Cezar Santos
Cezar Santos

Fora da política é o caos

Muitos que reclamam da qualidade dos nossos políticos se esquecem que votaram nos que são alvos de suas reclamações

Congressistas votam projetos: qualidade da maioria é baixa, mas são garantia da democracia
Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

A operação Lava Jato está purgando o sistema político brasileiro. Sabe-se agora que o PT, que vendeu o discurso de ser ético e diferente dos outros partidos, exponenciou tudo o que havia de podre e de perverso no sistema. E o fez de tal forma e com tanto desassombro que forçou a supuração da gangrena.

O Brasil deve isso ao PT e a Lula — o partido e o presidente mais corruptos da história do País: o escancaramento da podridão. Não que os outros partidos fossem ou são limpos. Para citar os dois maiores, o PMDB de gente como José Sarney, Renan Calheiros, Romero Jucá e tantos outros está aí para provar; os tucanos emplumados com Aécio Neves, José Serra e tais estão aí a confirmar um sistema em metástase moral.

Mas, enquanto isso, no rescaldo da Lava Jato, percebem-se muitas manifestações do tipo “tem de acabar com esse Congresso”, ou “é preciso fazer uma nova Constituinte”, e ainda “nenhum político presta”, e coisas nesse mesmo teor.

Quem se manifesta nesse sentido está, de forma explícita, dizendo que é preciso fazer um tipo de tábula rasa do País que somos para surgir um novo Brasil, com uma nova classe política, com novos Legislativos, novos Executivos e, por que não?, novos Judiciários. Um Brasil, limpo, honesto, justo, sem problemas ou com todos os problemas resolvidos da melhor forma possível.

Se tal Brasil limpinho é muito bonito como ambição, o problema é que isso é uma utopia. Podemos ser um país melhor, claro, mas não perfeito. Não haverá um Brasil assim, como não há nenhum outro país assim; mesmo os gigantes do Primeiro Mundo não são. Mas o brasileiro comum, expoliado sempre de seus direitos básicos, tende a embarcar nesse discurso, proferido por muita gente que se quer esclarecida e bem-pensante.

É verdade que os nossos políticos são, na média, muito ruins. Verdade que uma grande parte deles, talvez se possa dizer mesmo que a maioria, é corrupta, incompetente e interesseira. Muitas vezes, o nível dos nossos congressistas chega a causar horror, e é isso o que o nosso cidadão vê.

E, infelizmente, para essa percepção muito contribuiu Lula da Silva (olha ele de novo aí), um homem que veio de baixo e que talvez, por isso mesmo, muitos esperassem dele a pureza que acreditam ser apanágio intrínseco do “pobre”. Se Lula, o puro, roubou como roubou, o que esperar dos outros, não tão puros?

Mas o fato é que um país só se vi­abiliza como nação quando sua política é funcional. E para tristeza dos puristas, quem faz política, compreendida como exercício dos instrumentos de direção de um Es­tado e determinação das formas de sua organização, são os… políticos.

As redes sociais são um dos novos instrumentos que permitem ao cidadão comum se manifestar politicamente de forma mais autônoma e rápida. E por ser cômoda, por poder ser exercida no conforto de casa, a grita dos iludidos pode ser amplificada nas redes sociais.

É fácil, no conforto de casa, postar “fora o governo corrupto de Michel Temer”, por exemplo, que até não petistas estão esgrimindo, por causa do tanto de gen­te próxima ao peemedebista enrolada na Lava Jato. Esse grito de “abaixo os políticos” e “fora a política” também é jogado no ar na imprensa, nas mesas de bares, nas reuniões de amigos e familiares.

Os políticos ruins devem sim ser execrados. Político que rouba tem sim de receber o opróbrio da sociedade. Mas quando se joga todos no mesmo caldeirão, sem distinção de bons (sim, há os bons) e ruins, o que se faz nada mais é que a negação do instrumento de viabilização da democracia. Por que só a política – e os políticos – sustenta a democracia efetiva.

Regimes ditatoriais eliminam a política. Ditaduras negam a política, porque só permite a política que coonesta a própria ditadura. Di­tadores eliminam o contraditório e os opositores. Na Venezuela, há poucos dias, a Corregedoria Geral da República, dominada pelo presidente Nicolás Maduro, inabilitou o governador do Estado de Miranda, Henrique Capriles, opositor, para disputar cargos eletivos por um período de 15 anos. Capriles poderia disputar (e ga­nhar) a presidência na eleição marcada para daqui a alguns meses.

Para dar apenas mais dois exemplos e não nos alongarmos mui­to, alguém tem a ilusão de que na Rússia de Stálin a política era exercida a contento? Stálin simplesmente matava ou mandava para a prisão qualquer um que ele imaginasse que poderia lhe causar problemas. Na Cuba de Fidel Castro a política era exercida de forma efetiva? Centenas de milhares de cubanos que não concordavam com a ditadura foram mortos ou presos.

Muitos dos que gritam “fora os políticos” não percebem que estão namorando soluções ditatoriais. Alguns têm consciência disso, e vão além ao pedir a volta do regime militar como solução contra os políticos. Nas manifestações de ruas ocorridas nos últimos anos no Brasil, sempre se vê grupelhos com cartazinhos pedindo a volta dos militares. A dúvida é sobre quem seria pior: os iludidos de boa-fé ou os conscientes da asneira?

Somos uma democracia. Falha, com problemas, mas uma democracia. Falha tanto pelas suas contradições quanto pela baixa qualidade dos muitos políticos ruins que nos representam no exercício da nossa democracia. E aí, não custa lembrar: os políticos que nos representam são escolhidos por nós, eleitores.

Nossos congressistas nos representam. Se quisermos que eles sejam melhores, cabe a nós escolhermos melhor, ou seja, votarmos melhor. Dizer não aos políticos em geral é uma asneira. Escolher melhores políticos é atitude civil.

Mesmo que eu ache impraticável, não posso deixar de considerar que é válida, por exemplo, uma campanha nas redes sociais que prega o seguinte bordão: não reeleja nenhum político. Fosse possível, seria uma boa forma de depurar o sistema. Renovação de 100% das nossas casas legislativas, dos governos municipais, estaduais e federal.

Se tal campanha se mostra muito difícil na prática, pelo menos ela não nega a política nem os políticos. É com eles que temos de seguir adiante. São aqueles congressistas “horrorosos” que vão tocar o barco até que os troquemos. Não adianta gritar que estão todos enrolados na Lava Jato e que, portanto, não têm legitimidade para fazer reformas, para legislar, para exercer o papel para o qual foram eleitos.

Há que mudar muita coisa e os cidadãos têm sim de manifestar suas contrariedades. Mas a democracia é um jogo com regras. Que a Lava Jato detone os políticos que infringiram as regras. Mas mesmo nisso, a democracia dá aos acusados chances de defesa, prazos. Enquanto isso, vamos votar melhor.

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