Rodrigo Hirose
Rodrigo Hirose

Impossível planejar Goiânia sem pensar a Região Metropolitana

Capital goiana e municípios limítrofes ganharam, em oito anos, cerca de 410 mil moradores, cujas vidas se entrelaçam em busca de serviços, trabalho e lazer

Plataforma do Eixo-Anhanguera: Região Metropolitana tem 12 milhões de passageiros | Foto: Fábio Costa / Jornal Opção
Plataforma do Eixo-Anhanguera: Região Metropolitana tem 12 milhões de passageiros | Foto: Fábio Costa / Jornal Opção

Desde o último censo, em 2010, Goiânia e os municípios que estão em seus limites ganharam aproximadamente 410 mil novos moradores. É uma alta de 20% no período, portanto, o dobro da média brasileira, segundo os dados disponíveis no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. É como se no entorno da capital tivesse nascido uma nova Aparecida de Goiânia em apenas oito anos.

De acordo com a estimativa populacional do IBGE, quase todos os municípios que fazem limite com Goiânia cresceram mais que a capital na última década. Senador Canedo foi o que teve maior explosão demográfica no período, com 36% de aumento populacional. Santo Antônio de Goiás cresceu 33% em sua população; Goianira, 30%; Aparecida de Goiânia, 26%; e Aragoiânia e Nerópolis, 23%. Enquanto isso, Goiânia ganhou mais 16,6% moradores. Juntas, essas cidades somam 2.439.223 habitantes – em 2010, eram 2.028.622.

Essa população do entorno tem uma vida umbilicalmente ligada à Goiânia. É na capital que boa parte dessas pessoas busca trabalho, assistência médica, educação. É também nela que essas pessoas consomem em shoppings, supermercados, atacadistas, polos de vestuário, lazer.

O fluxo contrário, da capital para o interior, também existe, embora obviamente com menos intensidade. Chama atenção, por exemplo, a busca de atendimento médico, por moradores de Goiânia, em municípios vizinhos. Conforme demonstrou reportagem recente do Jornal Opção, 32% dos pacientes que procuram o Cais Nova Era, em Aparecida de Goiânia, são da capital. Em Senador Canedo e Trindade, esse número também é significativo.

Em relação aos empregos, há muito tempo deixou de ser incomum que goianienses trabalhem no interior – na década de 1980, Aparecida de Goiânia, Senador Canedo, Goianira e as demais eram verdadeiras cidades dormitório. Hoje, só para ficar em dois casos, há centenas de profissionais de Goiânia que atuam no Buriti Shopping, na Cidade Empresarial, em Aparecida, e no polo de combustíveis de Senador Canedo. Nesta, e em Goianira, cresce a olhos vistos o mercado imobiliário, que atrair mão de obra da capital.

Plano Diretor de Goiânia

Portanto, nesse momento em que o Plano Diretor de Goiânia tramita na Câmara de Vereadores, é imprescindível entender que não se pode planejar a capital isoladamente. Qualquer política pública, do adensamento à mobilidade, da educação à saúde, tem de ser pensada em termos de Região Metropolitana – que é composta por 21 municípios.

Tome-se, como exemplo, a questão do transporte público. A Rede Metropolitana do Transporte Coletivo (RMTC) abrange os municípios de Goiânia, Aparecida de Goiânia, Senador Canedo, Trindade, Goianira, Brazabrantes, Bonfinópolis, Caturaí, Nova Veneza, Santo Antônio de Goiás, Bela Vista, Hidrolândia, Aragoiânia, Nerópolis, Terezópolis, Goianápolis e Caldazinha. Juntos, eles têm 12 milhões de usuários de transporte coletivo.

A tarifa é unificada e a rede de ônibus é integrada. Uma pessoa pode sair de Senador Canedo e chegar a Trindade pagando apenas uma passagem. Atualmente, discute-se a instituição de fontes extratarifárias para subsidiar o transporte. Em tese, o fundo pode reduzir o preço da passagem para todos esses usuários. Para tanto, todos os municípios têm de dar sua parcela de contribuição, de acordo com sua capacidade financeira e quantidade de passageiros.

Outro aspecto importante sobre transporte coletivo é saber de onde são e para onde vão os passageiros. Os últimos estudos de origem e destino estão defasados. É preciso investir recursos para que novas pesquisas sejam feitas, para que a oferta sempre acompanhe a demanda.

Congestionamento na Avenida Anhanguera, em região que leva à Goianira e Trindade | Foto: Fábio Costa

Ainda dentro da questão da mobilidade, estamos falando de uma população “motorizada”. Somente em Goiânia e municípios limítrofes, existem 1.691.852 veículos, segundo o Detran-GO. A proporção é de 0,69 veículo por habitante. Impossível ter um sistema de tráfego minimamente racional se as soluções não forem discutidas conjuntamente. A conclusão do anel viário é um dos tópicos que precisam de atuação conjunta entre todos os prefeitos da região.

Crise hídrica atinge a todos

Em plena crise hídrica – que a cada ano dá sinais de que chegou para ficar definitivamente –, é de uma obviedade extrema que a situação dos mananciais precisa ir para a discussão colegiada. Sem uma ação conjunta, as torneiras dos moradores de toda Região Metropolitana estarão cada vez mais secas. A Saneago, inclusive, tem um projeto de recuperação de nascentes do Rio Meia Ponte que inclui ações em Goianira, Santo Antônio de Goiás e Nerópolis, além de municípios que não fazem divisa com Goiânia.

Diante de tantas demandas, ao menos esses dois aspectos mereceriam planos diretores integrados: o da mobilidade e o de meio-ambiente. Se cada prefeito tomar suas decisões sozinho, corre-se o risco de que as medidas não alcancem seus objetivos ou que seus efeitos tenham baixa eficácia.

O governo estadual tem papel fundamental como coordenador dessa integração intermunicipal. Mesmo enfrentando sérias dificuldades financeiras, o Palácio das Esmeraldas não pode abdicar do protagonismo nessa discussão.

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