Rodrigo Hirose
Rodrigo Hirose

Maior adversário de Bolsonaro, hoje, é Sergio Moro

Presidente tem realizado movimentos que desidratam o ministro, possível presidenciável em um pleito que tende a reeleger a direita em 2022

Moro e Bolsonaro: aliados podem se enfrentar em 2022 | Foto: Montagem Agências Senado e Câmara

Políticos pensam em política as 24 horas de cada dia. Na maioria das vezes, colocam na balança o impacto de cada uma de suas ações, inclusive aquelas tomadas no âmbito pessoal. Por isso, para o estranhamento de quem acompanha esse jogo pelo lado de fora, com certo distanciamento, não é incomum que, eleitos – ou mesmo muito antes disso –, eles comecem a pensar na próxima eleição no primeiro dia após a posse.

Jair Bolsonaro é talhado na maior escola política que se pode ter: o Congresso Nacional. É ali que se reúne gente de todo tipo, de todos os locais, de todas as ideologias. Transitar pelos gabinetes de Brasília equivale a um pós-doutorado diário em Ciência Política, com a vantagem de que a prática e a teoria não estão dissociadas, como geralmente ocorre na academia.

Mesmo tendo sido uma figura que sempre esteve debaixo da camuflagem, quase imperceptível, Bolsonaro aprendeu durante três décadas como as coisas funcionam. Não à toa, alcançou o ápice da carreira, ao vestir a faixa presidencial no dia 1º de janeiro de 2019. Nada mal para alguém que fora tratado, durante 30 anos, com desdém pelos analistas políticos e mesmo por sua própria classe. De figura exótica, de nicho, quase marginal (no sentido de estar à margem), hoje é o homem mais poderoso do País.

Engana-se quem acha que Bolsonaro não é um homem inteligente. Pode ser um rude, um boquirroto, mas burro o presidente não é nem um pouco. Sem a sutileza de um Tancredo Neves (1910-1985), ele mexe as peças de seu tabuleiro quase que em público. Avança e recua conforme os movimentos dos adversários – ou mesmo de aliados.

Dono de uma personalidade paranoica, o presidente enxerga agora mais um “inimigo” interno. Não no sentido de alguém que faz oposição ou é hostil, mas no de alguém que possa ser um obstáculo futuro. Por isso, Bolsonaro mexeu mais uma peça para encurralar Sergio Moro, o ministro mais popular da Esplanada dos Ministérios.

Na política não existem coincidências. Moro participou do programa Roda Vida, exibido pela TV Cultura, em uma das entrevistas mais comentadas em tempos. Antes mesmo dela, a polêmica tomou conta das redes sociais. O editor do The Intercept, Glenn Greenwald, reivindicou um lugar na bancada para um entrevistador de seu site, responsável por divulgar conversas que comprovariam conluio entre Moro e procuradores da Lava Jato. Empresas de monitoramento de redes sociais demonstraram que Moro foi aprovado no teste.

Dois dias depois, Bolsonaro anunciou que pretende recriar o Ministério da Segurança Pública, esvaziando as atribuições de Moro. Para deixar claro quem é o dono da caneta, o presidente ainda ironizou: “Lógico que o Moro deve ser contra, mas é estudado com os demais ministros [o desmembramento do ministério]”. Diante da reação negativa, inclusive de aliados, recuou com uma mensagem dúbia: “A chance [de desmembrar o ministério] no momento é zero. (…) Não sei amanhã”.

Não é a primeira vez que o presidente contraria seu ministro. Já impediu nomeações, retirou o antigo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) do guarda-chuva dele, fez cara de paisagem na tramitação do pacote anticrime e não vetou a criação do juiz de garantias, como Moro queria. Mas desmembrar a Segurança Pública da Justiça é retirar do ministro a área que mais tem visibilidade diante da população e que é a que mais tem trazido resultados positivos para o governo federal.

O entorno de Bolsonaro enxerga Moro como virtual adversário em 2022. O ministro tem avaliação pública melhor que a do próprio presidente. Mesmo com a Vaza Jato, manteve praticamente incólume a imagem construída como magistrado em Curitiba – afinal, para muitos, os fins justificam os meios. Fala pouco, se mantém discreto sem ser apagado. Agrada a parcela da população que não quer ver a esquerda de volta ao poder, mas que rejeita a retórica do núcleo ideológico do governo.

O cenário atual não deixa antever uma vitória dos chamados progressistas daqui a três anos. O discurso anticorrupção, em defesa da família e o anticomunismo (práticas que a direita conseguiu colar na esquerda no imaginário popular) ainda é forte. E a esquerda colabora dando tiros nos próprios pés. Poucos dias após o ex-secretário especial da Cultura Roberto Alvim citar o nazista Goebbels em um discurso, a deputada do PSOL Talíria Petrone prestou homenagem a Lênin, um dos artífices da Revolução Russa de 1917, por ocasião dos 96 anos de sua morte.

Outro erro de parte da esquerda tem sido demonizar o segmento evangélico brasileiro. Como mostrou o Datafolha, esse é o estrato religioso que será majoritário no Brasil em dez anos, caso as curvas demográficas mantenham a atual tendência. Lula, inclusive, já se atentou para isso e agora pretende criar núcleos evangélicos dentro do PT.

Portanto, mantidas as condições atuais, a tendência é que em 2022 seja eleito, novamente, um presidente de direita ou de centro direita. O PSDB captou essa onda, mas suas incursões no discurso conservador soam sinceras como nota de três reais (o PSDB, aliás, está numa encruzilhada: perdeu sua essência social democrata e não convence como direita moderada).

Nesse cenário, Bolsonaro se vê com boas chances de continuar no poder. E isso passa por impedir que Moro ganhe musculatura antes que a mosca azul o pique (se é que já não picou).

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