Jair Messias Bolsonaro: do fenômeno ao colapso simbólico
17 janeiro 2026 às 21h00

COMPARTILHAR
A ida do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro (PL) para a Papudinha, na semana passada, deixou alguns aliados animados pelo fato do líder do bolsonarismo estar em um lugar maior e com mais recursos do que ele tinha na Superintendência da Polícia Federal (PF). Ele está alocado em uma sala de Estado-maior. O espaço tem capacidade para comportar quatro pessoas, mas apenas Bolsonaro ficará preso no local.
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, que determinou a ida dele para o novo presídio, decidiu que o ex-presidente terá “assistência integral, nas 24 horas, dos médicos particulares anteriormente cadastrados, sem necessidade de comunicação prévia”. Foi autorizado ainda o deslocamento imediato de Bolsonaro para os hospitais em caso de urgência, com a obrigação de comunicação ao STF no prazo de 24 horas da ocorrência.
Muitos acreditam que isso pode significar a ida de Bolsonaro para a prisão domiciliar, mas, diante de tantos acontecimentos, é inevitável deixar de fazer uma linha do tempo para entender como Bolsonaro passou de um fenômeno para um colapso simbólico. A ideologia denominada bolsonarista foi um exemplo de guerra cultural que deu certo na história política brasileira.
Carregado de discursos morais carregados de radicalismos, Bolsonaro conseguiu permear no imaginário de seus verdadeiros discípulos – sim, o bolsonarismo se tornou uma religião entre seus pares – com inimigos inexistentes, como kit gay, ideologia de gênero e globalismo. Além disso, ele conseguiu propagar um pânico moral e ódio.
Para disseminar ainda mais o seu discurso, Bolsonaro se tornou o pioneiro no microdirecionamento digital, que foi inspirado em estratégias como as da Cambridge Analytica, que compensou a ausência de estrutura partidária e tempo de TV. O comportamento caricato, grotesco e “tosco” não foi algo aleatório, mas recursos sofisticados de mobilização emocional, conforme análise do professor e historiador João Cézar de Castro Rocha.
Com isso, ele é apresentado como o maior fenômeno político individual da Nova República, onde, em 2018, conseguiu superar Lula no impacto pessoal. O resultado disso foi a eleição de governadores, senadores, deputados e conseguiu criar uma marca eleitoral. Neste respectivo pleito, o eleitorado evangélico se torna decisivo para a vitória de Bolsonaro, mas houve uma bolsonarização radical de partes das igrejas, especialmente àquelas de denominações históricas.
No primeiro ano de mandato, Bolsonaro conseguiu bons resultados, mas a pandemia rompe a eficácia da guerra cultural e dá início à primeira grande crise do bolsonarismo. “Para sobreviver, o movimento se ancora fortemente em setores evangélicos, assumindo traços de seita, com Bolsonaro como ‘ungido’. Aqui ocorre uma inflexão perigosa: o líder já não pode errar nem perder, pois sua derrota ameaça o sentido de fé dos seguidores”, pontua o professor.
João Cézar ainda relembra de um personagem que não pode ser ignorado na consolidação do bolsonarismo: Olavo de Carvalho. Ele foi mais do que um ideólogo, mas criador de uma nova linguagem política. Com isso, ele contribuiu para a retórica do ódio, que se consistia na ridicularização – tipificação – desumanização. Isso se encaixa muito nas cenas que todos viram durante as mortes causadas pela Covid, sendo as mais clássicas: a de Bolsonaro imitando pessoas com falta de ar e a frase dita por ele: “Eu não sou coveiro”.
Diante disso, houve a lógica da refutação infinitiva, onde qualquer debate se torna impossível, devido ao fato da fonte, da prova ou o critério sempre serem deslocados. Além da desumanização já citada acima, o bolsonarismo contribuiu para a legitimação simbólica da violência e até mesmo a criação de uma “coerência paranoica” em narrativas sem compromisso com a verdade.
O professor destaca que Bolsonaro construiu um carisma messiânico, sem agir como um líder clássico. “Diferente de figuras como Antônio Conselheiro, ele não sacrifica a própria pele pela causa, mas sacrifica aliados para salvar a si mesmo. Essa contradição mina o mito por dentro”.
Diante disso, fica uma dúvida: é possível ter bolsonarismo sem Bolsonaro? Antes se acreditava que sim, mas essa tese parece pegar uma rota de extinção precoce. “Não se sustenta sem um símbolo central. Não possui uma ideia-força estruturante, como lulismo, peronismo ou varguismo. Seus símbolos, como a virilidade, patriotismo e força, colapsaram com a imagem de fragilidade, doença e autopreservação”, afirma o professor.
O professor aponta que Bolsonaro fora do tabuleiro eleitoral enfraquece o campo bolsonarista. Isso porque as candidaturas de Flávio, Eduardo ou Michelle são vistas como frágeis. “Flávio carrega passivos jurídicos. Eduardo carece de narrativa nacional. Michelle é bloqueada pelo próprio Bolsonaro, por misoginia e disputa de protagonismo. O risco de uma eleição ‘lulismo x bolsonarismo’ puro diminui”, avalia. Ou seja, um nome que não tem ligação direta com a marca Bolsonaro pode fazer muito mais sucesso do que alguém que carrega o nome que um dia já teve seu peso.
Mas há um legado deixado, mesmo que a médio prazo: a linguagem da extrema-direita, o ecossistema digital radicalizado e a disposição para o conflito institucional. Além disso, alguns hábitos presentes em 2022 podem ser repetidos em 2026, como a defesa x erosão da democracia, o medo, pânico moral e o bombardeio das fake news.
Com isso, a análise do cenário até o momento, já que política nunca é e, sim, está, é que Bolsonaro foi um fenômeno poderoso, com sua parcela de inovação, mas também extremamente perigoso. O risco maior não é a volta de Bolsonaro, mas a persistência de práticas bolsonaristas sem o ator principal, sendo transfundidas no subterrâneo do debate pública, redes sociais e disputas morais. Mesmo em decadência, os seus efeitos vão moldar o cenário eleitoral por muitos anos.
Leia mais: Trump buscou o petróleo na Venezuela e luta por outras riquezas mundiais para não ter o ego ferido

