Cezar Santos
Cezar Santos

Maia sinaliza ao mercado que está preparado para substituir Temer

Presidente da Câmara intensifica contatos no mercado financeiro, para mostrar que está pronto para assumir quando o peemedebista cair

Deputado Rodrigo Maia, presidente da Câmara Federal: democrata se sente “pronto” para o lugar de Michel Temer na Presidência da República | Foto: Antônio Augusto 

A política não admite o vácuo. Essa deve ser a lei máxima da política, algo assim como a lei da gravidade para a física, mal comparando. Politicamente, o presidente Michel Temer (PMDB) está de mal a pior. Nessa altura, com a denúncia do procurador-geral (e outras denúncias vêm aí) a perda do cargo é uma possibilidade realíssima.

Caindo Temer, e como ele não tem vice, o próximo na linha sucessória é o presidente da Câmara Federal, no caso, o democrata Rodrigo Maia. O mecanismo de substituição do presidente da República está previsto na Constituição, e fora da Constituição o que teríamos seria o caos institucional. Saindo Michel Temer, entra Rodrigo Maia. Há iludidos que falam em eleição direta e tal, o que é apenas marola, inconsequência, coisa de gente que pensa que eleição é brinquedo.

Como a política não admite o vácuo, Rodrigo Maia já se mexe para que vácuo não haja. Essa movimentação não é apenas visando a substituição formal, mas no sentido de reunir condições políticas para dar cumprimento ao que lhe cabe se e quando assumir a titularidade do Palácio do Planalto.

Na semana passada, a imprensa noticiou que o presidente da Câmara dos Deputados intensificou contatos no mercado financeiro desde o agravamento da crise política, a partir das denúncias dos delatores goianos Joesley e Wesley Batista, da JBS.

A movimentação de Maia, anota o jornal “Valor”, é vista pelos analistas, economistas e agentes do setor que se reuniram com o democrata como uma tentativa de mostrar que, caso Temer seja afastado, ele estaria preparado para assumir o cargo, com a manutenção da equipe econômica e das reformas.

A sinalização mais evidente de Maia nesse sentido são os constantes elogios à equipe econômica comandada por Henrique Meirelles. Em passado recente, ele discordou da equipe, o que denota pragmatismo de Maia. Com isso, o democrata evidencia que manteria Meirelles no Ministério da Fazenda, posto que o goiano é o fiador das reformas junto ao mercado.

A pauta do presidente da Câmara bate com a percepção por parte dos agentes do mercado de que as reformas não terão seguimento com Michel Temer, visto que o peemedebista se vê preocupado unicamente com sua defesa na denúncia de corrupção contra ele. Para complicar, Temer vem perdendo apoio político — o PSDB vive a agonia de sair ou não do governo. Maia quer mostrar desde já que terá condições de reaglutinar o apoio parlamentar e seguir com as reformas.

E por falar em PSDB, o presidente interino da sigla, senador Tasso Jereissati (CE), já vê no horizonte próximo a possibilidade de o governo de Michel Temer acabar. Ele afirma, sem freio na língua, que vê em Rodrigo Maia com condições de dar “um nível mínimo de estabilidade do país” para fazer a travessia até as eleições de 2018.

O “Valor” registrou que em conversa com jornalistas em seu gabinete, na quinta-feira, 6, Tasso apontou que o momento que decidirá o destino de Temer tem data marcada: segunda-feira, 10, quando o deputado Sérgio Zveiter (PMDB-RJ), deverá entregar à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara seu parecer sobre a denúncia contra o presidente, encaminhada ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Segundo Tasso, se Zveiter votar pela admissibilidade da denúncia, será muito difícil Temer permanecer na cadeira. “Se o relator, que é do PMDB, partido do presidente, der um voto para afastar o Temer, cai uma pilastra. Aí não tem jeito. Quer coisa mais significativa que isto?”

O ex-deputado Eduardo Cunha é outro complicados pra Temer, segundo Tasso. “Se o Eduardo Cunha delatar, aí já não tem nem o que discutir mais.” Mesmo que isso não ocorra, para o tucano a governabilidade da gestão já está muito comprometida.

O tucano comparou com o governo da ex-presidente Dilma Rousseff, cujo impeachment o PSDB apoiou. “Entre as razões que levaram Dilma a cair, a principal foi a falta de governabilidade. Agora está acontecendo a mesma coisa. Eu não tenho condições de dizer se Temer é culpado ou não. Mas tenho capacidade dizer que estamos chegando na ingovernabilidade.”

O presidente interino do PSDB disse que, diante do iminente fim do governo, os partidos estão conversando. Aí, mais uma vez, ele vê Rodrigo Maia em condições de ser o nome que promova um grande acordo. “Tem que haver agora qualquer tipo de acordo que dê ao país estabilidade mínima até as eleições. Isso não é difícil. Se vier a afastar o Temer, Maia é presidente por seis meses. Aí ele tem condições de fazer, até pelo cargo que exerce como presidente da Câmara, de juntar os partidos ao redor de um nível mínimo de estabilidade do país.”

Ponto fundamental para dar sustentação ao “governo Maia”, disse Tasso, é a manutenção da atual equipe econômica. Segundo ele, o que precisa dar ao próximo governo é a equipe econômica atual.

PS. Como o Brasil é um país que patina de crise em crise, consta que a delação de Eduardo Cunha vai trazer acusações a Rodrigo Maia.

Presidente com síndrome de Pollyanna

Coletiva de imprensa do Presidente Michel Temer ao chegar em Hamburgo| Foto: Rogério Melo/PR

A situação do presidente Michel Temer é tão complicada que já está afetando sua capacidade de discernimento. Não fosse assim, ele não teria dito o que disse na Alemanha, onde participou da reunião da cúpula de líderes das 20 maiores economias do mundo, o G-20.

O peemedebista simplesmente negou que exista crise econômica no Brasil. “Crise econômica no Brasil não existe. Vocês têm visto os últimos dados”, disse na sexta-feira, 7, ao chegar ao hotel, em Hamburgo.

Quando os jornalistas que o aguardavam reforçaram a pergunta sobre o desempenho da atividade da economia, Temer enfatizou: “Não, não. Pode levantar os dados e você verá que estamos crescendo no emprego, estamos crescendo na indústria, estamos crescendo no agronegócio. Lá não existe crise econômica”, disse.

Ao ser questionado sobre se a crise política atrapalhava o andamento da economia, o presidente, que já estava se dirigindo para dentro do hotel, virou o rosto para os jornalistas e disse “não”, reforçando a negativa com o dedo.

É verdade que já há sinais de recuperação na economia brasileira. Mas o caos na economia brasileira que Dilma Rousseff e seus pelintras deixaram foi imenso e não é “consertável” em um ano de uma gestão, mesmo que fosse uma gestão que estivesse acertando em todos os sentidos.

Michel Temer tem o mérito inegável de ter colocado uma equipe competente no comando da economia. Essa equipe está fazendo as coisas certas, na medida do possível. O problema é que esse esforço tem sido tremendamente prejudicado pela contingência política.

Na Alemanha, o presidente Temer, por conveniência, sofreu uma “síndrome de Pollyana”, a menina que enxergava tudo “cor-de-rosa”, acreditando no melhor da vida e das pessoas.
Dizer que não há crise no Brasil, com mais de 13 milhões de desempregados, com altíssimo índice de endividamento das famílias, é fechar os olhos à realidade. Ou é desespero.

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