Marcos Aurélio Silva
Marcos Aurélio Silva

Manaus pede socorro e encontra solidariedade dos goianos

Assim como Goiás abriu as portas para os repatriados de Wuhan, agora recebe os pacientes que não conseguem atendimento no Amazonas. Empatia é o sentimento que norteia os goianos no enfrentamento a pandemia

Quando acaba o oxigênio começa o desespero. As imagens que chegam de hospitais de Manaus são o retrato da agonia. Médicos, familiares e pacientes numa luta frenética pela vida. Qualquer militar, até mesmo o que ocupa o lugar de Ministro da Saúde, poderia classificar como um campo de guerra, sem uma trégua aparente.

O que ocorre na capital do Amazonas é o temido colapso da saúde que o coronavírus tem incrível capacidade de promover e que Manaus enfrenta pela segunda vez – a cidade foi duramente afetada pela pandemia entre março e junho de 2020, quando corpos chegaram a ser enterrados em valas coletivas.

Faltam leitos e falta ar. A demanda pelos cilindros de oxigênio, necessários para atendimento aos pacientes com sintomas mais severos da Covid-19, aumentou em cinco vezes nos últimos dez dias. Para receber insumos, Manaus necessita de uma logística diferente de todas as outras capitais brasileiras. Para manter o abastecimento de oxigênio seria necessária uma operação de guerra. Mas o militar/ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, não conseguiu antever essa possibilidade e agora corre para tentar conter o avanço anunciado do vírus inimigo. 

Aos que acompanham noticiários e pronunciamentos oficiais vindos de Brasília, já perceberam que mesmo enterrando quase 200 corpos por dia, a situação no Amazonas não foi capaz de acordar o general Pazuello, e muito menos o capitão Bolsonaro. E em meio a essa guerra, o ministro da Saúde demonstrou mais uma vez seu senso de urgência sem lógica: “Estamos vivendo crise de oxigênio? Sim. De abertura de UTIs? Sim. De pessoal? Sim. A nossa saúde de Manaus já começa com 75% de ocupação. Qual é a novidade?” A fala de Pazuello é um eco do que é dito pelo seu líder, Jair Bolsonaro: “Terrível, o problema em Manaus. Agora, nós fizemos nossa parte.”

Solidariedade é o remédio que pode minimizar o suplício que enfrenta a população amazonense diante da expansão da Covid-19

Ultrapassando a marca de 200 mil mortos por Covid-19, é possível acreditar que todo brasileiro perdeu alguém próximo ou um conhecido para essa doença. Todos conhecem uma história capaz de sensibilizar e dar a dimensão do que a pandemia está provocando. Todos são capazes de reconhecer que é preciso tomar medidas para conter o avanço da doença e dar socorro aos doentes. Todos conseguem se solidarizar com os amazonenses. Todos, menos o ministro e o presidente. 

A situação em Manaus pede união. Esforços para um único objetivo que é salvar vidas, levar ar para quem precisa de ajuda para respirar. E felizmente há empatia para com os amazonenses. A solidariedade ouviu o grito de socorro e uma forte corrente se mobilizou para dar fôlego aos pacientes da Covid-19. 

A solidariedade dos goianos saltou à frente de toda desorganização que ainda predomina frente à calamidade de Manaus. Goiânia será a capital que vai receber mais pacientes que precisam de UTI e de oxigênio, mas não conseguem o atendimento no Amazonas. Serão 120 amazonenses que devem ser encaminhadas para os hospitais goianos.

Poderia se esperar algum tipo de protesto. Poderia uma voz ou outra se levantar para dizer que estamos dando leitos dos goianos para pacientes de outras regiões. Mas o goiano nunca demonstrou incapacidade quando se fala de empatia. Solidariedade é uma característica nossa. Por essa razão que médicos, enfermeiros, socorristas, maqueiros e todos profissionais de saúde goianos estão apostos para trabalhar pela vida de brasileiros que estão se afogando em corredores de hospitais por não terem leitos nem oxigênio. 

Temos a sensibilidade de nos colocar no lugar dos familiares de pacientes que não conseguem atendimento no Amazonas. Conseguimos entender, que se a situação fosse inversa, teríamos eterna gratidão por contar com um leito de hospital em um estado diferente. Sabemos que as medidas que estão sendo tomadas em nosso estado, refletem realmente o que os goianos desejam. “As pessoas precisam ser tratadas e vamos dividir o que temos”, disse o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), expressando a compaixão que os goianos compartilham. 

Em termos de unidades hospitalares e leitos de UTI, Goiás conseguiu se preparar bem para enfrentar a Covid-19. Hoje, o Estado trabalha com folga na capacidade de atendimento. O Hospital das Clínicas teve uma nova estrutura inaugurada recentemente, fruto também de uma força tarefa para ampliar o atendimento às vítimas da pandemia. Abrigar esses pacientes em um atendimento solidário, é um gesto imprescindível para salvar vidas e não compromete a assistência aos goianos.

Os amazonenses serão recebidos em Goiás, da mesma forma com que foram recebidos os brasileiros que estavam na China e precisaram ser repatriados, e foram acomodados em Anápolis. Temos certeza que todos que chegarem ao Estado encontraram solidariedade e atendimento médico feito por profissionais que há dez meses não perderam nem um minuto o foco da missão: salvar vidas e vencer a batalha contra a Covid-19. A torcida é para que se recuperem e possam retornar saudáveis para seus familiares.

Oxigênio solidário

A rede de solidariedade em busca de cilindros de oxigênio se espalhou pelo País e pelo mundo. Digital influencers, artistas, intelectuais, esportistas, empresários, todos fazendo o que se esperava que partisse do Governo Federal. Ironia ou não, até o governo da Venezuela, alvo dos ataques de Jair Bolsonaro, oferece oxigênio para os hospitais de Manaus. “Enquanto Bolsonaro cruza os braços, Nicolás Maduro estende a mão para Manaus” foi a manchete do jornal Correio Braziliense

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