Cezar Santos
Cezar Santos

A meia conspiração de Rodrigo Maia

Rejeição de denúncia não chega a frustrar desejo maior do presidente da Câmara, que queria sim a queda de Michel Temer, porque o democrata segue no comando da agenda das reformas

Rodrigo Maia não será presidente da República em mandato-tampão, mas ganha protagonismo na agenda das reformas e fortalece seu projeto de reeleição a deputado federal e para presidir a Câmara novamente

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodri­go Maia (DEM-RJ), tem cara de bebezão, mas age como os mais velhacos da política. Ostentando um currículo sem grandes brilhos, sua mais marcante característica política é o fato de ser filho de Cesar Maia, este com certa habilidade e mais estofo cultural, ex-prefeito e vereador no Rio.

Lembrando, na quarta-feira, 25, o plenário da Câmara dos Deputados rejeitou a segunda denúncia contra o presidente Michel Temer (placar de 251 votos contra a peça e 233 favoráveis). Quem assistiu à votação viu a cara de enfado, melhor dizendo, contrariedade, de Rodrigo Maia. E isso porque o desejo do presidente da Câmara era que a denúncia fosse aceita. Mesmo sem poder trabalhar abertamente para isso, a contrariedade ficou estampada na face. Não deu.

Resumidamente, se a denúncia passasse, e na sequência o Supremo Tribunal Federal (STF) decidisse pela abertura do processo criminal contra o presidente, Temer seria afastado do cargo por 180 dias.

Então, Rodrigo Maia assumiria. Se viesse a ocorrer o impeachment, Maia teria um mês para convocar a eleição indireta (apenas os congressistas votariam para eleger o novo presidente para cumprir mandato-tampão até a eleição regular em 2018). Quem seria o candidato do Congresso?

Claro, Rodrigo Maia. E ele seria praticamente imbatível. Eleito para o mandato-tampão, seria um potencial candidato em 2018. E Maia teria sim possibilidade de se eleger, principalmente se a economia continuasse em viés de recuperação como está desde que Temer assumiu em substituição ao desastre petista Dilma Rousseff.

Mesmo se não fosse eleito, Rodrigo Maia seria peça fundamental na orquestração do segundo turno, levando apoio decisivo para um dos lados.

Ou seja, o destino político do Brasil estaria sob influência direta de um político sem brilho, que apesar de seus cinco mandatos na Câmara Federal, graças ao prestígio e recursos do pai prefeito do Rio, nunca se destacou por fazer política de alto nível, rsumindo-se às miudezas de interesses de seu partido. Além disso, está envolvido em irregularidades investigadas pela Lava Jato. Sim, o presidente da Câmara do Deputados é alvo de dois inquéritos no STF. Delatores de ex-executivos da empreiteira Odebrecht o citam na Operação Lava Jato. Ele é o “Botafogo” nas planilhas do setor de propinas da construtora. Maia teria recebido, pelo menos, R$ 1 milhão em três anos eleitorais.

Voltemos ao presente. Temer soube jogar de acordo com as regras do jogo, “comprou” apoio de sua base com cargos e emendas e garantiu — apertadamente, é verdade — a vitória na quarta-feira passada.

Exatamente como fizeram seus antecessores. Fernando Henrique Cardoso comprou parlamentares para a reeleição em 1997; Lula da Silva comprou parlamentares no mensalão; Dilma Rousseff comprou parlamentares para tentar se safar do impeachment (manchete da “Folha” de 10 de abril de 2016: “Contra impeachment, Dilma negocia cargos com verbas de R$ 38 bilhões”).

Agora dá

Pode até ser que Rodrigo Maia não pensasse em conspirar contra Temer quando assumiu a Câmara em substituição a Eduardo Cunha. Mas quando da delação de Joesley Batista, o democrata sentiu que “agora, dá”, ali ele vislumbrou a queda do peemedebista, tal o impacto que a delação do açougueiro causou na imprensa. Ele diz que foi “aconselhado” a assumir a conspiração mas se negou.

Na primeira denúncia de seu xará Janot, já correu o zum-zum de manobras estranhas feitas por Rodrigo Maia, como reuniões com parlamentares e empresários para tratar de uma eventual “gestão Maia”, inclusive com um plano de governo. Quando o zum-zum ficou mais forte, ele teve de se explicar publicamente.

Em meados de julho, em entrevista ao programa Roberto D’Avila, da Globonews, reforçou sua lealdade ao presidente Temer e revelou que era cobrado pela mãe para não conspirar.

“Sou cobrado todo dia pela minha mãe. Ela me mandou uma mensagem de texto e eu até assustei: ‘Você não vai conspirar, né?’ (Respondi:) ‘Você me ensinou que eu tenho de ser leal e assim eu sou’’. Mostrei (a mensagem da mãe) para o presidente (Temer)”, disse Maia. A mãe do deputado é a chilena Mariangeles Ibarra Maia.

Passada a primeira denúncia, no andamento da segunda, eis que Rodrigo Maia novamente age para sabotar o aliado Temer. Ele tornou público, no site oficial da Câmara, os vídeos da delação premiada de Lúcio Funaro, em que o doleiro faz graves acusações ao peemedebista.

A revista “IstoÉ” contou a tramoia. “Tratou-se de um gesto estritamente pessoal: conforme apurou ISTOÉ foi o próprio Maia, na noite de sexta-feira 29 de setembro, quem pediu a um servidor da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara que disponibilizasse os depoimentos de Funaro. Coube ao funcionário entrar em contato com os responsáveis pelo site da Câmara. Eram 19h30 quando Maia emitiu a ordem. Uma hora depois estava tudo pronto para o conteúdo bombástico entrar no ar. Maia acompanhou tudo de perto. Só descansou depois que o “enter” foi pressionado.

Ciente de que Temer não perderia na votação da segunda denúncia, Maia não embarcou na conspiração franca. Mas trabalhou para enfraquecer a vitória do peemedebista. O objetivo era deixar o presidente refém do comando das duas casas legislativas na votação das reformas. Temer enfraquecido na Câmara, só será votado o que Maia concordar.

Se o democrata não vai assumir a Presidência, poderá dar seguimento ao seu plano B: reeleger-se deputado federal e presidente da Câmara, e fortalecer o DEM. Especula-se que o governo do Rio também seria uma possibilidade.

Meirelles

No dia seguinte à vitória de Temer, quem visitou Rodrigo Maia foi nada menos que o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. O goiano disse que equipe econômica e o presidente da Câmara estão alinhados no sentido de prosseguir normalmente com a agenda econômica após o arquivamento da segunda denúncia contra Temer (e os ministros Eliseu Padilha e Moreira Franco).

“Conversamos sobre os próximos passos da agenda econômica. A ideia é prosseguir normalmente. Esta é a decisão do presidente da Câmara, com a qual concordamos integralmente. A reforma da Previdência, em primeiro lugar. Depois, discutiremos a reforma tributária”, disse o ministro goiano.

Meirelles desdenhou o placar apertado para arquivar a denúncia a Temer, o que seria um sinal de enfraquecimento político, observando que são assuntos diferentes. “Acredito que haja uma consciência de que a reforma da Previdência é absolutamente necessária. No momento, a nossa ideia é fazer uma PEC da reforma da Previdência, que é um projeto que resolve todos os problemas, que dá mais confiança a todos.”

Registro da Folha:

Diante da apertada vitória de Temer, Maia disse que o presidente tem que refletir.

“Não usei a presidência da Câmara nem quando o Planalto me desrespeitou”, disse Maia, aconselhando o governo a “avaliar resultados”. “Cada um tem que conduzir a sua relação da forma que entende. Não vou ficar ensinando ao presidente da República, que foi presidente da Câmara três vezes, como ele tem que manter a relação com o Parlamento”, afirmou Maia.

Uma ameaça velada dita por Rodrigo Maia com a característica cara de bebezão velhaco amuado.

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Wilson

Tudo farinha podre do mesmo saco