Cezar Santos
Cezar Santos

Há razão para ter esperança na economia

Novo presidente do Ipea avalia que a queda de 0,3% do PIB no primeiro trimestre
sinaliza estabilização, o que é enorme vantagem em relação ao inepto governo de Dilma

Ernesto Lozardo, nvo presidente do Ipea: “Há sinais de estabilização neste momento de recessão” | Foto: Lula Marques/Agência PT

Ernesto Lozardo, nvo presidente do Ipea: “Há sinais de estabilização neste momento de recessão” | Foto: Lula Marques/Agência PT

Não resta dúvida de que a grande missão de Michel Temer em seu interinato é começar — pelo menos começar — a colocar no trilho a locomotiva Brasil, que foi completamente desguiada por Dilma Rousseff e sua turma. Politicamente Temer está enredado na velha estrutura do presidencialismo de coalizão, obrigado a nomear em seu ministério gente como Romero Jucá (que já caiu, felizmente!) e outros da mesma estirpe. É o amargo preço que se paga pela tal governabilidade.

Mas, na economia, justamente pelo descalabro em que o PT colocou o País, o presidente interino pode e está colocando gente que tem condições de fazer (ou iniciar, porque a tarefa não é para curto prazo) o conserto tão urgente e necessário. Os brasileiros serão muito gratos se em 2018, para a eleição do próximo presidente, Temer entregar um país com a economia mais equilibrada, de novo no rumo do desenvolvimento e, quem sabe, gerando empregos em vez de estar destruindo postos de trabalho.

Talvez uma prova de que há motivo para ter esperança foi dada pela dona do Magazine Luiza, a empresária Luiza Trajano, que na semana passada, num evento em São Paulo, disse que agora há uma “luz no fim do túnel”. A empresária, que sempre negou a crise pela amizade com Dilma Rousseff (em 2013, no programa “Manhatan Connection”, ela rebateu o pessimismo do jornalista Diogo Mainardi com a economia brasileira), parece ter dado a mão à palmatória, ao reconhecer que o emprego e a renda no Brasil “caíram demais”, e que esses fatores são essenciais para “mover” o varejo.

“Três coisas movem o varejo, e elas são a renda, o emprego e o crédito. O emprego caiu demais, a renda caiu demais e as pessoas não estão buscando crédito”, disse a empresária, considerando, porém, que as tendências da economia parecem estar melhorando. “Parece que agora a economia está encontrando uma luz no fim do túnel”, afirmou.

Mas, há mesmo motivo para esperanças, mesmo que se saiba que melhoria mesmo só a partir de 2017, se a equipe econômica de Te­mer, com o goiano Henrique Mei­relles à frente, fizer o dever de casa?

Sim, há motivo para esperança, pelo que avaliou o novo presidente do Instituto de Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Ernesto Lozardo, ao tomar posse no dia 1º. Segundo ele, a queda de 0,3% do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre deste ano já sinaliza positivamente a recuperação econômica — no trimestre anterior, a economia registrou retração de 1,3%.

Lozardo afirmou que, apesar de não haver reversão, há sinais de estabilização neste momento de recessão. “É uma possibilidade de abertura para uma recuperação lenta do crescimento em 2017. Mas isso já em função de um novo ambiente macroeconômico que está se criando no país, tanto de reação cambial quanto em relação à questão inflacionária, e o PIB está dando seus primeiros passos de reversão.”

O PIB (que é a soma todos os bens e serviços produzidos no país) fechou o primeiro trimestre do ano em queda de 0,3% (R$ 1,47 trilhão em valores correntes) na série sem ajuste sazonal. Trata-se da quinta queda consecutiva nesta base de comparação, como divulgou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No ano passado, o PIB fechou em queda de 3,8%, a maior desde em 1996, início da série histórica.

Lozardo acredita que no segundo semestre começará a haver uma recuperação, ao observar que tudo vai ser melhor porque o país chegou a uma situação tão dramática que, quando se começa a ter um pouco mais de lógica na política macroeconômica e na austeridade, e a sociedade está entendendo a necessidade do sacrifício, reverte-se. “O pessimismo torna-se cada vez melhor e a confiança cresce gradualmente.”

Segundo o novo presidente do Ipea, o crescimento se dá quando se coloca uma realidade fiscal no país e não se ameaça o emprego das pessoas. E, de fato, os brasileiros estão com medo do desemprego, que já atinge cerca de 12 milhões de pessoas. Lozardo não mostra um otimismo ufanista, admitindo que será difícil reconstruir o que Dilma e seus pelintras desmancharam.

Luiza Trajano admitindo que a crise prejudicou a economia: “Agora há luz no fim do túnel”

Luiza Trajano admitindo que a crise prejudicou a economia: “Agora há luz no fim do túnel”

Mas, agora, é preciso ter um horizonte para a economia. “E o horizonte é muito claro, é maior abertura econômica, maior competitividade e equilíbrio fiscal. Sem equilíbrio fiscal não dá para pensar em nada em termos de prosperidade, nada em termos de crescimento, muito menos em ter uma sociedade mais próspera e nos livrarmos da famosa armadilha de uma sociedade pobre.”

Ao dar posse a Lozardo — e também aos novos presidentes da Caixa Econômica Federal, Gilberto Occhi; do Banco do Brasil, Paulo Caffarelli; da Petrobrás, Pedro Parente; e do Banco Nacional de Desenvol­vi­mento Social e Econômico (BNDES), Maria Silvia Bastos — Temer disse que o Ipea é um “celeiro de ideias” e que o novo auxiliar não é alguém que “produz ideias que só geram diagnósticos”, mas alguém que faz projetos “que alimentam a formulação de políticas consistentes”. E ninguém há de negar que faltou formulação a Dilma Rousseff, razão direta do fracasso de seu governo.

O novo presidente do Ipea disse ainda que o país começou a dar clareza das atividades fiscais, estabilidade na política monetária para, então, dar aos investidores e ao consumidor um perfil de crescimento e redução do nível de desemprego.

“Estamos empenhadíssimos, não só para a ordem fiscal, receita e despesa, mas também por uma racionalidade dos gastos públicos, sem o populismo dentro do Orçamento. Nós temos que ter compromissos sociais sim, mas sem a demagogia fiscal. O equilíbrio fiscal traz ao Brasil a ordem monetária, o equilíbrio cambial e a credibilidade nacional”, argumentou.

Lozardo disse que sua missão será a formação de uma estratégia de desenvolvimento econômico. “Estratégica com que horizonte? Para onde vamos? Como vou chegar a uma sociedade que venha a ter amanhã uma renda média de US$ 20 mil per capita? Tenho que ter uma meta e com que instrumentos vou chegar lá. Quando se fala da ponte para o futuro, a ponte é chegar a esse lugar, dobrar a renda per capita brasileira.”

O que a presidente afastada queria fazer com voluntarismo e canetadas, Lozardo lembrou que a estratégia envolve investimentos com formas de atração do capital externo. “Temos que atrair os investidores internacionais. Tudo isso dentro de uma arquitetura política estável, de uma arquitetura fiscal estável e ganhando a credibilidade da sociedade, dos trabalhadores que estavam sendo explorados para fazer o sacrifício do crescimento.”

Lozardo preconizou um cenário efetivo de crescimento daqui a dois anos. Observou que ainda há um trabalho árduo, pela frente, de recuperação fiscal. “Acho que em 2018 teremos um resultado bem mais promissor, não mais de recessão, saindo dessa recessão e caminhando para um plano de crescimento mais estável e mais seguro.”

Que assim seja.

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