Marcos Aurélio Silva
Marcos Aurélio Silva

Mesmo com ambiente hostil, campanha de 2022 não será reprise de 2018

Bolsonaro não terá os mesmos apelos que teve há quatro anos e vai enfrentar a avaliação do seu primeiro mandato

O que ainda guardamos de lembranças das eleições de 2018? As mudanças políticas e comunicacionais naquele ano, transformaram o candidato Jair Bolsonaro no político outsider, e assim ele fez algo incomum: venceu uma eleição praticamente sem tempo de televisão e sem ser impulsionado por grandes e tradicionais caciques da política brasileira.

Em 2018, o então deputado federal, Jair Bolsonaro contou com o sentimento anti-PT e o discurso de outsider pensado para as redes sociais lhe renderam a liderança em pesquisas eleitorais depois da prisão do seu principal oponente: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Depois de três anos, como era de se esperar, nada é como antes. Aliás, as eleições de 2022 vai consolidar o que “foi mais não foi”. Refiro ao embate político entre Bolsonaro e Lula. Só que em outro ambiente. A figura de outsider não cabe mais. E os anseios da população mudou muito neste intervalo.

Primeiro vale apontar o que mudou na perspectiva dos candidatos antagonistas. Falando de Bolsonaro, quem acompanha política sabe que o primeiro mandato é uma vitrine e que convencer os eleitores a optar pela continuidade – embora se tenha o poder da máquina pública – é um grande desafio. Diferente de 2018, hoje o capitão do Exército luta para conter sua reprovação. Segundo o último levantamento feito pela Datafolha, 46% dos brasileiros acham o governo de Bolsonaro ruim ou péssimo. 

Nos pouco mais de três anos de governo, Bolsonaro tem contra si inúmeras crises institucionais, uma CPI, escândalos em Ministérios, 607 mil mortos por causa da pandemia e uma crise econômica gravíssima. Essa última talvez seja a que mais interfira no cenário eleitoral.

Por outro lado, Lula, embora apareça liderando as pesquisas, ainda enfrenta forte resistência do eleitorado em razão do antipetismo e os resquícios da Operação Lava-Jato, que o levou a prisão. Lula, que vinha se mantendo calado e, por consequência, mantinha um ritmo moroso de campanha, resolveu entrar no circuíto c om declarações contra militares e levantando debate sobre aborto. São assuntos que os eleitores conservadores usam como munição contra o PT, mas que em 2018 não pode ser debatido.

Bolsonaro precisou buscar novas acomodações para disputa em 2022. Filiou-se ao PL e levou consigo um grupo de apoiadores. Também foi necessário se aliar com o centrão, e acabou por entregar a maior parte do orçamento para o partido Progressista. Ainda não para avaliar se o preço que o presidente paga por ter de estar no partido que esteve no centro do escândalo do mensalão é razoável para sua reeleição. Ter o pP como principal aliado também destoa do que Bolsonaro pregou em 2018, afinal, o partido comandado pelo ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira (pP), está entre os campões de denúncias na Operação Lava-Jato.

Já Lula conseguiu entender que precisa formar um amplo arco de apoiadores para fazer frente a Bolsonaro e a máquina administrativa que ele tem a seu favor. É interessante ter Geraldo Alckmin (PSB) na posição de vice. O ex-tucano chega com uma tarefa de fazer da chapa algo que agrade também os eleitores de centro. Mas a aliança também cria atritos nos diretórios estaduais dos partidos –  problemas que precisam ser visto com atenção para não se tornar um complicador na campanha. 

Pelo ponto de vista do eleitor, as demandas para eleições de 2022 diferem da de 2018. As incertezas gravitam sobre o futuro político, econômico, sanitário e social. Os que defendem o presidente possuem como argumento a corrupção sistêmica que levou Lula para cadeira. É uma tentativa de manter viva a chama que aqueceu a campanha Bolsonaro em 2018. E cada um usa a arma que tem. Quem não vota em Bolsonaro também espera que as denúncias de corrupção deste governo estejam presentes nos debates. 

O mais provável é que a disputa ocorra centrada entre Lula e Bolsonaro, e as principais preocupações do eleitorado serão os efeitos e as possíveis soluções da crise econômica e social, em boa parte relacionada à pandemia. Pontos que não poderiam estar presente nas eleições de 2018. 

Os temas socioculturais — feminismo, conservadorismo, defesa da família, posse de armas — desempenharam um papel muito central na campanha de 2018. Mas, ao que indica até o momento, não encontrarão campo fértil esse ano. As pesquisas de opinião demonstram que, frente aos reflexos da pandemia e da guerra na Ucrânia, a maior preocupação está na economia e no social. 

Neste ambiente hostil, o que vai nos fazer lembrar de 2018 será as campanhas de desinformação –  que promete ser pesada. As fakes são uma arma eleitoral desonesta, mas que nos surpreenderia se não for usada de forma mais suja do que foi nas eleições de 2018.

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