Marcos Aurélio Silva
Marcos Aurélio Silva

“Heróis” da pandemia ampliam linha de frente nas eleições

796 profissionais da saúde são candidatos em Goiás. Número é 26% maior que o registrado no último pleito

Considerados heróis pelo trabalho que realizam frente ao combate à Covid, os profissionais de saúde aproveitam a exposição que a pandemia promoveu para categoria e se lançam ao pleito das eleições municipais. Quando comparado com 2016, observa-se um aumento 26% de candidatos que exercem profissões relacionadas à saúde em Goiás.

Essa é uma eleição atípica em muitos pontos. Quase todos eles motivados pelo fato dela ocorrer em meio a uma pandemia sem precedentes. Um desses impactos gerados pela Covid-19 é o encorajamento dos profissionais da saúde a se lançarem candidatos. O ímpeto para entrar em um pleito como esse surge da exposição que a mídia proporcionou a quem trabalha no cuidado a pacientes contaminados pelo novo coronavírus.

Segundo os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em todo o Estado 796 nomes ligados à saúde vão concorrer ao pleito, representando 3,24% do total de candidaturas – em 2016 o percentual foi de 2,98%. A classe que mais lançou candidatos é a de agente de saúde: são 167 nomes. Esses profissionais levam uma vantagem frente aos demais colegas por conta de sua relação muito próxima com as comunidades em que trabalham –  graças ao trabalho de visitas que são realizadas de forma rotineira à casa dos eleitores. 

309 candidatos trabalham como técnicos de enfermagem e enfermeiros (representando 1,25% de todos candidatos goianos). Outros 96 postulantes são médicos. Auxiliares de laboratório, biomédicos, farmacêuticos, odontólogos, fisioterapeutas e técnicos de raio-x somam  227 candidatos 

Os candidatos que representam à saúde podem se sobressair nesta eleição nada típica. Essa vantagem vem do fato de que o tema está no centro dos debates e dos anseios dos eleitores. A pandemia torna ainda mais urgente a demanda por propostas que de investimento e reestruturação do SUS, redução de fila por exames, consultas com especialistas e cirurgias de baixa complexidade – uma necessidade da Atenção Primária, sob o comando de prefeituras. O enfrentamento ao vírus também promove a valorização e um legado para quem atua na linha de frente. Os enfermeiros, médicos, maqueiros, técnicos, socorristas e tantos outros profissionais não ganharam o título de herói atuando de forma simples. De fato são guerreiros no enfrentamento a Covid-19, e podem capitalizar tudo isso em votos e representatividade política. 

“A pandemia trouxe a tona problemas que vivenciamos no dia a dia e mostrou para sociedade que tem um grupo de profissionais que precisa ser ouvido”. A avaliação é da  vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Saúde (Sindsaúde), Néia Vieira. Ela concorda que o momento fortalece a candidatura de profissionais que estão atuando na linha de frente e diz acreditar que seja uma forma de valorização. 

Efeito em todo o Brasil

No País o número candidatos profissionais da saúde é 17,71% maior do que em 2016 e está acima da alta geral de candidatos nestas eleições, de 9,78%. Nacionalmente a categoria de maior impacto é a dos técnicos de enfermagem que tinham nas últimas eleições municipais 3.219 candidatos, mas saltaram para 4.614  neste ano – acréscimo de 43,34%. Segundo o TSE, deste total, cerca de 97% disputam cargos de vereador em mais de 2,3 mil cidades brasileiras.

O crescimento da representatividade dos profissionais de saúde na disputa eleitoral também contribui para minimizar as diferenças de gênero e raça. Os técnicos de enfermagem candidatos são, em sua maioria, mulheres (73%) e pretos ou pardos (54%). Entre todas as candidaturas, o índice é de 33,2% e 49,9%, respectivamente.

A presença de médicos nas eleições municipais aumentou 6%, com índice mais expressivo para os cargos de prefeito e vice-prefeito. Entre os 2.715 candidatos, mais de 1,3 mil profissionais fazem campanha para a prefeitura de 1.078 cidades. A maioria é de homens (85%) e brancos (75%).

Saúde x Segurança

Nos últimos pleitos houve aumento de candidaturas de agentes de segurança. Esse efeito está associado às crises na área da segurança que acabou por estimular a participação de policiais e membros das forças armadas nas eleições. Neste ano, se esperava que houvesse um boom de candidatos da classe. Essa expectativa vem do  incentivo dado pelo presidente Jair Bolsonaro (Sem partido) e, consequentemente, à defesa de uma pauta conservadora com a qual parte dos policiais se identifica – e ao fortalecimento do corporativismo militar.

Ainda assim, os candidatos da força de segurança não fazem frente aos da saúde. Este ano Goiás teve o registro de 297 nomes ligados à polícia. Em comparação com 2016 o crescimento foi de apenas 0,11%. O que demonstra que a pandemia foi mais encorajadora que a pauta de segurança pública ou mesmo o apoio explícito do presidente aos militares na política.

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