria tão ruim quanto a petista, que não tem a mínima noção de como desempenhar as atribuições do cargo. O problema é que o peemedebista também pode cair. Já há pedido de impeachment sobre ele, pois sabe-se agora — o Palácio do Planalto tratou de vazar as informações — que o vice também assinou autorizações para as tais pedaladas.

Perspectiva de poder e o beija-mão

Presidente Dilma Rousseff: segundo Fernando Collor, ela não se recupera mais

Presidente Dilma Rousseff: segundo Fernando Collor, ela não se recupera mais

No jantar de confraternização dos senadores, no meio da semana, na casa do senador Eunício Oliveira (PMDB-CE), em Brasília, Michel Temer viveu momentos de glórias pela natural perspectiva de poder que ele encarna. O vice foi alvo de verdadeiro beija-mão. “Temer hoje não dá para quem quer. Está todo mundo encostando nele para perguntar de Dilma e das outras coisas”, disse o ministro da Saúde, Marcelo Castro.

Em fila, senadores e ministros assediaram o vice-presidente e o assunto era um só: como tinha sido a conversa com Dilma e sua avaliação sobre o desfecho do impeachment.
Consta que Temer teve duas conversas mais demoradas. Uma com a ministra da Agricultura, Kátia Abreu (PMDB-TO), que é unha-e-carne com Dilma; a outra com o senador e ex-presidente Fernando Collor (PTB-AL), que passou a noite falando sobre o processo de impeachment que o tirou da Presidência em 1992.

“Temer ficou surpreso com o apelo dramático que a presidente Dilma fez a ele. Logo ela que é durona e não mostra fraqueza, se emocionou muito”, comentou Kátia Abreu numa roda de senadores, sem explicar se a presidente Dilma chegou a chorar, durante a conversa, registrou “O Globo”.

“O vice está deslumbrado e muito embevecido achando que já é o presidente, mas disse que não vai fazer nenhum comentário a respeito. Na conversa ele disse para a presidente Dilma que sua preocupação agora é com o partido que está dividido ao meio. Há em curso um processo paulista, do empresariado e da mídia impulsionando esse seu comportamento de distanciamento da presidente”, comentou Kátia Abreu.

Collor

O jornal registrou que outros convidados contaram que a presidente Dilma, antes da conversa com Temer, fez um mídia training com o ministro da Casa Civil, Jaques Wagner, que almoçara na casa do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e outros senadores do partido. Na sabatina, ela tinha sido instruída a ser “emotiva” e não tocar nos temas reclamados por Temer na carta-desabafo que motivara a conversa, a pedido da presidente para tentar recompor a relação com o vice.

O ex-ministro e atual presidente da Fundação Ulysses Guimarães, Moreira Franco, ponderava, nas conversas, sobre a necessidade de o PMDB do Senado, que tem dado sustentação a presidente Dilma, se articulasse mais no entorno do partido.

A conversa de Collor com Temer também chamou a atenção. Numa mesa em que estavam vários senadores, inclusive o presidente nacional do PSDB, Aécio Neves (MG), Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN), Ronaldo Caiado (DEM-GO) e outros, Collor passou a discorrer sobre sua própria experiência de impeachment. Os senadores quiseram saber em que momento ele percebeu que não tinha mais volta, que a cassação será irreversível.

“O momento mais dramático foi quando eu tive que demitir os ministros Bernardo Cabral (Justiça) e Zélia Cardoso de Melo (Economia). Naquele momento eu perdi o comando do governo. Depois, quando o povo se vestiu de negro, eu senti que perdera a presidência da República”, contou Collor.

Quando perguntado se ele achava que Dilma se recupera, Collor deu um gole em seu gim tônica e vaticinou:

— Já foi. Não se recupera mais. Agora a rua será implacável.

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Adalberto De Queiroz

Mais um grande texto do nosso caro Cezar. O poeta não iria para minha antologia… Quanto ao VP, sei não, mas faz-me lembrar de Rudyard Kipling com seu “O homem que queria ser rei”. Como são dois personagens [Dravot e Carnehan], a fala deles serve, ambas, à hora presente: “Mandei essa carta para Dravot [Daniel], disse Carnehan; “e pedia que viesse logo, porque seu Reino estava ficando grande demais para eu controlar, e então voltei ao primeiro vale para ver como ia o trabalho dos sacerdotes. (…) “Um dia de manhã, ouvi uma barulhada dos diabos, tambores e trombetas, e… Leia mais

Pedro Oliveira

PMDB é o partido com mais corruptos do país, quem acredita na salvação por meio deste cidadão, está enganado!